Wandering Earth

Num futuro próximo, o Sol aumenta de tamanho e está a caminho de se tornar uma gigante vermelha.

Perante esta crise, os governos mundiais juntam-se num só governo chamado de Terra Unida.

O Governo da Terra Unida inicia o Projeto Terra Migratória/Errante (Wandering Earth), em que colocam 10.000 motores de propulsão de um dos lados da Terra, tornando-a numa nave espacial. O objetivo é levar o planeta Terra até ao sistema de Alpha Centauri, e assim sobreviver ao fim do Sol.

Enquanto a superfície terrestre se torna inabitável, a população sobrevivente é levada para cidades subterrâneas.

O astronauta chinês Liu Peiqiang é enviado numa missão para a estação espacial.
O seu filho Liu Qi é deixado ao cuidado do avô, Han Zi’ang. Com eles fica a irmã adotiva de Liu Qi, Han Duoduo.

No seu trajeto, quando a Terra passa por Júpiter, ela é capturada. O planeta Terra fica em rota de colisão com o gigante gasoso.

Então, lembram-se de incendiar parte da atmosfera de Júpiter, de modo à combustão provocar uma onda de choque que afaste o planeta Terra.
Quando isso não tem sucesso, o pai-astronauta Liu Peiqiang envia a estação espacial, cheia de combustível, para a atmosfera de Júpiter, provocando a ignição, e salvando o planeta Terra.

The Wandering Earth é um filme de ficção científica chinês, sendo uma adaptação de um conto.
Parece-me um filme que proporciona um bom entretenimento.

A ideia na base do filme fez-me lembrar a série Espaço 1999.
Neste filme, temos a Terra a sair da sua órbita para viajar, errante, pelo Universo.
Na série da década de 1970, tínhamos a Lua a sair de órbita e a servir de nave espacial para vários ocupantes.

De resto, pareceu-me um filme semelhante aos muitos que saíram, antes do ano 2012, sobre as inúmeras desgraças que iriam existir em 2012.
É um blockbuster.

É um filme que se concentra bastante na parte visual.
Visualmente é excelente. Existem fabulosas imagens espaciais.
As imagens da estação espacial, as imagens de Júpiter e da sua grande mancha vermelha, e sobretudo a imagem da Terra a perder atmosfera são bastante apelativas.

Adorei fazerem referência ao movimento de gravidade assistida.
Tal como fazemos com várias das nossas sondas espaciais, também no filme os cientistas pretendem utilizar este movimento de slingshot para impulsionar a Terra na direção do sistema planetário mais próximo.

Adorei a referência ao Limite de Roche.
Ao ultrapassar o Limite de Roche de Júpiter, a Terra iria ser destruída.

Também adorei a bola insuflável que se contrai e imediatamente se “abre”.

Gostei de MOSS: a inteligência artificial que comanda a estação espacial.
Penso que uma Plataforma Espacial de Navegação deverá ter inteligência artificial a comandá-la. Assim, não existem tantos riscos de erros humanos.
Além disso, como se vê pelo filme, MOSS toma as decisões mais racionais, mais acertadas de um ponto de vista lógico. Já o comandante, humano, é mais emotivo e pode deitar tudo a perder.
MOSS, corretamente, revela que a hipótese de incendiar Júpiter não terá qualquer sucesso. Infelizmente, a história não quis saber da racionalidade.

No geral, penso que se deve elogiar a entrada da China no reino da ficção científica. Estamos perante o maior mercado do mundo, e os números de bilheteira falam por si.
Assim, este filme ajuda à promoção da imaginação espacial nos jovens chineses.

Parece-me também que é evidente que é um filme chinês. O filme está, obviamente, impregnado da cultura chinesa.
Por exemplo, não são super-heróis a salvar a Humanidade, mas sim pessoas normais.
Também não é um só indivíduo que salva toda a gente. Neste filme é claramente assumido que só a união entre todos faz a força (uma das cenas finais é disso demonstrativo). Também se assume que toda a Humanidade (toda a gente) tem o seu destino interligado com todos os outros: juntos podemos mudar as coisas.
Isto são mensagens sociais próprias da cultura chinesa, mas opostas ao individualismo americano.

Além desta mensagem humanitária, também temos as habituais mensagens de esperança que vemos noutros filmes.

Um outro aspeto da cultura chinesa é o seu apego ao lugar onde vivem.
Os americanos são mais “viajados”, mais “desapegados”, daí os filmes americanos promoverem mais a colonização de outros locais do sistema solar.
Provavelmente devido a isso é que, neste filme, a Humanidade não decide deixar a Terra para trás e ir viver para outro lado (para viverem no subsolo, podiam viver em qualquer local, não precisava ser na Terra). Se fosse um filme americano, provavelmente escolheriam a opção mais lógica: sair da Terra e tentar viver noutro local.

