Legião de Ignorantes

Já tenho escrito por aqui vários posts sobre religião.
As crenças são o contrário de conhecimento, como já afirmei aqui várias vezes. Uma crença depende de fé, e não de experiência e provas como o conhecimento científico. Por exemplo, eu não “acredito” na gravidade – basta-me saltar para perceber que ela existe.
Daí que todas as pessoas são livres de terem as crenças que quiserem (ninguém põe isso em causa), mas não são livres de mentir, inventar falsidades, atacar o conhecimento, ser hipócritas quanto às vantagens da ciência, ser intolerantes para quem lhes apresenta explicações dos fenómenos, ou vigarizar os outros.

Passei 14 anos nos Salesianos, e sempre me pareceu que não só as pessoas que conheci eram tolerantes, como colocavam o conhecimento acima de tudo.
No entanto, na internet, vejo muitos religiosos fundamentalistas: intolerantes, burros, falsos, hipócritas, vigaristas.

É surpreendente para mim. E penso que os religiosos inteligentes deveriam ser os primeiros a denunciar a estupidez dos fundamentalistas ignorantes.
Tivemos um exemplo típico aqui no blog: o Halo em Fátima é perfeitamente explicado pela ciência, no entanto a ignorância, a falta de inteligência, e a falta de fé são tais, que houve fundamentalistas logo a aparecer a dizer que aquilo tinha mesmo que ser um sinal de Deus, que não existe explicação, e que os cientistas são uns mentirosos.

Ora, essa intolerância, burrice, e falta de fé, desses crentes, não deveria ter lugar no seio da religião. E a própria religião deveria denunciar essas pessoas e essas situações.
Porque estas atitudes só têm um resultado: as pessoas serem vigarizadas por qualquer um que se aproveite da fé das pessoas.

Daí que gostei de ver este blog, feito por alguém que é religioso, que tem curso de teologia e religiões comparativas, que até está a seguir mestrado em estudos Bíblicos, e que simultaneamente nota-se que é inteligente, que não nega a realidade científica, e que tem sentido de humor.
Daí que denuncia as parvoíces daqueles que ou vigarizam as pessoas em nome de Deus ou são crentes acéfalos que ignoram as explicações para os fenómenos.

Por exemplo, neste post, ele denuncia a parvoíce daqueles que acham que Deus existe porque o Sol continua a “queimar” mesmo sem haver oxigénio. Logo, isso só pode ser “milagre”.

Apesar dos ignorantes dizerem que o Sol “queima” devido ao oxigénio, ou que os cientistas são uns mentirosos porque nem sequer foram ao Sol, a verdade é que a fusão nuclear não precisa de oxigénio, é o processo existente no Sol, e até é utilizada nas bombas nucleares.

Já agora, este cartoon foi originalmente colocado na net pelo famoso biólogo PZ Myers, e foi utilizado posteriormente por outra pessoa que é religiosa, é um professor de religião, gosta de escrever sobre isso, e que também denuncia a estupidez dos fundamentalistas religiosos que se deixam levar pelos vigaristas e que não têm qualquer sentido de humor.
Daí que ele decidiu também partilhar este cartoon que descreve o que aconteceu quando Jesus, por “magia”, tornou a água em vinho:

Este cartoon foi originalmente publicado no SMBC, e foi posteriormente divulgado por um Criacionista (fundamentalista) que virou céptico ao ter uma mente aberta e compreender ciência.

Devido ao professor de Religião ter divulgado este cartoon, que demonstra sentido de humor, e o resultado concreto dessa experiência científica, o professor foi imediatamente acusado de estar a colaborar com o PZ Myers, que por ser cientista então é logo insultado de intolerante e malicioso.
Ou seja, o tolerante e inteligente professor de religião, recebeu logo comentários intolerantes, ignorantes, fundamentalistas, e totalmente estúpidos de quem se mostra como um crente acéfalo (tal como nos aconteceu a nós no caso do Halo em Fátima ).
Gostei especialmente da resposta do professor de religião:
“If Christians would be the first to publicly correct and lament those who spread ignorance in the name of Christianity, there might still be as many atheists, but there would be far fewer who dismiss us as idiots, because they would hear the voices for reason alongside the idiocy.
Collaboration is when people either sit silently by when other Christians promote ignorance, bigotry, or any sort of misinformation. And collaboration is when one leaps to the defense of the promoters of ignorance because they are “on your team” instead of trying to simply be on the side of truth.”
Numa tradução livre:

