Os perigos do monóxido de dihidrogênio

Essa história já é um pouco velha, e relativamente bem conhecida. Li sobre ela pela primeira vez há uns 12 anos, na Scientific American. Ela me voltou à memória porque descobri recentemente que ocorreram repercussões cômicas (ou tragicômicas) aqui na terra da grande nuvem branca. E como talvez muitos leitores desse blog não tenham lido sobre essa história, pensei que um post sobre ela valesse a pena. Bem, vamos lá:

Ban-Dihydrogen-Monoxide

Tudo começou quando Eric Lechner, Lars Norpchen e Matthew Kaufman, da Universidade da Califórnia, alertaram para os perigos de um composto químico, o DHMO (Dihydrogen monoxide, ou monóxido de dihidrogênio), no fim da década de 80. O alerta ganhou força quando, em 94, Craig Jackson criou a Coalition to ban DHMO; logo em seguida, em 1998, foi criada a página dhmo.org, com uma série de alertas em relação a esse composto. Eis alguns:

– A inalação acidental de DHMO, mesmo em pequenas quantidades, pode levar à morte;
– A exposição prolongada ao DHMO sólido causa severos danos aos tecidos;
– O DHMO é o principal componente das chuvas ácidas;
– O DHMO gasoso pode causar queimaduras severas;
– O DHMO é o principal causador da erosão dos solos;
– A contaminação de circuitos elétricos com DHMO frequentemente acarreta curtos-circuitos;
– O DHMO é um dos gases responsáveis pelo efeito estufa;

O site lista uma série de outras ameaças relacionadas ao DHMO. Em seguida o site alerta que, apesar dos riscos conhecidos do DHMO, o composto continua sendo usado abertamente pelo governo, por indústrias e corporações, e até mesmo pelo público comum. Eis alguns exemplos:

– É largamente usado como solvente pela indústria;
– É usado em usinas nucleares;
– É ingerido por atletas profissionais, para aumentar a performance;
– É usado para o crescimento de plantas geneticamente modificadas;
– É usado como aditivo em produtos alimentares;
– Está presente em xampus, xaropes, bebidas alcoólicas, sucos, além de uma série de outros produtos largamente consumidos pelo público.

Além disso, o site lista uma série de outros fatos preocupantes sobre o DHMO:

– Praticamente todos os assassinos e homicidas, em toda a história da humanidade, ingeriram DHMO antes de praticarem seus crimes.
– O DHMO é encontrado em absolutamente todas as biópsias com tecidos neoplásicos, ou seja, cancerosos.
– O DHMO é livremente consumido por crianças e adolescentes no ambiente escolar, havendo mesmo máquinas específicas para o seu consumo.

Preocupados com o absurdo de uma substância química ser tão abertamente tolerada, muitos legisladores tentaram estabelecer limites para banir o uso do DHMO. Quando eu tomei conhecimento do assunto, como já disse, pela Scientific American, o artigo tratava de uma cidade norte-americana que realmente passou uma lei banindo o DHMO nos limites do município! Em 2004 uma outra cidade, na Califórnia, por pouco não baniu o DHMO. Petições para banir o DHMO foram entregues ao gabinete do Primeiro Ministro da Inglaterra. Um parlamentar da Austrália chegou mesmo a propor uma proibição mundial do uso do DHMO.

Essa história tragicômica me veio novamente à cabeça quando descobri, recentemente, que um parlamentar do Partido nacional da Nova Zelândia chegou a escrever para o Ministro da Saúde pedindo que esse tomasse providências sobre a DHMO, saiu até uma matéria no Herald.

E porque eu estou chamando todo esse imbróglio de tragicômico? Bem, se você chegou até aqui sem perceber que DHMO é um dos (não há apenas um) nomes da IUPAC para a água, volte e leia o post novamente.

Representação 3D de moléculas de água, ou DHMO (fonte: Science Photo Library)

Representação 3D de moléculas de água, ou DHMO (fonte: Science Photo Library)

Como interessado em biologia evolutiva, sei, e sei muito bem, os efeitos devastadores daquilo que chamamos de analfabetismo científico. Quem não trabalha com educação não imagina a quantidade de besteiras, absurdos, paradoxos, preconceitos e infelicidades que eu tive o desprazer de ouvir em relação a evolução, não apenas por estudantes (pois, como o nome nos diz, eles ainda estão vivendo o processo de aprendizagem) mas, o que é pior, por adultos, cuja opinião está infelizmente formada e cimentada. Mas o analfabetismo científico não faz suas vítimas apenas na biologia evolutiva. Matemática, probabilidade, psicologia, geografia, astronomia, fisiologia, zoologia, física e, no presente caso, química, estão também entre suas vítimas.

Quantas vezes eu não ouvi uma criatura dizer “eu não tomo substâncias químicas”! Deve viver de luz… Ou então, o que é pior, “eu sou contra as substâncias químicas”! Já ouvi pessoas dizendo que glutamato causa câncer e que por isso não comem glutamato… Sem saber que o glutamato é um aminoácido presente em apenas todos os seres vivos deste planeta! Ou então que não comem nada com conservantes, como o citrato de sódio… Outra substância presente em todos os seres vivos!

Será que essas pessoas nunca tiveram uma aula sobre o ciclo do ácido cítrico? Ou nunca viram o glutamato na tabela de aminoácidos? Ou nunca aprenderam sobre as normas da IUPAC para denominar substâncias químicas? Basta um nome técnico mais complexo como 6-(hidroximetil)oxano-2,3,4,5-tetrol para que as pessoas pensem num terrível tóxico mutagênico (no caso, esse é um dos nomes da glicose).

O problema é grave, pois cada vez mais os estudantes estão se desinteressando pelo conhecimento científico. O resultado disso é uma crescente massa de adultos que se consideram inteligentes e bem informados, mas cujo analfabetismo científico é assustador. A solução, muitos sabem, é criar nas crianças e adolescentes um interesse genuíno pelas ciências, mostrando que o conhecimento científico é não apenas útil, mas também prazeroso, saudável e bonito. Em como fazer isso é que reside o problema.

1 comentário

  1. Uma reflexão de um recebe críticas, uma crítica isolada passa anos e anos sem qualquer consideração, e se não houver repercussão​ construtiva, foi em vão ou desnecessária.

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