Dez mandamentos contra a moda anti-vacinas

O biólogo, investigador e doutorado em Imunologia, Vasco Barreto escreveu um artigo muito interessante para o Observador.

O artigo defende a literacia funcional e critica fortemente os movimentos anti-vacinas que se aproveitam da ignorância científica das pessoas para colocá-las em perigo de vida.

Alguns excertos do artigo:

“A aceitação da ciência pelo grande público pressupõe a aceitação da autoridade dos especialistas, pois o cidadão comum não tem tempo, meios ou competência para ser ele a triar a literatura científica.

As vacinas salvam milhões de vidas e são imprescindíveis.
Mas nos últimos anos, nas sociedades ocidentais, surtos de doenças que julgávamos controladas despertaram-nos para uma realidade difícil de entranhar: há pais que não vacinam os filhos. Um optimista dirá que estes pais são ignorantes negligentes que devemos perdoar com tolerância cristã, pois não sabem o que fazem, e que para os trazer à razão bastará explicar-lhes a ciência. Mas um pessimista dirá que são ignorantes doutrinados, com a tal “intensidade apaixonada” de que fala Yeats num famoso poema, ou que serão ainda piores: egoístas de cálculo curto que se aproveitam da imunidade de grupo mas acabam por a pôr em risco, com consequências potencialmente dramáticas para os imunodeprimidos e quem não pode ser vacinado por ser demasiado novo ou alérgico a componentes de vacinas, e ainda estupidamente trágicas, se quem vier a sofrer e morrer forem os próprios filhos daqueles que recusaram as vacinas.

Como se explica que, depois de feitos extraordinariamente bem-sucedidos da ciência e de políticas de saúde pública de grande escala, como a erradicação da varíola e as campanhas de vacinação contra a poliomielite, ainda haja dúvidas quanto à utilidade das vacinas ou uma falta de civismo e solidariedade de que resultam surtos de sarampo em Portugal, como o que em 2017 fez uma vítima mortal e o de há poucas semanas, que por sorte não matou ninguém?

(…)

A esta nova técnica, em que se procura mobilizar as nossas defesas naturais para que o corpo crie uma memória imunitária mas com o cuidado de não induzir a doença de que nos pretendemos proteger, chamou-se vacinação, do latim “vaccinus”, que significa “derivado da vaca” (…).

(…)

(…) Porque as provas de que as vacinas funcionam são avassaladoras há muitas décadas. Por exemplo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, as vacinas evitaram pelo menos 10 milhões de mortes no mundo entre 2010 e 2015 e a poliomielite está hoje presente em apenas três países. Em Portugal, no período de 1956 a 1965, antes da introdução das vacinas, os casos e óbitos provocados por tosse convulsa, poliomielite, tétano ou difteria foram 19.100 e 1457, respectivamente, baixando esses números para 913 e 23 no período de 2006 a 2015, já depois da introdução das vacinas. São números incontestáveis e esclarecedores.

A reemergência da desconfiança atávica às vacinas é uma consequência da eficácia dos planos de vacinação e do nosso modo de vida. Já ninguém se cruza na rua com uma cara desfigurada pela varíola, vão morrendo aqueles que coxearam quase toda a vida por terem contraído poliomielite (…), vivemos hoje em meios altamente higienizados, com acesso permanente a água potável, outros confortos de saneamento básico e beneficiando da protecção de entidades que fiscalizam a qualidade dos nossos alimentos. Mas a repetida explicação da vacinação como vítima do seu próprio sucesso é curta.

Em paralelo com o aumento da literacia científica e o primado de uma medicina e políticas públicas baseadas na evidência, nas sociedades desenvolvidas vão ganhando popularidade práticas pseudo-científicas, na forma de cultos e rituais variados, de que são exemplo o endeusamento da natureza e dos produtos naturais ou o fascínio por terapias não convencionais, como a homeopatia, e por energias estrambólicas que parecem animar uma espiritualidade pimba. Outros mais competentes e perspicazes saberão explicar a pujança actual destas manias e cultos, se são resultado da decadência das grandes narrativas políticas e do fraco apelo das religiões tradicionais, de uma cultura narcisista e dada a caprichos, em que se procura forjar uma identidade, do labor de aldrabões que conseguiram criar uma comunidade de consumidores manipuláveis, de redes sociais que promovem novas cavernas de Platão, em que as comunidades se isolam para reforçar as convicções partilhadas, de uma oferta informativa e de plataformas de discussão vastíssima em que nos perdemos com facilidade, propícia à propagação de teorias da conspiração irresistíveis, que apelam à nossa vaidade (fazem-nos parecer mais espertos do que somos) e ao nosso ressentimento e indignação, assim minando a autoridade das instituições e dos especialistas.

É neste caldo cultural que surge a moda moderna de abdicar das vacinas por se julgar que se tornaram dispensáveis, que é melhor adquirir a imunidade de forma absolutamente natural (isto é, adoecendo), que as vacinas são tóxicas por causa do formaldeído, alumínio e compostos à base de mercúrio, que as sucessivas vacinas enfraquecem o sistema imunitário do bebé, que a vacina tríplice (anti-sarampo, parotidite e rubéola) provoca o autismo, que as grandes farmacêuticas nos impingem vacinas com a cumplicidade dos políticos, do clube de Bilderberg, etc.

Estas ideias profundamente erradas, de gente ignorante ou enganada, já foram desmontadas vezes sem conta (…).

(…)

O que vos deixo é um conjunto de sugestões – escritas ao jeito de mandamentos, só para que fiquem mais facilmente na memória – que visam limitar os danos que estas pessoas podem causar, impedir que cresçam enquanto comunidade e eventualmente trazer uns poucos de volta à razão. Adianto uma ressalva: intui-se destes “mandamentos” que defendo a autoridade dos especialistas e instituições com provas dadas. Assim é. Confunde-se muito a falácia do argumento de autoridade (alguém que abusa do seu estatuto para avançar ideias que não são depois avaliadas) com o respeito pela autoridade natural de quem se submeteu ao juízo crítico e ganhou o respeito dos pares, mas são situações distintas, sendo a primeira condenável e a segunda estimável.

(…)

As vacinas são uma intervenção pontual cuja virtude é pôr a funcionar as engrenagens celulares e moleculares do nosso sistema imunitário. Desta técnica se espera ainda muito mais. A esperança de um dia inventarmos vacinas eficazes contra a malária e a SIDA e as promessas da imunoterapia (as vacinas contra o cancro) dão a esta área de investigação um dinamismo que reforça o anacronismo dos seus inimigos.”

Leiam todo o artigo, incluindo os “mandamentos”, no Observador, aqui.

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