Se aqueles que se dizem Cristãos fossem os primeiros a denunciar aqueles que espalham a ignorância em nome de Cristo, até poderia haver o mesmo número de ateus, mas haveria muito menos pessoas a considerar que nós, pessoas de fé, somos idiotas. As pessoas deviam ouvir a voz da razão e não dos idiotas.
Colaboração é as pessoas ficarem em silêncio quando há Cristãos a promover a ignorância, a intolerância, e informações falsas. E colaboração é também quando alguém salta em defesa daqueles que promovem a ignorância só porque supostamente eles fazem parte da “equipa”, em vez de estarem ao lado da verdade.

15 comentários

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  1. Cristovão Cunha:

    “O amor, o carinho, a ternura não são experimentáveis num lab oratório, podem apenas sentir-se”

    Num laboratório e com seres humanos podes vir a saber tudo o que se pode saber na terceira pessoa sobre essas coisas. Como acontecem, quando acontecem, porque acontecem. Podes por as pessoas a sentir e até podes sentilas tu proprio se montada a encenação correcta.

    O que te referes imagino eu, é ao problema dos qualia. Da transmissibilidade direta do que sente cada um sendo o proprio objecto da precepção.

    Naturalmente que senti-las na primeira pessoa é algo que é reservado à… primeira pessoa!

    Nada de espanto aqui.

  2. Grande artigo, Carlos. Ainda não tinha lido com vagar. A grande diferença entre fé e desespero. O blog está muito bom! 😀

  3. Falta este aqui, que também têm tanto de engraçado como triste: http://scienceblogs.com/pharyngula/2011/06/i_grow_concerned_for_your_cran.php

    Não se costuma falar do ciclo da água logo na escola primária?

  4. Neste momento no RTP Memória está a dar de novo um episódio do Espaço 1999

    Penso que o episódio “Mission of the Darians” aborda (tangencialmente?) o tema… ou pelo menos poderá ser um pouco mais de “food for tought”.

    Curiosamente, existe uma “religião” a bordo de uma gigantesca nave tipo arca de noé onde há dois grupos que estão separados por muros e rituais e que me lembram vagamente os Elois e os Morloks, embora estes sejam casos levados ao extremo no livro “The Time Machine” do Wells.

    O episódio levanta varias questões relativamente válidas e apresenta um dilema ético…

    Episódio: http://en.wikipedia.org/wiki/Mission_of_the_Darians

    (spoiler alert: Existe uma descrição completa do enredo/plot)

    Lista completa dos episódios: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_Space:_1999_episodes

    Info sobre o autor: http://en.wikipedia.org/wiki/Johnny_Byrne_(writer)

    Uma mini-citação:

    The disillusioned savage declares that Neman is not a god—then smashes his head through the gene bank. His skull fractured, Neman dies, drenched in the material that was to be the salvation of his race.

    As Hadin seizes a horrified Kara, Koenig puts an end to the violence. Seeing this as a turning point, he declares their only hope for any future is to work together.

    Some time later, Eagle One departs the Daria. Helena, traumatised by her experience, is comforted by Bergman. Contact is made with Moonbase, but Carter puts off their interrogative.

    He turns to Koenig, asking him if the similar events were to occur on Alpha, would he choose differently?

