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Abr 19

O que nos Representam as Estrelas? – Civilizações Antigas III

Astronomia do Povo Boorong

Para o povo aborígene australiano, que existiu até ao final do século XVIII, o ritmo do aparecimento das constelações indicava a chegada das estações do ano.

Ao longo do ano o Sol está à frente de determinadas constelações. Ou seja, “aponta” para elas. Uma constelação que nasce no leste, antes do Sol, vai-se elevando na abóbada progressivamente. Após três meses já está no zénite, à meia-noite. Seis meses depois de “nascer” estará do outro lado, a “pôr-se” depois do Sol. Estes ciclos forneciam predições ao povo Boorong:

Já que o ano para este povo se iniciava em Março, começamos também as referências nesse mês.

Março: O emu (pássaro australiano) nasce. O nome da constelação que apontava para essa altura do ano era o Tchigal, formado pelas nossas constelações Centauro, Lobo e Escorpião. Esta constelação estaria perto do zénite ao anoitecer e no horizonte à meia-noite. Os boorongs perceberam que, quando Tchingal surgia, os emus fêmeas punham ovos e os chocavam.

Ainda em Março nasciam os gambás-de-cauda-de-anel, que eram procurados pela sua pele. Este animal era representado pela constelação Bunya, que corresponde ao nosso Cruzeiro do Sul. O sinal era quando esta constelação aparecia no ponto mais alto à meia-noite.

Junho: A Constelação Tourtchinboingerra, visível ao norte às 21h representava a Alvéola Willie, que punha os seus ovos entre Junho e Fevereiro.

Julho: War, a constelação que estava perto do horizonte e indicava ao povo aborígene a postura dos ovos dos corvos entre Julho e Setembro.

Agosto: No zénite a partir das 22h, a constelação Totyarguil indicava a postura dos ovos do periquito-de-cabeça-roxa, até Dezembro.

Setembro: A constelação Marpeankurrk, a formiga gigante, no que conhecemos como Arcturus sinalizava o aparecimento abundante de larvas de cupim. Por coincidência, quando a constelação desaparecia da abóbada, as larvas também desapareciam.

Outubro: Antes do amanhecer aparecia a constelação de Neilloan, o Ser Criador, representando uma galinha australiana, a mallee. Nesta altura as crianças boorongs podiam ir em busca dos ovos das mallee.

Novembro: No início do Verão australiano era a altura da constelação do peixe Otchocut desaparecer do céu depois do Sol também desaparescer. Otchocut corresponde à nossa constelação do Golfinho e era a época dos boorongs viajarem até ao rio Murray para percarem o bacalhau que, depois de acasalar e desovar, fica preso em poças do rio que vai secando.

Dezembro: De seguida entrava em foco a constelação Wanjel, junto à estrela Pollux. Era altura de o jabuti-de-pescoço-longo pôr os ovos. Wanjel aparecia no Nordeste ao anoitecer.

Janeiro: A meio do Verão destacava-se Purra, a constelação que representava o canguru-vermelho. Purra situa-se perto da estrela Capella, na constelação Auriga

Fevereiro: Situado no zénite durante a noite, a constelação de Unurganite indicava a abundância de lagartos nesse mês.

A mitologia aborígene aparece a estrela sigma de Cão Maior, que representa um lagarto com duas esposas e ainda Sírius, que representa o maior pássaro australiano, a águia-de-cauda-em-cunha. A Via Láctea era o fumo das fogueiras acesas pelos seres mitológicos. A estrela Rigel, na constelação de Órion e a estrela Eta Carinae também eram ilustradas na mitologia boorong.

Os aborígenes ainda consideravam que o Sol, chamado Gnowee, tinha a sua origem numa gema de ovo levado por um pássaro. Gnowee morria todas as tardes e renascia sempre no dia seguinte. A Lua representava um marsupial que parece um gato.

