O Mito de Perseu e Andrómeda

Perseu e Andrómeda. Charles André van Loo, circa 1740.

Perseu e Andrómeda. Charles André van Loo, circa 1740.

O céu nocturno está repleto de personagens, criaturas e máquinas. As diferentes culturas que olharam para o firmamento transpuseram para ele alguns dos seus mitos mais importantes. A mitologia dos povos mediterrânicos está especialmente bem representada, em particular a de origem helénica. Um dos episódios mais celebrados desta mitologia, na arte e na escrita da civilização ocidental, é o salvamento de Andrómeda pelo herói, semi-deus, Perseu.

O Mar Mediterrâneo. Os povos que prosperaram nas suas margens foram os que mais contribuíram para a civilização ocidental. A nossa visão do firmamento é ainda hoje fortemente influenciada pela sua história e mitologia. Richard William Seale, 1745.

O Mar Mediterrâneo. Os povos que prosperaram nas suas margens foram os que mais contribuíram para a civilização ocidental. A nossa visão do firmamento é ainda hoje fortemente influenciada pela sua história e mitologia. Richard William Seale, 1745.

O reino da Etiópia situava-se algures na região oriental do Mediterrâneo (não coincide com a região a que hoje chamamos Etiópia). O rei e a rainha, Cefeu e Cassiopeia, tinham uma filha, a princesa Andrómeda. Cassiopeia era uma mulher bela, mas vaidosa e pouco prudente. Certo dia afirmou que ela e a sua filha eram mais belas do que as Nereidas, as 50 filhas de Nereu e Dóris. (Tétis, uma das nereidas, era a mãe de Aquiles, o herói grego da guerra de Tróia.) As Nereidas tinham uma associação muito próxima com Poseidon, o deus grego do mar, sendo frequentemente representadas na arte grega clássica montando golfinhos e cavalos marinhos.

As nereidas, as 50 filhas dos titãs Nereu e Doris, eram belíssimas criaturas de corpo feminino que habitavam o oceano. Gustave Doré, circa 1860.

As nereidas, as 50 filhas dos titãs Nereu e Doris, eram belíssimas criaturas de corpo feminino que habitavam o oceano. Gustave Doré, circa 1860.

Instado pelas Nereidas, a resposta de Poseidon a esta afronta não tardou, ordenando a destruição do reino pelo monstro marinho Cetus. Confrontados com a situação, os reis apressam-se a consultar um oráculo, procurando uma forma de acalmar a fúria de Poseidon. Mas a resposta do oráculo não podia ser mais cruel: para evitar a destruição do reino os reis devem oferecer a princesa Andrómeda em sacrifício, para ser devorada por Cetus.

Poseidon, o deus do mar, na sua quadriga, acompanhado pelas nereidas e pelos tritões. John Singleton Copley, 1754.

Poseidon, o deus do mar, na sua quadriga, acompanhado pelas nereidas e pelos tritões. John Singleton Copley, 1754.

Em desespero, e certamente pressionados pela população, os reis decidem a custo pelo sacrifício da filha. Andrómeda é levada até um promontório na costa, onde é acorrentada e espera a chegada de Cetus, resignada com o seu destino sombrio.

Andrómeda é acorrentada a um promontório pelas nereidas. Théodore Chassériau, 1840.

Andrómeda é acorrentada a um promontório pelas nereidas. Théodore Chassériau, 1840.

A história de Andrómeda intersecta-se aqui com a de um herói improvável — Perseu. A sua mãe, Danae, era uma princesa do reino de Argos, filha do rei Acrísio e da rainha Eurídice. Acrísio não tinha filhos. Certo dia, um oráculo revelou-lhe que um neto iria matá-lo. Em desespero, Acrísio fechou Danae numa torre tentando eliminar qualquer possibilidade de descendência pela parte da filha. A rara beleza de Danae, no entanto, não deixou indiferente o próprio Zeus. Uma noite o maior dos deuses caiu sobre ela sob a forma de uma chuva de ouro, engravidando-a. Meses mais tarde nasceu Perseu.

Danae é visitada por Zeus que assume a forma de uma chuva de ouro. Ticiano, 1554.

Danae é visitada por Zeus que assume a forma de uma chuva de ouro. Ticiano, 1554.

Ao descobrir o que acontecera, Acrísio, temendo a fúria de Zeus, não mata Danae e o filho. No entanto, com a profecia do oráculo sempre em mente, ordena que os dois sejam fechados numa arca e lançados ao mar. Danae e Perseu sobrevivem à provação e são recolhidos por um pescador de nome Díctis, irmão do rei da ilha de Sérifos, Polidecto. Díctis e Danae criam Perseu até à maturidade.