    Silently praying he never has to make that choice, Koenig puts off the astronaut’s question…

  5. Sem dúvida Carlos. Claro que se o carro pára no meio da auto-estrada, é improvável que haja ali qualquer coisa que não seja explicado racionalmente. O mesmo se diga para tantas outras coisas do dia a dia.
    Mas se entrarmos noutros domínios, as coisas soam diferentes.
    Mas o astroPT nasceu para isso, para responder àquilo que não conseguimos responder e que se pode responder pela razão!
    Mas como disse, tem limites. O amor, o carinho, a ternura não são experimentáveis num lab oratório, podem apenas sentir-se. Pascal dizia, e muito bem, que o coração tem razões que a própria razão desconhece. 😉
    Abraço

    1. Acho que tens razão.
      No entanto, no outro dia estava a ver uma entrevista sobre neurologia… sobre a mente inconsciente… e falaram numa experiência em que perguntaram a não sei quantos homens se certas fotos de mulheres eram atraentes ou não… e invariavelmente todos escolheram as mesmas. Pelos vistos, sem nos apercebermos racionalmente, a mente seleciona inconscientemente aquelas mulheres que têm as pupilas mais dilatadas.
      Penso que vai de encontro a experiência com feromonas ou assim… em que a nossa mente faz escolhas que nem nos apercebemos.

      Claro que isto não explica o amor… mas explica a atração 😛

      Por outro lado, também é certo que isto é irracionalidade… ou seja,há varias escolhas que até podem ser explicadas pela razão/ciência, mas quando as fazemos, fazemos de forma inconsciente (e não com a mente racional).

      Enfim… o ser humano é um ser demasiado complexo 😛
      O que é excelente, esses “different layers” 😉

      Se encontrarmos ETs que tenham emoções… podemos perguntar como eles vêem essas coisas.
      Se só encontrarmos seres baseados na intuição… então vamos matá-los sem piedade (como fazemos aos animais da Terra).
      Mesmo os mitos que criamos para os deuses mostram isso: violência, morte, lutas, etc…
      Enfim… o ser humano é complexo… e fujam dele!!!! 😛 LOL 😀

      abraço 🙂

  6. Como estudante de teologia acho que há muita ignorância, e por vezes, infelizmente, por parte de pessoas que deviam ter uma Fé arejada e esclarecida.
    Não há nada de contraditório entre Fé e ciência! Os dois “mundinhos” que por causa de pequenas coisas se degladiaram deixou de ter sentido.
    O próprio João Paulo II disse de nada vale uma Fé sem a razão: cai-se no fideísmo de que sofrem alguns fundamentalistas religiosos (cristãos, muçulmanos, judeus). E vice-versa, uma razão sem Fé cai no racionalismo no qual basta a razão para explicar tudo quando se sabe que há perguntas que ficam por responder, de parte a parte.
    O bom-senso cabe em todo o lado, mas quando se caem nos extremos, não se vai a lado nenhum, donde a necessidade de posts como o do Carlos.
    Um abraço 😉

    1. Pois, mas a razão é ainda mais precisa exatamente nessas “perguntas que ficam sem responder” 😉 É aí que devemos usar a razão… e até a usamos todos os dias.

      Se o carro pára no meio da auto-estrada, não se sabe de que foi – temos uma pergunta que está sem resposta, e que precisamos usar uma estratégia para lhe tentar responder.
      Pode-se pensar que foram unicórnios voadores. Pode-se usar a fé para ver se ele pega. Ou pode-se olhar para o ponteiro da gasolina.
      O que fazemos normalmente? Olhamos para o ponteiro da gasolina. Porque se temos dúvidas, seguimos a razão, o pensamento científico 😉
      http://www.astropt.org/2011/05/21/profecias-da-ciencia/

      Essa é aliás a base da ciência.
      A ciência existe para responder a essas “perguntas sem resposta”… e como sempre haverá essas perguntas, poderá sempre fazer-se ciência…
      (a não ser que os ETs aterrem aqui e nos dêem todas as respostas :P. Mas aí perde-se parte da humanidade, perde-se a curiosidade científica de ir mais além)

      A ciência/razão não deixa de existir para essas perguntas. Pelo contrário… elas fazem parte da natureza da ciência 😉

      abraço 😉

  7. Para terminar e em linha com o que escrevi antes.

    Penso que sim, que como dizia o Phil Plait temos de ser mais inclusivos. Isso não significa diminuir o debate. Mas sim valorizar realmente todos aqueles que demonstrem a vontade de discutir justificações e de ter a mente aberta para aceitar as melhores. De onde quer que venham.

