Uma Estrela com Mau Feitio

Proxima Centauri é a estrela mais próxima de nós, a cerca de 4.2 anos-luz. Trata-se de uma anã vermelha que orbita à distância um par de estrelas semelhantes ao Sol — Alfa Centauri A e B. O par é visível como uma estrela de magnitude 0 no céu austral. Proxima, no entanto, é tão débil que, apesar de estar mesmo aqui ao lado, só pode ser observada com um pequeno telescópio. Apesar deste recato, a estrela tem um temperamento irascível, alternando uma calmaria relativa com tempestades magnéticas imprevisíveis que projectam partículas como protões e núcleos de hélio e radiação ionizante — raios ultravioleta e raios X — para o espaço envolvente. Esta é, de resto, uma característica comum às anãs vermelhas, as mais pequenas, menos maciças e menos luminosas das estrelas. Parece um paradoxo mas há uma explicação perfeitamente lógica para este traço de personalidade tão peculiar.

Os planetas em torno de anãs vermelhas estão expostos a níveis de radiação muito elevados devido à actividade magnética vigorosa das estrelas hospedeiras.
Crédito: Mark Garlick / University of Warwick.

Para o leitor ter uma ideia daquilo a que me refiro quando falo em “mau feitio”, descrevo um trabalho publicado no sítio arxiv.org — um repositório de artigos científicos. Nele, uma equipa de astrónomos descreve uma super-erupção de Proxima Centauri observada pelo instrumento Evryscope, um conjunto de pequenos telescópios que obtêm imagens de uma região do céu com 8 mil graus quadrados (cerca de um quinto da esfera celeste) a cada 2 minutos. Em Março de 2016, este instrumento observou uma erupção de Proxima Centauri 10 vezes mais intensa do que qualquer outra observada da estrela. De facto, Proxima atingiu, durante alguns minutos, uma magnitude de 6.8, no limite de visibilidade a olho nu num céu sem poluição luminosa. Isto corresponde a um aumento de luminosidade de 60 vezes na região visível do espectro electromagnético.

Em Março de 2016, em poucos minutos, uma super-erupção aumentou o fluxo de radiação proveniente de Proxima Centauri para níveis nunca vistos.
Crédito: Howard et al.

Observações simultâneas com o espectrógrafo HARPS, no Observatório de La Silla, no Chile, permitiram identificar um crescimento abrupto da intensidade de linhas espectrais de emissão de elementos como hidrogénio, hélio, sódio, cálcio, ferro, silício e titânio, formadas numa camada adjacente à superfície da estrela designada por cromosfera.

Linhas espectrais de cálcio e de hidrogénio aumentam de intensidade em meados de Março de 2016 (em cima).
O espectro de Proxima obtido em 18 de Março (em baixo, vermelho) comparado com o espectro da estrela quiescente (em baixo, preto).
As linhas de emissão devidas à actividade da estrela são proeminentes durante a erupção.
Crédito: Howard et al.

Proxima tem vindo a ser alvo de intenso escrutínio na última década, especialmente depois da descoberta de centenas de sistemas planetários em torno de estrelas semelhantes. Será que a nossa vizinha tem planetas? Será que têm vida? Os astrónomos tentam incessantemente encontrar respostas para estas perguntas. Uma coisa é certa, se existirem, estão expostos a um ambiente hostil devido à actividade eruptiva da estrela. É difícil imaginar vida a surgir, muito menos a florescer, num ambiente constantemente banhado por radiação, mas sabemos tão pouco sobre a “vida” que é certamente presunção da nossa parte descartar essa possibilidade em hipotéticos planetas em torno da Proxima Centauri. Mesmo na Terra existem espécies, os extremófilos, que vivem e proliferam em ambientes a priori inimagináveis. A vida, provavelmente, tem ainda mais uns truques para nos ensinar.

Referência: artigo científico, AstroPT, AstroPT

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