Conceções erradas na TV

Por vezes, ficamos admirados por as pessoas terem conceções erradas da ciência. Como são coisas já por demais explicadas, parece que as pessoas se mostram ignorantes porque gostam.

No entanto, estando atentos à cultura popular, vemos que muitas dessas ideias – erradas – são disseminadas em séries ou filmes populares. As pessoas vêem esses programas e assumem que estão a ver/ouvir algo que é verdadeiro. E assim, são enganadas a pensar que a ciência é de uma certa forma, quando não o é.

Vejamos alguns – poucos, para não ser chato – exemplos, por exemplo, vindos da série Stargate Atlantis.

Esta série mostra que, supostamente, a nossa civilização humana descobriu um artefacto (Stargate). Esse artefacto permite que várias equipas explorem milhares de planetas em duas galáxias diferentes.

Poderia ser uma série com muita ciência. Pelo menos, tem muita tecnologia.

Como tem muita tecnologia, e como é supostamente, mais avançada que a nossa tecnologia, então é “normal”, na mente das pessoas, que algumas coisas que lá se dizem sejam verdadeiras. E se essas coisas são sobre o processo ou a filosofia da ciência, então isso deve ser conhecimento aceite nos livros.

No entanto, o que vemos é que ideias erradas sobre a ciência são disseminadas sobre esse manto de “tecnologicamente superiores, então sabem mais que nós”.
Desta forma, as pessoas ficam a pensar coisas sobre a ciência que não são verdade.

Dando três exemplos:

Na 2ª temporada, no episódio 14, Grace Under Pressure, o Capitão Hugh Griffin defende várias ideias erradas sobre a história da ciência, incluindo o mito de que no tempo de Colombo, as pessoas pensavam que a Terra era plana. Ele usa este exemplo para mostrar que a ciência está sempre a enganar-se. Ele diz mesmo: “Os cientistas erram mais vezes do que acertam”.
Este é um exemplo de conceção errada sobre a ciência que existe muito na cultura popular, e que é disseminada em séries deste género. Talvez porque quem escreve estes diálogos também não sabe o que é ciência e tem estas ideias erradas.

A verdade é que já se sabia há cerca de 2000 anos que a Terra era redonda. Aristóteles provou isso cerca de 2000 anos antes de Colombo. O que não se sabia com certeza era o tamanho do planeta, o tamanho do globo. E apesar de existir consenso na Era dos Descobrimentos (porque Eratóstenes, quase 2000 anos antes, também já tinha calculado isso), a verdade é que Colombo não concordava com os outros… e enganou-se. Foi Colombo que se enganou, não a ciência. E enganou-se no tamanho, não na forma do planeta.

Do mesmo modo, a ciência não erra. A ciência define-se como um acumular de conhecimento. Por isso, vamos tendo sempre mais e mais informação sobre os fenómenos.
Tudo isto já foi explicado, neste artigo.

Curiosamente, ele também diz que Colombo era espanhol. Ou seja, ele confunde o facto de Colombo estar às ordens dos Reis de Espanha com a sua nacionalidade. O facto é que Colombo era italiano.

À parte disto, o episódio até é muito bom, devido às cenas de claustrofobia, às alucinações e às mensagens que são passadas, como por exemplo: confia na tua equipa.
Curiosamente, no final do episódio, o cientista – apesar de ter ficado irritado com a ignorância do capitão – reconhece que o capitão era um homem corajoso (já que se sacrificou para salvar o cientista, por este ter mais conhecimento). Ou seja, o cientista compreendeu que as pessoas têm várias dimensões.

Na 4ª temporada, no episódio 1, denominado Adrift, existem duas das mais populares conceções erradas em séries e filmes de ficção científica: grandes explosões no espaço com um estrondoso som (não se devia ouvir qualquer som), e um campo de asteroides super-povoado (quando na realidade os asteróides deviam estar bastante espaçados, mas isso não traria impacto visual e de suspense à cena).

Na 5ª temporada, o episódio 16 denominado Brain Storm, até começou bem, com os convidados Neil deGrasse Tyson e Bill Nye, e teve uma grande reflexão quando é dito que combater o Aquecimento Global não é salvar o planeta porque o planeta vai continuar por bilhões de anos, sem precisar de humanos, sendo somente uma rocha (como já explicamos neste artigo).
Mas infelizmente caiu também nas ideias erradas.

Por exemplo, o episódio é sobre o desenvolvimento de uma novidade tecnológica. Ora, essa novidade foi recebida com muito ceticismo, e o argumento foi de que as novidades tecnológicas correm sempre mal e podem acabar com o mundo. Como aconteceu com os medos infundados sobre o início do LHC, que as pessoas diziam que ia criar um buraco negro que iria engolir o mundo. Aliás, no episódio, dão precisamente esse exemplo. O problema é que no episódio, a coisa corre mesmo muito mal. Isso é o oposto do que acontece na realidade, mas as pessoas ao verem o episódio ficam a pensar que em ciência, as coisas podem mesmo correr mal (como sobre o LHC).

Um outro exemplo é quando o Dr. McKay diz que tem uma “workable theory”, uma teoria funcional. E os outros descartam isto, dizendo “A theory? Pffff” – “Só uma teoria? Então não vale a pena”. Nesta conversa, claramente se percebe que eles não sabem distinguir entre ideias, hipóteses e teorias (como já foi explicado neste artigo). Ou seja, disseminam ideias erradas sobre terminologia científica.

2 comentários

    • Alexandre Santos on 18/11/2018 at 04:20
    • Responder

    Caro Carlos,
    Acho que existem algumas dúvidas relativas à nacionalidade/naturalidade de Cristóvão Colombo.
    Junto três artigos sobre este fascinante tema que tem gerado polémica entre alguns académicos.
    https://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-06-03-Polemica-sobre-a-origem-de-Colombo-divide-investigadores-afinal-o-navegador-era-genoves-portugues-ou-catalao-
    https://www.publico.pt/2008/05/23/culturaipsilon/noticia/cristovao-colombo-era-portugues-e-de-cuba-1329784
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Teorias_sobre_a_origem_de_Cristóvão_Colombo
    Abraço
    Alexandre Santos

    1. Tem toda a razão. Mas penso que o consenso é ele ter sido Italiano 😉

      abraço!

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