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Fev 06

A primavera acadêmica: O livre acesso ao conhecimento científico

A quem as editoras servem?

Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios. 

- Artigo XXVII da Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948.

Um assunto anda bem quente na comunidade científica desde que, no mês passado, o professor de matemática da Universidade de Cambridge, Timothy Gowers, publicou um texto em um blog explicando porque ele boicotava as revistas publicadas por uma das maiores editoras de revistas científicas.  As reclamações dos preços altos para submissão e assinatura das revistas, assim como das diretrizes que estas editoras adotam, já são antigas, mas o ano de 2012 começou com uma novidade: um grupo de cientistas cada vez maior está se unindo para boicotar uma das maiores editoras, a Elsevier,  por meio de uma petição online que já conta com mais de 2700 assinaturas de cientistas ao redor do mundo. Este impacto da “blogada” de Gowers reflete a insatisfação crescente da comunidade com as editoras. Seria este o início da “primavera acadêmica”?

Em uma matéria publicada no The Guardian, George Monbiont criticou duramente os poderes “feudais” das editoras acadêmicas e fez uma convocação para que esforços institucionais e individuais sejam unidos para enfraquecer os monopólios que se tornaram as editoras privadas. Só para se ter uma ideia da lucratividade desta indústria, a Elsevier, foco do atual boicote, teve um lucro de 1,16 bilhões de dólares em 2010, o que representa uma margem de lucro de 36% (uma taxa bem alta!).

Os membros da Elsevier têm se defendido mostrando como o processo editorial foi inovado pelas editoras e argumentam até mesmo que as editoras privadas permitiram que as pesquisas se tornassem acessíveis a um número muito maior de leitores e a um custo por unidade jamais visto anteriormente. Entretanto, a importância histórica das editoras no período de digitalização do processo editorial e do aprimoramento do mesmo, algo inegável, não serve como argumento para a sua manutenção atual. Se foi útil antes, não quer dizer que ainda seja útil.

Elsevier enfrenta boicote internacional

Exemplo: as ferramentas de pedra lascada eram muito úteis no paleolítico e foram fundamentais para desenvolvimentos tecnológicos posteriores, mas hoje temos coisas melhores para fazer as mesmas coisas. Ainda por cima, há um claro conflito de interesses nesta questão. Da maneira que ocorre hoje, o dinheiro público investido em pesquisas vai parar no bolso de instituições privadas que não cobrarão quantias exorbitantes apenas dos cientistas que submeteram os artigos, mas depois cobrarão também para que as bibliotecas tenham acesso ao trabalho e cobrarão alto de qualquer pessoa que não esteja em uma universidade. Esta situação deixa claro que “o que é bom para a ciência e para os cientistas não é necessariamente bom para as editoras científicas e vice-versa.” A ciência, idealmente, precisa ser feita com a ampla discussão de teorias e de dados empíricos. A ampla discussão só pode haver se o acesso aos trabalhos científicos for amplo também, algo que seria ótimo para a ciência, mas não tão bom para as editoras privadas.

Se as editoras não são mais necessárias e nos dão mais dor de cabeça do que ajudam (nas palavras de Mike Taylor, se elas se tornaram as “inimigas da ciência”), o melhor caminho é pressioná-las e eventualmente substituí-las. Mas para que isso aconteça, é necessário ter uma infraestrutura alternativa que faça o mesmo trabalho com menos ganância nos bolsos. Por enquanto, a nossa situação editorial no Brasil ainda é bem precária: nossas revistas são administradas de maneira amadora, com recursos contados e sem muita visibilidade e impacto internacional. No momento, precisamos contar com iniciativas internacionais de livre acesso, mas também existem esforços nacionais que fariam a diferença.