Para saber mais:

Australia’s first astronomers

BRUNO MAÇÃES E DANTE GRECCO Scientific American Brasil Especial: Etnoastronomia (14)

Anexo daqui

Em anexo está uma tabela do nome da constelação Boorong, a explicação pelo povo aborígene e ainda a sua correspondência à astronomia moderna:

 

NAME

EXPLANATION

CELESTIAL CLUE

Berm-berm-gle Red-kneed dotterel Alpha and Beta Centauri
Boorong Night; small mallee; starry firmament Starry firmament at night
Bunya Ring-tail possum Top star in Southern Cross
Chargee Gnowee Elder sister, sister of the sun Venus
Bittur Larvae of the woodant
Collenbitchick Species of ant Double star in head of Capricornus
Collowgulloric War Female crow, wife of War Eta Carinae
Colowgulloric Warepil Female eagle, wife of Warepil Rigel In Orion
Djuit Red-rumped parrot Antares
Gellarlec Pink cockatoo Aldebaran
Ginabongbearp Sulphur crested white cockatoo; pulling up daylight Jupiter
Gnowee Day; Sun Sun
Karik Karik Spear thrower; Australian Kestrel Two stars at end of Scorpius
Kourt-chin Male and female brolga Clouds of Magellan
Kulkanbulla Two teenage boys Belt and Scabbard of Orion
Lamankurrk Girls, young women Pleiades
Marpeankurrk Meat ant; treecreeper Arcturus
Millee Murray River Part of the Milky Way
Mindi The maned snake Part of the Milky Way
Mityan Quoll Moon
Neilloan Mallee fowl Lyra
Nurrumbunguttias Old man, black faced mallee kangaroo White aura of the Milky Way
Otchocut Great fish Delphinus
Porkelong toute Loss of tooth Shooting star
Pupperimbul Diamond firetail finch or shy hylacola Carried the emu egg to become the Sun
Purra Red kangaroo Capella
Tchingal The tall one; emu Dark space near Cross
Totyarguil Purple crowned lorikeet Altair
Tourchingboiongerra Needlewood hakea and willie wagtails Coma Berenices
Tourte Star Any star
Tyrille Space; night sky Space; night sky
Unurgunite Jacky lizard Sigma Canis Major
Wanjel Long-necked tortoise Pollux
War Crow Canopus
Warepil Wedge tailed eagle Sirius
Warring Galaxy Milky Way
Weetkurrk Singing bushlark Star in Bootes west of Arcturus
Won Boomerang Corona Australis
Yerredetkurrk Owlet nightjar Achernar
Yurree Fan-tailed cockatoo Castor

Acerca do autor(a)

Dário S. Cardina Codinha

Frequentou o Mestrado Integrado em Engenharia Biológica na Universidade do Algarve e o curso de Biologia Celular e Molecular na Universidade Nova de Lisboa. Presidiu ao Núcleo de Engenharia Biológica da Universidade do Algarve.

Manteve o blog Universo Paralelo que está a dormir desde 2010. Apaixonado pela escrita criativa, sátira e humor.

Luta constantemente contra ideias falaciosas e teorias erradas. A realidade é explicada por um mecanismo chamado ciência e ela merece ser respeitada e seguida.

Desde os 11 anos que lê notícias sobre o Universo e recebeu, aos 13 o livro Cosmos, de Carl Sagan, que devorou. A partir daí coleccionou artigos e livros científicos. Gosta de divulgar ciência da vida (área académica) e ciência espacial (área de paixão). De vez em quando "saca" algumas sebentas para se manter actualizado.

3 comentários

  1. Nuno Almeida

    Penso que o Emu é o maior pássaro nativo da Austrália e a segunda maior ave que existe hoje, logo atrás da avestruz.
    Quando disse isto “(…)que representa o maior pássaro australiano, a águia-de-cauda-em-cunha” provavelmente quereria dizer que a águia-de-cauda-em-cunha é a maior ave de rapina da Austrália?
    São apenas pormenores, mas de resto gosto muito desta iniciativa…

    Abraço

  2. Nuno Almeida

    Por favor altere a última frase para “De qualquer modo são apenas e só pormenores para alcançar a excelência”
    Obrigado

  3. Dário S. Cardina Codinha

    De facto refere-se a ave que voa.

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