Como ser um vigarista

O famoso médico e estudioso de terapias alternativas Edzard Ernst escreveu um artigo onde descreve os passos necessários para que qualquer pessoa se torne um charlatão.
O objectivo não é, obviamente, criar mais charlatães, mas sim para as pessoas saberem quais são os sinais de um charlatão.
Aconselho vivamente a leitura do artigo em inglês, aqui.

O charlatão segue estes passos:

1 – Criar uma terapia alternativa atractiva e com um nome fabuloso: por exemplo, dizer que o ouvido é um mapa do corpo humano que permite curar todas as doenças. Bem, esta ideia não podem usar, porque a brigada da acupunctura pelo ouvido já usa isto. E porque não dizerem que têm super-poderes que vos permite transmitir “energia curativa” de modo ao corpo dos vossos pacientes se curar por si próprio? Bem, isto também não podem usar porque os defensores do Reiki iriam acusar-vos de plágio. Mas pronto, já perceberam que têm que imaginar algo fantástico deste género.

2 – Inventar uma história fantástica para a vossa técnica: digam que curaram a vossa irmã quando ela tinha 6 anos e estava a morrer ou digam que receberam inspiração num sonho, etc. Não existem limites para a imaginação de criar uma mentira bem grande.

3 – Juntar um pouco de pseudociência: usem algumas palavras da ciência que só alguns especialistas compreendem, como “quântica”, “caos”, “vácuo”, etc. Aproveitem e juntem alguns nomes de cientistas e de universidades conhecidas e digam que elas apoiam a vossa ideia e até já fizeram estudos sobre isso. Se conseguirem, juntem também alguma tecnologia: qualquer coisa que dê luzes de várias cores é essencial para “provar” a validade dos diferentes tipos de “energias curativas”.

4 – Juntar conhecimento antigo: digam que a vossa terapia está profundamente imbuída na tradição. Se for uma tradição oriental, ou de civilizações antigas como a Suméria, então será perfeito. Ninguém vai realmente ver se os Sumérios defendiam isso ou não, por isso estão à-vontade para inventarem as tradições que quiserem. E claro, convém concluírem que, como a vossa terapia sobreviveu durante todo este tempo, então é porque é uma terapia segura e eficaz.

5 – Dizer que cura tudo: para maximizar os lucros, digam que a vossa terapia cura tudo, desde a dor de dentes até ao cancro. Não se preocupem com as pessoas perceberem que não há nada que cure tudo; nestas coisas as pessoas não ligam à lógica.

6 – Não ligar às evidências: eu sei que é deprimente lidar com evidências e com cientistas/médicos. Mas não se preocupem: primeiro digam que a ciência não consegue explicar tudo e depois contratem pessoas para dizer que a terapia funcionou com elas. Aliás, provavelmente até funcionou em algumas, pelo efeito de placebo, por isso a essas não precisam de pagar. Criem um website cheio de “clientes satisfeitos” que “provam” que a vossa terapia funciona. Infelizmente, ainda há muitas pessoas com escrúpulos no mundo, por isso podem ter alguma dificuldade em arranjar pessoas reais para dizerem que a terapia funcionou com elas, mesmo sem ter funcionado. Se isso acontecer, inventem nomes e vão ao Google e tirem fotos de pessoas à sorte. Ninguém vai tentar descobrir se as pessoas são reais ou não.

7 – Usar a estatística: para alguns malvados cépticos, os testemunhos pessoais não são suficientes. Nesse caso, usem a estatística. O consenso mostra que 70% das pessoas ficam melhor só por efeito de placebo. Por isso, digam que o vosso tratamento cura 76% das pessoas. Isso convencerá as pessoas que o vosso tratamento é o melhor de todos. Se não tiverem estudos rigorosos para provar isso – e não têm -, inventem que têm, porque ninguém vai querer saber.

8 – Falar das farmacêuticas: digam que a vossa terapia só não é comum na população porque as grandes farmaceuticas não vos deixam. É tudo uma grande conspiração. Os fanáticos adeptos de conspirações ficarão logo do vosso lado.

9 – Pagar: peçam dinheiro, muito dinheiro pelo uso da vossa terapia. Após os 8 pontos anteriores, ficarão certamente ricos com o dinheiro daqueles que dizem ter a mente aberta e acreditam em todos os disparates.


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