Sobre isso, o Atila fez uma ótima reflexão no Rainha Vermelha. A curto prazo, o melhor que podemos fazer é investir em submissões a boas revistas com política de livre acesso. De fato, as agências nacionais poderiam facilmente incentivar mais isso, levando em consideração sempre que o esforço de diversos cientistas brasileiros para internacionalizar suas produções pode demandar a publicação em revistas de maior impacto e administradas pelas editoras privadas, pois, para algumas áreas, as alternativas de livre acesso ainda são poucas. Nesse sentido, pelo menos em algumas áreas, estaríamos em certa desvantagem para engrenar com tudo neste movimento, pois os “saltos” na internacionalização dependem de publicação em revistas de alto impacto. Aos poucos, entretanto, as alternativas têm surgido sistematicamente. Michael Eisen, co-fundador do projeto PLoS ONE, uma das mais bem sucedidas publicações de livre acesso, traz boas notícias:

Enquanto a PLoS Biology e a PLoS Medicine não tiveram sucesso em substituir as glamourosas revistas Science, Nature, The New England Journal The Lancet, elas forneceram alternativas viáveis de acesso aberto de alto impacto, nossa comunidade de revistas tornaram-se bem proeminentes  nas comunidades que elas representam, e a PLoS ONE é agora a maior revista de pesquisa biomédica no mundo. BioMed Central também está prosperando, e uma vasta gama de novas editoras de acesso aberto e revistas têm surgido online nos últimos anos. E a eLife, um projeto conjunto de acesso aberto da HHMI, Wellcome Trust e a Max Planck Society serão lançadas ainda neste ano.

A substituição das editoras pode ser uma meta difícil, porém o enfraquecimento das mesmas já poderia trazer frutos proveitosos como mudanças nas políticas editoriais e nos custos cobrados pela submissão e acesso aos trabalhos. Parece que a melhor estratégia a curto prazo para enfraquecer as editoras é não submeter artigos a revistas publicadas por elas. As editoras dependem dos cientistas mais do que os cientistas dependem delas. Se o número de artigos submetidos diminuir drasticamente, as editoras podem se sentir mais “sensibilizadas” com a questão, e mudanças simples poderiam ocorrer que dificilmente arruinariam financeiramente esta indústria.

Alguns cientistas acreditam que hoje o processo de revisão pelos pares e publicação de trabalhos científicos poderia ser realizado de uma maneira igualmente eficiente e desproporcionalmente mais barato por meio de plataformas de livre acesso. A aparente revolução que está se iniciando promete mudar a maneira como as pessoas têm acesso ao conhecimento científico, democratizando-o e tornando o custo menor também para bibliotecas e cientistas. Em um momento onde sucessivos projetos de leis têm sido propostos com a intenção de restringir o acesso a informações (como o Research Works Act), este movimento tem um papel fundamental e pode garantir que algumas ideias contidas na Declaração Universal dos Direitos Humanos sejam priorizadas ao invés do interesse econômico de editoras privadas. Espero que este movimento seja bem sucedido, resta agora acompanhar como serão os próximos episódios desta novela!

Um panorama bem escrito do que está acontecendo também pode ser lido no texto do Atila, aqui no scienceblogs*. Matérias sobre este assunto podem ser lidas aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

*Originalmente publicado no blog SocialMente.

Acerca do autor(a)

André Rabelo

André L. A. Rabelo é Psicólogo e Mestre em Psicologia Social pela Universidade de Brasília (UnB), Brasil. Atualmente, faz doutorado nessa mesma instituição. Nasceu e mora na capital do Brasil, Brasília. Desenvolve pesquisa em psicologia social e psicologia cognitiva. Tem muita admiração pela astronomia. Grande fã de Carl Sagan, que levou ao seu interesse pela astronomia.

É autor do blog SocialMente e do canal Minutos Psíquicos no YouTube.

5 comentários

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  1. Cavalcanti

    Podemos estar a testemunhar um marco no que se refere às revoluções das mais variadas naturezas da História Contemporânea.

    Algumas arestas da esfera política-econômica, de fato, devem ser aparadas.