Acrísio indiferente às súplicas de Danae pelo seu filho Perseu. Os dois seriam lançados ao mar numa arca fechada, para uma morte quase certa. William Russell Flint, 1911.

Acrísio indiferente às súplicas de Danae pelo seu filho Perseu. Os dois seriam lançados ao mar numa arca fechada, para uma morte quase certa. William Russell Flint, 1911.

Entretanto, Polidecto, enfeitiçado pela beleza de Danae, tenta esposá-la por todos os meios, sempre contrariado por Perseu que protege a sua mãe dos avanços do rei. Certo dia, Polidecto engendra um plano para se livrar de Perseu. O rei proclama que vai casar-se com uma outra mulher, Hipodâmia, e ordena que cada homem da ilha lhe ofereça um presente adequado ao evento. Perseu não tem possibilidades de oferecer o presente a que está obrigado e Polidecto ordena-lhe que traga a cabeça de uma das górgonas — Medusa. Para o comum dos mortais este pedido é equivalente a uma condenação à morte, mas Perseu tem outros recursos.

As górgonas eram três irmãs — Euríale, Esteno e Medusa — com um aspecto aterrador. A parte superior do seu corpo era semelhante ao de uma mulher; a parte de baixo era semelhante ao de uma serpente. O seu cabelo era formado por serpentes agressivas e venenosas. Quem olhasse directamente para uma destas criaturas ficava imediatamente petrificado. Das três górgonas, apenas Medusa era mortal.

A cabeça de Medusa segundo o artista renascentista italiano Caravaggio, 1597.

A cabeça de Medusa segundo o artista renascentista italiano Caravaggio, 1597.

A deusa Atena, ela própria uma inimiga visceral das górgonas, revela-se a Perseu, instruindo-o sobre como se deve preparar para a campanha. O jovem deve em primeiro lugar encontrar e consultar as Greias, irmãs das górgonas, três mulheres velhas que partilhavam um único olho que passavam entre si.

Atena, deusa da sabedoria, da coragem, da lei e justiça, da civilização e patrona de Perseu. Atena era uma das principais divindades da Grécia clássica.

Atena, deusa da sabedoria, da coragem, da lei e justiça, da civilização e patrona de Perseu. Atena era uma das principais divindades da Grécia clássica.

Quando as encontra, Perseu rouba-lhes o olho e extorque a informação de que precisa — a localização das Hespérides, as ninfas que mantêm os pomares de Hera no ocidente. Elas sabem como fornecer-lhe as armas de que precisa para matar Medusa.

As Hespérides fornecem a Perseu o aparato com que vai enfrentar a perigosa campanha com que se comprometeu. Edward Burne Jones, 1885.

As Hespérides fornecem a Perseu o aparato com que vai enfrentar a perigosa campanha com que se comprometeu. Edward Burne Jones, 1885.

As armas que Perseu recebe das Hespérides são ofertas de vários deuses: de Zeus, uma espada especial; de Atena, um escudo espelhado através do qual pode observar Medusa sem ficar petrificado; de Hermes, as sandálias aladas que lhe permitem voar; de Hades, o capacete de invisibilidade.

Com este aparato, Perseu prossegue viagem em direcção à gruta onde vivem as górgonas. Invisível com o capacete de Hades, e localizando Medusa pelo seu reflexo no escudo de Atena, Perseu decapita-a com um golpe da espada fornecida por Zeus. Do sangue da górgona que jorra do pescoço nasce o cavalo alado Pégaso. Perseu coloca a cabeça da Medusa numa bolsa para evitar contemplar a sua face acidentalmente.

Perseu escapa com a cabeça da Medusa depois de a ter decapitado. Do sangue que jorra do pescoço da górgona nasce Pégaso, o cavalo alado.

Perseu escapa com a cabeça da Medusa depois de a ter decapitado. Do sangue que jorra do pescoço da górgona nasce Pégaso, o cavalo alado.

Perseu afasta-se de Medusa decapitada, levando a sua cabeça num saco. A presença protectora da deusa Atena é constante.

Perseu afasta-se de Medusa decapitada, levando a sua cabeça num saco. A presença protectora da deusa Atena é constante.

Montado em Pégaso, Perseu põe-se a caminho de Sérifos, com o objectivo de entregar a cabeça de Medusa a Polidecto. Ao passar em Argos, no entanto, vê ao longe a princesa Andrómeda acorrentada aos penhascos, na iminência de ser devorada por Cetus.

