Supernova em M101


(Crédito: Palomar Transient Factory)

O projecto Palomar Transient Factory anunciou a descoberta precoce de uma supernova de tipo Ia muito jovem na galáxia M101. A descoberta foi feita em imagens obtidas no dia 24 de Agosto, altura em que a supernova apresentava uma magnitude aparente de apenas 17.2 na banda “g” (parte verde do espectro visível). Imagens realizadas no dia 23 não mostravam nenhum objecto até à magnitude limite de 20.6 na mesma banda. A supernova e o respectivo tipo foram confirmados por espectroscopia realizada no Observatório Lick, nos Estados Unidos. O espectro mostra linhas de absorção intensas de Si II e Ca II (silício e cálcio ionizados), e a ausência de linhas de absorção de hidrogénio, características típicas de uma supernova de tipo Ia. As linhas de absorção apresentam um efeito de Doppler apreciável devido à velocidade do gás em expansão estimada em cerca de 16500 km/s.

Pensa-se que uma supernova de tipo Ia resulta da explosão termonuclear de uma anã branca que inicia a fusão explosiva do carbono no seu interior. Para que aconteça tal catástrofe a uma anã branca, deverá existir um estímulo exterior. Existem dois cenários à partida mais plausíveis e ambos impôem que a anã branca faça parte de um sistema binário. Num cenário, a fusão explosiva do carbono pode ser despoletada pela colisão com uma outra anã branca no sistema. No outro cenário, a anã branca acumula lentamente material proveniente de uma estrela normal no sistema, provocando um aumento da sua temperatura interna até que, eventualmente, um ponto crítico é atingido e a fusão explosiva do carbono despoletada. Não é claro qual dos dois cenários ocorre na natureza, ou se eventualmente os dois são possíveis. Vejam o vídeo que se segue com uma simulação numérica da explosão termonuclear.

(Crédito: Three-Dimensional Simulations of the Deflagration Phase of the Gravitationally Confined Detonation Model of Type Ia Supernovae, Jordan et al., 2007)

O telescópio espacial Hubble começou já a obter observações da supernova, aproveitando a sua descoberta numa fase tão precoce, ao abrigo do programa especial: “Towards a Physical Understanding of the Diversity of Type Ia Supernovae”. As supernovas de tipo Ia são muito brilhantes visualmente e esta deverá aumentar o brilho em pelo menos 6 magnitudes, atingindo o máximo de brilho nas próximas semanas entre as magnitudes 10 e 11, altura em que será perfeitamente visível com um telescópio modesto. Fiquem atentos a mais novidades !

Podem ver a notícia original aqui.

5 comentários

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  1. Obrigado Luís,muito bem explicado,porém,a transformação do Níquel/Cobalto/Ferro,é a mesma transformação de uma folha de papel em fumaça?claro que em proporções e temperaturas diferentes,e a medida que esfria vai se transformando,estou certo?

    1. Olá Álisson,

      a transformação Ni -> Co -> Fe é um decaimento radioactivo. No caso isto quer dizer que há uma alteração num dos protões ou neutrões no núcleo destes átomos com libertação de *muita energia* e partículas como electrões ou a sua antipartícula o positrão. A energia envolvida numa tal reconfiguração nuclear é muito superior à que é libertada quando queimas papel. Não é por acaso que os materiais radiactivos são tão perigosos. A energia da queima do papel é de origem química: as moléculas que constituem o papel são destruídas pelo calor e libertam a energia das ligações que as mantinham juntas.

  2. Agora tira uma duvida por favor,que infelizmente pra mim não ficou muito claro,qual o prossímo estagio dessa supernova,e qual o tempo médio para isto acontecer?Agradeço antecipadamente.

    1. Olá Álisson,

      a estrela, presumivelmente uma anã branca, explodiu. O que estamos a ver é a luz proveniente do gás quente em expansão rápida pelo espaço. Nos próximos dias a supernova deve atingir o brilho máximo (mag. ~ 11). Em seguida o brilho começa a diminuir, primeiro rapidamente e depois de forma suave e a um ritmo preciso. Este ritmo deve-se ao facto de, nesta fase (dentro de algumas semanas), o material em expansão ser iluminado por radiação de alta energia proveniente do decaimento radioactivo do Niquel 56 em Cobalto 56 e deste em Ferro 56. Esta situação perdura por vários meses à medida que o material radioactivo vai desaparecendo.

  3. O que mais gosto da Física: a aproximação dos modelos ao mundo real 🙂

  1. […] – Supernovas: Cassiopeia A misteriosa, Eta Carinae, Tycho, M101, SN 2011dh. Bala Cósmica – SGR 0526-66. Anel. Puppis. T […]

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