    ;)

  2. Renato Romão

    Boas,
    Desde já aproveito para enviar um grande abraço ao Cavalcanti.
    Apenas vou realçar que para os leigos (como eu), que o astroPT é sem dúvida serviço público e GRATUITO!!! E ainda produzem uma revista mensal magnifica e GRATUITA!!!
    Para um leigo este espaço é uma “rampa de lançamento” para o conhecimento, ou seja, o motor ou a ignição para nos projectar e colocar-nos na rota do verdadeiro conhecimento de acordo com as ciências exactas. Actual e cuidado/preocupado com o conhecimento científico é como eu interpreto este espaço na WEB.
    É óbvio que o assunto em causa no post, tem uma vertente profissional e refere o acesso à informação sobre artigos de outros colegas. Deste modo penso que a WEB utilizada para transmitir o conhecimento aos leigos é e será também uma grande ferramenta para os profissionais. Algo institucional e reconhecido pela comunidade científica dentro do espaço WEB será sem dúvida mais célere, disponível a todos e permite a existência de diversos formatos das publicações. Não estou a descobri a pólvora, apenas a realçar a importância da WEB e as suas oportunidades, que podem desta forma ser potenciadas. É uma alternativa. Força! A evolução conquista-se com práticas inovadoras, derrubando as paredes do conservadorismo erguidas em torno de princípios monetários e em nada sustentáveis, assim como a suas adaptabilidades enfraquecidas pelo tempo

    Será caso para lhes dizer “NON SOLUS”!!!

    Abraços

    1. Cavalcanti

      Obrigado, Renato ;)

      Abraços.

  3. Pedro Mendonça

    Tenham cuidado com as análises económicas, muitas vezes falaciosas. O nosso maior problema é começarmos a teorizar sobre nichos de negócio dos quais conhecemos praticamente nada. Apenas lemos a parte q nos toca, q é qto custa o serviço ou produto, e qto é q à primeira vista está a dar a quem os disponibiliza (lucros ou margem de lucro). Quando analisado o lucro estamos a ignorar os investimentos, o lucro em si n significa tdo, por exemplo este n contabiliza o investimento, e os valores q estão em cima da mesa podem na verdade significar um retorno de 100% ao ano ou 1% ao ano sobre o valor investido. É a mesma falácia de dizer q as rendas das casas estão mto altas sem analisar-mos a renda em função do investimento no imobiliário.

    Quando leio isto “Se as editoras não são mais necessárias (…) o melhor caminho é pressioná-las e eventualmente substituí-las.” fico muito preocupado. A única forma correta de pressionar uma editora é não publicar nelas ou não pagar o serviço q disponibilizam. Ora se o fazem ao preço q está é porque as pessoas q o fazem acham q tem esse valor. Todos nós gostaría-mos q um carro custasse 200 € ou 50 € (e pq não 1 €), mas não. Custa o mais barato q é possível, ou seja, em função da quantidade de carros disponíveis e em função de qtas pessoas estão interessadas neles. Se nós obrigarmos a baixar os preços artificialmente o q vai acontecer é q vão aparecer mais pessoas a querer comprar, por outro lado vão surgir menos carros para vender pq o retorno será menor e logo desincentiva a produção, no fim resulta em listas de espera pelos carros e o número de pessoas com carro será menor.

    O mesmo se passa com a investigação. A forma de dar a volta a isto poderá passar então pelo investimento público, subsidiando-se faz com q exista a mesma oferta mas a preços menores. Ora a isto estou totalmente contra. Ou há interesse real na investigação científica, neste caso em particular a divulgação científica, seja qual for a área, de forma sustentável, ou estar a usar o Estado como forma de coação sobre as pessoas obrigando-as a disponibilizar parte das suas riquezas poupadas numa área q n estão interessadas parece-me imoral e errado. E atenção que esta análise é independente de dar-mos ou não valor à ciência em si, sou e sempre fui uma pessoa q dá mto valor ao papel da ciência, principalmente na questão de fazer descobertas da forma mais credível que hoje é conhecida (para os anti ciência: n significa q esteja 100 % certa, mas lá está é a melhor forma conhecida de chegarmos a uma verdade e por tanto vale apena investir por aqui), o que digo é q n devo coagir os outros só porque eu acho que tem muito valor.