Andrómeda acorrentada à mercê de Cetus, o monstro marinho enviado por Poseidon. Perseu aproxima-se, montado em Pégaso, em seu socorro. Joachim Wtewael, 1611.

Andrómeda acorrentada à mercê de Cetus, o monstro marinho enviado por Poseidon. Perseu aproxima-se, montado em Pégaso, em seu socorro. Joachim Wtewael, 1611.

Perseu faz um desvio e, em conversa com Cefeu e Cassiopeia, oferece-se para salvar Andrómeda na condição de esposá-la. Os reis concordam mas já com a ideia de o trair. De facto, Andrómeda estava já prometida ao irmão do rei, Fineu, compromisso que os reis não tinham intenção de quebrar. Sem se aperceber destas manobras, Perseu vai em socorro da princesa. Ao chegar junto dela, pára e mostra a cabeça de Medusa ao monstro Cetus que se aproximava, petrificando-o.

Perseu liberta Andrómeda das correntes depois de eliminar o monstro Cetus. Peter Paul Rubens, circa 1620.

Perseu liberta Andrómeda das correntes depois de eliminar o monstro Cetus. Peter Paul Rubens, circa 1620.

O acto heróico de Perseu traz grande alegria e alívio à população do reino, mas a traição dos reis dá origem a mais uma tragédia. No jantar em que ficaria selada a união de Perseu e Andrómeda, Fineu, alinhado com os reis, acompanhado de um grupo de homens tenta matar Perseu. Depois de muita luta, e com Andrómeda do seu lado, Perseu usa a sua arma mais poderosa para subjugar os adversários, petrificando-os.

Perseu sobrevive a uma tentativa de assassinato no banquete que celebraria a sua união com Andrómeda. Fineu e as suas hostes são petrificados ao fitarem a cabeça de Medusa. Jean Marc Nattier, 1718.

Perseu sobrevive a uma tentativa de assassinato no banquete que celebraria a sua união com Andrómeda. Fineu e as suas hostes são petrificados ao fitarem a cabeça de Medusa. Jean Marc Nattier, 1718.

Perseu segue então para Sérifos, onde chega a tempo de evitar o casamento de Polidecto com a sua mãe. Quando se apresenta na corte do rei, afirmando que tem em sua posse a cabeça de Medusa, é recebido com a chacota generalizada da assistência, rei incluído. Perseu responde à ofensa exibindo a cabeça da górgona, desta forma petrificando o rei e os demais presentes. Eliminado Polidecto, Perseu instala Díctis como o novo rei de Sérifos e parte com a sua mãe.

De retorno a Sérifos, Perseu petrifica Polidecto e os seus consortes. Estudo de Caravaggio.

De retorno a Sérifos, Perseu petrifica Polidecto e os seus consortes. Estudo de Caravaggio.

Durante a viagem, Perseu e Danae param em Larissa. O rei local acabara de falecer e celebravam-se jogos fúnebres em sua honra. Perseu resolve participar, desconhecendo que o seu avô, o rei Acrísio de Argos, está também entre os convidados que observam os jogos. Durante o torneio, um disco arremessado por Perseu atinge acidentalmente Acrísio, que vem a falecer, cumprindo-se assim a profecia tão temida pelo rei.

Perseu segura a mão do seu avô, o rei Acrísio, depois de acidentalmente o ter atingido com um disco.

Perseu segura a mão do seu avô, o rei Acrísio, depois de acidentalmente o ter atingido com um disco.

No final desta campanha, Perseu devolve as armas e o equipamento aos vários deuses, oferecendo ainda a cabeça de Medusa à deusa Atena que passa a usá-la no centro do escudo que havia fornecido a Perseu.

Perseu oferece a cabeça de Medusa à deusa Atena, que passa a usá-la no centro do seu escudo.

Perseu oferece a cabeça de Medusa à deusa Atena, que passa a usá-la no centro do seu escudo.

O mito de Perseu e Andrómeda está representado no céu nocturno por seis constelações — Cefeu, Cassiopeia, Andrómeda, Perseu, Baleia (Cetus) e Pégaso —, particularmente bem posicionadas logo ao anoitecer, durante o final do Outono e o início do Inverno.

As 6 constelações associadas ao mito de Andrómeda e Perseu, no início da noite em 24 de Janeiro.

As 6 constelações associadas ao mito de Andrómeda e Perseu, no início da noite em 24 de Janeiro.