Por fim, vemos, mais uma vez, um pai que no final se arrepende por ter dado mais valor à profissão, em detrimento da sua família.

O filme tem um grande problema: não é em inglês.
Estou habituado a ouvir o inglês e a perceber.
Ao ver o trailer deste filme, ouvir os atores em chinês (que não entendo) e ter que ler as legendas em inglês, torna-se confuso.
Felizmente, vi o filme em inglês. Mas não gosto de dobragens. Neste caso, é melhor que o filme ser em chinês, mas nas dobragens perde-se sempre parte do sentido das expressões. Além disso, ouvir vozes e ver lábios a mexerem-se de forma não-sincronizada dá-me arrepios.

Também não gosto do filme parecer ter vários aspetos de manga.
O exagero de algumas cenas e o absurdo de várias situações levaram-me para esse tipo de banda desenhada/quadrinhos.
Mas, tal como a manga, também o filme tem piada em algumas cenas.

Não gostei, sobretudo, da 2ª hora do filme. É extremamente confusa.
Aliás, o filme começa a decair após os 5 minutos iniciais com a explicação da ideia-base do filme.

Os personagens também não me surpreenderam pela positiva. Pelo contrário. Não há qualquer ligação emocional às personagens.

Não compreendo a personagem de Han Duoduo.
Ao contrário dos filmes das últimas décadas de Hollywood (com personagens femininas fortes, como em Alien, Contacto, etc), neste filme a personagem feminina é retratada como uma tontinha.
E porque Liu Qi levou a sua irmã adotiva à superfície, se passados poucos minutos diz-lhe que ela tem que retornar à cidade subterrânea enquanto ele vai salvar o mundo? Não faz qualquer sentido. Ou a leva ou não a leva. Mas levá-la para lhe dizer que ela deve voltar, é uma estupidez.

O grande problema do filme é a nível lógico-científico-racional.

Não entendo o que aconteceu ao Sol.
Só daqui a cerca de 5 mil milhões de anos o Sol se tornará gigante vermelha. No entanto, este processo é gradual. Dentro de mil milhões de anos, já não se poderá viver à superfície da Terra.
Assim, como é que no filme é assumido que num futuro próximo, o Sol se vai tornar uma gigante vermelha? É errado cientificamente.

Também é errado o filme afirmar que o Sol vai engolir a Terra em 100 anos e vai fazer desaparecer o sistema solar em 300 anos.
A verdade é que não há consenso sobre se o Sol chegará à órbita da Terra. Mas o que é certo é que o Sol não fará o sistema solar desaparecer. Vários planetas (e muitas luas) continuarão, certamente.

Além disso, tendo em conta o que conseguimos nos 200 mil anos de Humanidade, ou até nos últimos 500 anos, parece-me absurdo pensar que se passarão ainda muitos anos até termos uma Terra unida.
E mais absurdo ainda é pensar que só nessa altura, iremos colonizar outros planetas.

De qualquer modo, perante a crise solar, os governos mundiais juntam-se num só governo chamado de Terra Unida. Este governo único mundial está retratado no filme por comunicações com a estação espacial.
Mas isto já existe. Chama-se Nações Unidas. As Nações Unidas eram perfeitamente capazes de fazer o que esse governo da Terra Unida faz.

Não me parece que a solução mais racional para salvar o planeta Terra, seja impulsionar o planeta numa viagem para outro sistema solar.
Percebo que se queira “fugir do Sol”. Mas bastaria colocar o planeta numa órbita mais externa.

Consigo perceber porque os argumentistas pensam que a superfície da Terra vai gelar/congelar: porque se afasta para uma órbita exterior.
Mas esses efeitos não seriam contrabalançados por o Sol estar mais próximo?

Não entendo para que realmente serve a estação espacial, também chamada de Plataforma Espacial de Navegação.
Eu percebo o porquê dela estar na história, mas não percebo a necessidade. Os 10.000 motores, com jatos, ao se ligarem uns e não outros, já navegavam o planeta, como se faz nas naves, sem necessidade de navegação exterior.

E a Lua, também vai ligada gravitacionalmente ao planeta?
No filme, parece que a Lua fica para trás; não vai com o planeta.

A ideia de que 10 mil motores conseguem impulsionar todo um planeta, parece-me similar ao mito de que se todos os chineses saltassem ao mesmo tempo fariam a Terra mudar de órbita.