    Ultima análise prende.se com o facto de as editoras estarem a ter lucros elevadíssimos e portanto estarem a ser gananciosas. Ora se isto realmente se passar assim, é normal então surgir outras entidades ou pessoas individuais que estejam dispostas a apostar neste nicho de negócio e querer ficar com parte dos lucros “enormíssimos” que daí advêm. Há muita gente com dinheiro e muita gente com visão, se o retorno do investimento é assim tão elevado irá certamente aparecer alguém para querer ficar com um pouco do bolo. Se não aparecer é provável que a análise ao retorno brutal esteja a ser falaciosa.

    É um pouco complicado explicar tdo por aqui, mas ideia a passar é não nos deixar-mos cair facilmente numa análise de protecionismo dos consumidores, que muitas vezes é irrealista, e que no futuro só irá prejudicar a área e os próprios consumidores.

    Em última análise, sempre podem comprar ações destas empresas, se o retorno da empresa é bom, as ações valerão o seu valor investido (a menos q estejam especulativamente altas).

    cumps,
    Pedro Mendonça

    1. André Rabelo

      Pedro Mendonça,

      obrigado pela crítica. Este foi o meu primeiro “experimento” discutindo esta questão, sabia que estava falando de algo que não dominava, mas sabia que a exposição poderia me trazer novos conhecimentos.

      Não sou economista e confesso minha ignorância sobre quais informações são relevantes para as conclusões de lucratividade da empresa. Tanto as informações que eu trouxe quanto muitas conclusões estão presentes em diversas fontes linkadas no texto, entre elas a revista “The Economist”. Eis a informação que eles trazem sobre lucratividade:

      “The firm is certainly in rude financial health. In 2010 it made a £724m ($1.16 billion) profit on revenues of £2 billion, a margin of 36%.”

      Quanto a este trecho do seu comentário:

      ” se o fazem ao preço q está é porque as pessoas q o fazem acham q tem esse valor. ”

      Não necessariamente, acontece que estas editoras cresceram e com o tempo abrigaram as revistas de maior impacto, ao ponto de muitos cientistas se submeterem às diretrizes da revista por falta de opção e pela necessidade de publicar em revistas de alto impacto exigida pelas universidades (já que as alternativas de acesso aberto são bem recentes). Isso tanto não é verdade necessariamente que muitos cientistas estão se unindo, como descrito no texto, e mostrando explicitamente que “não acham que o valor é justo”.

      Você disse:

      “é normal então surgir outras entidades ou pessoas individuais que estejam dispostas a apostar neste nicho de negócio e querer ficar com parte dos lucros “enormíssimos” que daí advêm.”

      É normal sim, e não há nada de intrinsicamente errado com este investimento. Os cientistas, entretanto, não tem nenhuma obrigação de se submeter a isso e fornecer os lucros para esta indústria. Se existem alternativas viáveis, temos a opção de usá-las ou até mesmo de desenvolvê-las se estamos insatisfeitos com o serviço oferecido. Pegando o seu exemplo, se pudessemos produzir carros a um custo ridiculamente mais barato sem precisar das empresas, se tivessemos condições de produzir estes carros (que exigem uma infrestrutura tecnológica e uma mão de obra bem diferenciada de editoras), não vejo problema algum em deixar de fornecer os lucros para esta indústria. Os cientistas querem o melhor para os cientistas e a ciência , e acho legítimo iniciativas nesse sentido.

      “muitas vezes é irrealista, e que no futuro só irá prejudicar a área e os próprios consumidores.”

      Não vejo o porque o acesso aberto seria prejudicial aos próprios consumidores. Me parece mais provável imaginar que ele será muito benéfico para toda a população.

      Abraço!

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