As imagens que se seguem das constelações individuais fazem parte do atlas celeste Uranographia, do astrónomo polaco Johannes Hevelius, publicado em 1687. O atlas era uma publicação científica, com o objectivo de fornecer aos astrónomos uma cartografia precisa do céu nocturno. No entanto, como se pode observar, os mitos associados a estas constelações, com uma tradição de mais de 2 mil anos, continuavam a ser desenhados nos mapas, apesar de não terem relevância científica. Esta prática é visível em atlas publicados até ao final do século XIX.

A princesa Andrómeda acorrentada.

A princesa Andrómeda acorrentada.

O rei Cefeu com vestes ricas, a coroa e o ceptro.

O rei Cefeu com vestes ricas, a coroa e o ceptro.

A vaidosa rainha Cassiopeia no seu trono.

A vaidosa rainha Cassiopeia no seu trono.

O herói Perseu exibindo a cabeça de Medusa.

O herói Perseu exibindo a cabeça de Medusa.

O cavalo alado Pégaso (sim, é mesmo assim, invertido).

O cavalo alado Pégaso (sim, é mesmo assim, invertido).

O monstro marinho Cetus, com poucas parecenças a uma baleia, o nome actual da constelação.

O monstro marinho Cetus, com poucas parecenças a uma baleia, o nome actual da constelação.

2 comentários

    • Dinis Ribeiro on 03/02/2015 at 14:14
    • Responder

    Gostei muito do artigo.

    Quando visitei alguns museus em Atenas nos anos 70, uma das coisas que mais me impressionou imenso foi ver de perto o tamanho e o peso dos escudos que eram utilizados na antiguidade…http://lukeuedasarson.com/Greek_shield_patterns_1.html
    http://pt.wikipedia.org/wiki/H%C3%B3plon / http://pt.wikipedia.org/wiki/Aspis

    O escudo que permite enfrentar o olhar que petrifica:
    http://www.giantbomb.com/mirror-shield/3055-512/

    Uma pequena associação de ideias:

    O escudo térmico desta cápsula ficou danificado embora tenha sobrevivido ao “calor” da reentrada na atmosfera: http://en.wikipedia.org/wiki/Genesis_(spacecraft)

    ( http://en.wikipedia.org/wiki/Heat_shield / http://pt.wikipedia.org/wiki/Escudo_t%C3%A9rmico )

    E isso já tinha acontecido neste filme de 1971:
    http://en.wikipedia.org/wiki/The_Andromeda_Strain_(film)

    Um outro tipo de escudo em órbita:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Strategic_Defense_Initiative / http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d3/Sdilogo.svg

    Por outro lado…

    Esta lenda lembra-me uma sequência do filme http://en.wikipedia.org/wiki/Deep_Impact_(film) / http://pt.wikipedia.org/wiki/Impacto_Profundo em que um astronauta menos jovem lê partes do livro Moby Dick a um outro astronauta que fica cego por olhar para o sol acidentalmente…

    In Herman Melville’s Moby-Dick, the narrator asserts that Perseus was the first whaleman, when he killed Cetus to save Andromeda… http://en.wikisource.org/wiki/Moby-Dick/Chapter_82 / http://en.wikipedia.org/wiki/Perseus#cite_note-32

    Por último, comento que também existe esta gravura da Andrómeda, de Gustave Doré em que Perseu é representado (do meu ponto de vista) numa espécie de “voo em queda livre” ao mergulhar em auxílio de Andrómeda:
    http://www.williampcarlfineprints.com/imgview.php?piece=1145_Andromeda_(Androm%C3%A8de)

    Lembram-se que a nave do filme “Deep Impact” se chamava Messiah? Trata-se de uma “ideia” que parece ser relativamente universal no artigo em Inglês: http://pt.wikipedia.org/wiki/Messianismo / http://en.wikipedia.org/wiki/Messianism

    Da página na wikipédia sobre o filme:

    “The United States and Russia have been secretly constructing an Orion spacecraft called Messiah in orbit”
    http://en.wikipedia.org/wiki/Project_Orion_(nuclear_propulsion) / http://pt.wikipedia.org/wiki/Projeto_Orion

    Actualmente, ainda há quem pense nesse tipo de tecnologias que (eventualmente) podem vir a ser muito úteis no futuro…
    http://www.universetoday.com/118431/exploring-the-universe-with-nuclear-power/

  1. Olá! Aprecio muitíssimo suas postagens sobre alguns dos principais Mitos que são figurados através as estrelas e as constelações de nossos céus estrelados.

    Você consegue trazer imagens e textos de maneira bem esclarecedora e interessante.

    Parabéns! Estou fazendo uma bela pasta acolhedora de seus textos sobre os Mitos, Luis Lopes.

    Com um abraço estrelado,
    Janine Milward

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