Mais um homeopata ganha o Prémio Nobel.

Gostaria de jogar um pouco? Feche os olhos, relaxe, e imagine durante um ou dois minutos as manchetes dos jornais que relatassem as novas descobertas médicas que se poderiam fazer dentro dos próximos 100 anos, ou mais. Eu sei, isso é um divertimento um pouco tonto e está longe de ser um jogo sério, mas, prometo, é de facto muito bom.

Pessoalmente, vejo as seguintes manchetes surgirem à frente dos meus olhos:

IRRADICADO O SARAMPO

VACINAÇÃO CONTRA A SIDA PRONTA PARA UTILIZAÇÃO DE ROTINA

IDENTIFICAÇÃO DA CAUSA DE DEMÊNCIA LEVA À PRIMEIRA CURA EFICAZ

PRIMEIRA TERAPIA GENÉTICA COMEÇA A SALVAR VIDAS POIS PASSA A SER PRÁTICA MÉDICA QUOTIDIANA

CANCRO, UMA DOENÇA SEM FATALIDADES

ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL TORNA-SE REALIDADE

Sim, eu sei que este conjunto de títulos mais não é do que uma conjectura ingénua misturada com desejo, e quase nenhum será verdadeiramente surpreendente na minha lista.

Mas, espera aí, não é surpreendente que eu visualize avanços consideráveis na área da saúde convencional, mas não o faça da mesma forma nas manchetes dos títulos espectaculares relativos à medicina alternativa? Afinal, a medicina alternativa é a minha área de especialização. Por que não vejo estes títulos que passo a enunciar?

MAIS UM HOMEOPATA GANHA O PRÉMIO NOBEL

QUIROTERAPIA DA SUBLUXAÇÃO VERTEBRAL CONFIRMADA COMO CAUSA ÚNICA DE MUITAS DOENÇAS

DOENTES CRÓNICOS PODEM CONFIAR NOS ELIXIRES E NAS ESSÊNCIAS FLORAIS DE EDWARD BACH

ERVAS CHINESAS CURAM CANCRO DA PRÓSTATA

ACUPUNCTURA TORNA OS ANALGÉSICOS OBSOLETOS

TINTURA DE ROYAL DETOX PROLONGA A VIDA

TERAPIA CRANIOSACRAL MOSTRA-SE EFICAZ NO TRATAMENTO DA PARALISIA CEREBRAL

IRIDOLOGIA, UM AUXILIAR DE DIAGNÓSTICO VÁLIDO

 

Como posso estar tão confiante que tais manchetes sobre a medicina alternativa não vão, um dia, tornar-se realidade?

Simples: porque eu só preciso de estudar o passado para perceber que avanços têm ocorrido nos últimos 100 anos. Os Cientistas e os Médicos tradicionais descobriram o tratamento com insulina que transformaram os diabetes duma sentença de morte para uma doença crónica, desenvolveram antibióticos que salvaram milhões de vidas, fabricaram vacinas contra infecções mortais, inventaram técnicas de diagnóstico que possibilitaram o tratamento precoce de muitas condições com risco de vida, etc.

Nenhum dos muitos marcos na história da medicina adveio no âmbito da medicina alternativa, nem um só.

E que dizer sobre os ervanários?  Alguns poderão perguntar. Aspirina, vincristina, taxol, e outros remédios são originários do “reino” vegetal, e estou certo de que haverá tais histórias de sucesso semelhantes no futuro.

Mas foram estes desenvolvimentos verdadeiramente impulsionados pelos ervanários tradicionais? Não! Foram descobertas inteiramente baseadas na pesquisa sistemática e na ciência rigorosa.

O progresso na saúde não virá agarrado a um dogma, nem por aderir a implausibilidades de ontem, nem por afirmar que a experiência clínica é mais importante do que a pesquisa científica.

Eu não estou a dizer, é claro, que toda a medicina alternativa é inútil. Eu estou dizendo, porém, que é hora de começar a sermos realistas sobre o que os tratamentos alternativos podem fazer e o que não podem alcançar. Eles não vão salvar muitas vidas, por exemplo; uma cura alternativa para qualquer coisa é uma contradição em termos. A força de algumas terapias alternativas está nos cuidados paliativos e de suporte, e não em mudar a história natural das doenças.

No entanto, os defensores da medicina alternativa tendem a ignorar este facto por demais evidente e vão muito além da linha que divide comportamento responsável do comportamento irresponsável. O resultado é uma infinidade de afirmações falsas – e isto é claramente errado. Ela levanta falsas esperanças que, em poucas palavras, são sempre anti-éticas e muitas vezes cruéis.

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Esta é uma tradução do artigo do Professor Edzard Ernst.

Edzard Ernst é Médico e estudou as medicinas alternativas. O seu Curriculum pode ser consultado aqui.

 

4 comentários

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    • Manel Rosa Martins on 11/11/2012 at 01:42
    • Responder

    A Homeopatia é toda uma falsidade porque o seu inventor desconhecia o número de Avogrado, se tentar detcatar o curare por meios científicos que tomam as medidas ao nível das partículas sub-atómicas não encontra uma única molécula de curare nessa diluição.

    Toda a Homeopatia é falsa, de acordo com todos os testes da Ciência.

    Cumprimentos.

  1. Eu também acho que a homeopatia em geral é algo ridículo.
    Mas não é em todos os casos.

    O Curare, todos sabemos que é um veneno potentíssimo.
    Mas também é remédio, mas só pode ser usado na forma de homeopatia.

    Portanto, discordo da Diana, um hoemopata que seja cientísta, não precis deixar de ser homeopata para continuar sendo cientísta.

    1. O curare usado num preparado homeopático não tem qualquer efeito…a não ser o de placebo.
      Se a diluição estiver feita a preceito, não existirá nenhuma molécula do potente veneno no preparado.
      Até que se descubra uma lei física e química completamente nova e que vá contra tudo aquilo que se conhece, e para isso serão necessárias provas substanciais, a homeopatia é uma fraude à luz da ciência actual.
      Sem excepções.

      Desconheço, no entanto, se o curare tem ou não uso médico.
      Muitos venenos têm: dependendo da dose e do modo de aplicação podem ser muito úteis.

  2. Edzard Ernst, o único homeopata racional e cientista…por isso já não é homeopata 🙂

  1. […] Chinês preso. Confissão de aldrabão. Humor: Revista Jon Stewart. Humor de Telecinética. Prémio Nobel. Sexta-Feira 13. Voo 666. Racional: Diagrama da Irracionalidade. Diagrama da Teoria da […]

  2. […] e nada ocorreu. Contudo, continua a falar-se do que se falava antes: das curas mágicas (também aqui e […]

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