É muito estranha a estratégia de se parar a rotação da Terra.
Supostamente, o objetivo é criar megatsunamis que matem metade da população mundial. Assim, a população humana é reduzida drasticamente. Deste modo, só os sobreviventes vão para as limitadas cidades subterrâneas que são construídas.
Eu até entendo o raciocínio semelhante ao do Spock (em Star Trek): The needs of the many outweigh the needs of the few.
No entanto, porquê ter tanto trabalho (parar a rotação da Terra) para erradicar parte da população? Existem outros métodos menos trabalhosos.
Além disso, para quê perder tanto tempo nisso? Seria mais eficiente utilizar-se uma lotaria, por exemplo, em que os vencedores iriam para as cidades subterrâneas – como no filme Impacto Profundo.

Com essa paragem da rotação, existiriam muito mais desastres do que “somente” megatsunamis. A superfície terrestre parece estar demasiado “normal”, para esse grande evento se ter passado há cerca de 10 anos.

E ninguém se uniu contra um Governo Mundial que mata quase 4 mil milhões de pessoas? Não existe uma resistência?

Não entendo como é que uma Terra errante continua a ser habitável.
É paradoxal termos atmosfera a perder-se para o espaço, e pessoas a andarem/trabalharem (e conduzirem carros) na superfície terrestre normalmente…

E existindo essa menor pressão atmosférica, como é que os aviões continuam a voar pelos céus?
Nada disto devia ser possível…

Supostamente, a Humanidade sobrevivente passou a viver maioritariamente em cidades subterrâneas.
Essas cidades estão a 5 quilómetros de profundidade. Seria preciso tanto?
Seria provavelmente mais fácil criar condições à superfície (ou próximo da superfície) para habitar, do que criar cidades inteiras a 5 km de profundidade (com condições extremas de pressão e temperatura).

Não entendo porque ir à superfície é um crime: Liu Qi e a sua irmã são presos por irem à superfície.
Mas supondo que a superfície é quase inabitável (porque está congelada), então o único problema que os curiosos têm é o risco de morte.
Mas não devia ser proibido.

Sendo isto um filme, claro que a solução dos motores tem problemas: quase 5.000 motores deixam de funcionar. Não se percebe se foi uma reação em cadeia.

Liu Qi não sabe conduzir camiões.
Por isso, quando pega num camião com a chave do avô, tem acidentes e vai aos esses. Mas nenhum dos outros condutores nota, nem nenhuma autoridade vai atrás dele. Ninguém percebe que não é o seu avô a conduzir, que era motorista profissional.
Por outro lado, ele nunca tinha conduzido. Mas após alguns minutos, já conduzia bem. É irrealista.

Quando Liu Qi é apanhado, não faz sentido não lhe ser retirado o acesso ao cartão do avô (para conduzir).

A Terra, na sua viagem pelo sistema solar, passa por Júpiter.
É capturada por Júpiter.
Se ficasse como uma lua de Júpiter, além de ser realista, estaria o assunto resolvido para os Humanos. Infelizmente, não foi esta a solução adotada no filme.

Com a grande mancha vermelha a ocupar todo o céu terrestre, a gravidade de Júpiter deveria já ter destruído a Terra. Não faz sentido ter o planeta tão perto de Júpiter e não existirem mais efeitos gravitacionais.

Liu Qi propõe-se a acender a atmosfera abundante de hidrogénio de Júpiter para “soprar” a Terra para longe.
Mas Júpiter não tem oxigénio para se poder “incendiar”. Nem sequer tem concentração atmosférica suficiente para uma reação em cadeia. Nem a sua temperatura é consentânea com incendiar algo.
Será que eles pensaram em “incendiar Júpiter”, porque é semelhante em composição ao Sol? Mas a ignição do Sol é devida a reações nucleares e não a incêndios na superfície.

O computador MOSS tinha razão: esta solução nunca daria certo.

Além disso, a ignição supostamente provoca uma onda de choque que gentilmente empurra a Terra para longe. Ora, isto é um disparate.
Supondo que a ignição até se dava, e que existiria essa onda de choque capaz de empurrar planetas, essa onda destruiria a Terra. No mínimo, arrancar-lhe-ia toda a atmosfera.

Seguidamente, apesar da onda de choque destruir praticamente tudo na superfície terrestre, as personagens principais sobrevivem.
Este é um final previsível e totalmente irrealista.

Por fim, a Terra volta ao seu trajeto em direção ao sistema estelar mais próximo.
No filme é dito que só chegará a Alpha Centauri em 2500 anos, o que equivale a 100 gerações.
Primeiro, não seriam 2500 anos mas centenas de milhares de anos.
E segundo, seria muito melhor ficar numa nova órbita neste sistema solar.

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