    Eu penso que o cepticismo é muito mais acerca do processo do que do resultado. Quem aceitar o processo de duvidar metodicamente, aceitar as melhores justificações mesmo que não chegue às mesmas conclusões esta a ter a abordagem correcta. E isso vale por si só.

    Mas repito, isto sem prejuizo da discussão acerca da justificação que há para as coisas.

  8. Hei, como exemplo apresento o religioso William de Ockham.

    Naturalista, proponente da lamina de Occam. Crente fiel em deus.

    Seria bem vindo em qualquer sociedade de cepticos que não fosse também fundamentalista.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_de_Ockham

  9. Carlos Oliveira:

    Ola,

    Tocas assuntos muito interessantes. É extremamente raro ver religiosos cultos e cientófilos a atacar a cegueira de funfamentalistas. É desconcertante pois quando encontramos estes religiosos mais sofisticados eles acusam-nos de fazer caricaturas da religião baseadas no que fazem os fundamentalistas. Mas assim que aparece um fundamentalista intelectual (ja que não estou a falar em terroristas) estes mais cultos calam-se. Enquanto antes estava a dizer que atacar o criacionismo no lugar da religião é um espantalho (strawman) assim que aparece um destes ultimos calam-se logo. Raramente entram em debate contra o fundamentalista. Encontras-te um caso. Ha mais, mas muito poucos.

    Em relação a cada um ter direito à sua crença é um facto. É algo que não podes por em causa sem assumires alguma especie de telepatia, mais que uma obrigação moral. Mas podes por em causa as justificações das crenças. Conhecimento é crença verdadeira justificada. E já que a verdade pura é algo que não se pode testar no momento presente, a crença em si é algo pessoal, só resta então a justificação para o debate. Mas devemos insistir em debater justificações e em debater como devemos conseguir essas justificações.

    Essa é a minha prespectiva da coisa. É debater justificações e não crenças. E isto é assim para a religião, para a matéria negra ou o efeito placebo.

    Que os religiosos não gostem disso é algo inevitavel. Os que tiverem coragem de viver bem com isso tiro-lhes o chapeu. Mas são poucos. E se aceitarem o naturalismo como a melhor abordagem cognitiva que é possivel para a realidade então até lhes dava um rebuçado. 😛 e titulo de cetico Dan 10 (11 é só para ateus)

  10. Nota 1: penso que se percebe que este post não é a “atacar a religião”… mas sim a atacar aqueles que abusam da religião para negar o conhecimento e vigarizar os outros.
    E o post também transmite a ideia que os religiosos inteligentes deveriam ser os primeiros a denunciar a ignorância daqueles que dizem falar em “nome de Deus”, mas que na verdade só falam em nome da ignorância, da intolerância, da ganância, e da mediocridade.

    Nota 2: acho incrível como em pleno século XXI, é preciso deixar a “nota 1”, porque senão vários crentes ignorantes e intolerantes que não sabem ler textos, vêm logo para aqui insultar quem até usa o pensamento racional… como tem acontecido no passado.

    1. Olá. 🙂
      Estava a pensar exatamente nisso (o facto de existirem crentes fundamentalistas e intolerantes que iriam criticar o Carlos por este post), mas ainda bem que esclareceu tudo. 😛
      Concordo totalmente com o que disse. No entanto penso que onde diz ” (…) a verdade é que a fusão nuclear não precisa de oxigénio, é o processo existente no Sol, e até é utilizada nas bombas nucleares.” seria mais correto dizer que nas bombas nucleares ocorre fissão nuclear que é, como está definido no wikipédia, a quebra do núcleo de um átomo instável em dois menores e mais leves.
      http://pt.wikipedia.org/wiki/Fiss%C3%A3o_nuclear

      Abraço!

      1. Estava a pensar nas bombas de hidrogénio que é a fusão nuclear 😉
        http://pt.wikipedia.org/wiki/Bomba_de_hidrog%C3%AAnio

        • Nuno Almeida on 13/06/2011 at 14:44

        Pois. Esqueci-me das bombas que utilizam a fusão nuclear (Bombas-H, bombas de hidrogênio ou bombas termonucleares).

        Abraço e obrigado pelo esclarecimento. 😉

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