Credibilidade mal aplicada

Em ciência sabemos que as hipóteses têm de ser testadas. Só assim poderemos dar credibilidade a algumas alegações.
Mas não é o simples facto de se fazer a experiência que imediatamente torna a alegação correcta: o resultado da experiência pode concordar ou não com a alegação.

credibility

Uma das críticas que alguns pseudos fazem à ciência é que ela não se interessa por avaliar a informação da alegação extraordinária que eles defendem.

É certo que a ciência não avalia tudo o que existe, nem o pode fazer, por razões de tempo. Todos os dias há mais alguns vigaristas a inventarem novas parvoíces para enganarem as pessoas; mesmo que o dia tivesse 30 horas, a ciência não seria capaz de avaliar tudo. Além disso, não haveria tempo para fazer mais nada.
De qualquer modo, a ciência não precisa fazer isso. Qualquer pessoa que disponha de literacia funcional consegue avaliar as alegações, porque na verdade algumas alegações são tão ridículas como dizer-se que o Pai Natal entrega prendas por todo o mundo numa só noite – ou seja, são só histórias para criancinhas e facilmente se percebe que são fantasia.

Por vezes, essa crítica dos pseudos vem do facto de não saberem que a ciência realmente já avaliou a alegação e provou que é falsa.
Existem inúmeros estudos sobre, por exemplo, telepatia, que mostram que todas as experiências controladas e duplamente cegas deram resultados negativos.

O mais interessante ainda são os estudos científicos sobre um determinado assunto, que depois os pseudos usam para provar que a ciência se interessa por isso.
Ora, se a ciência não faz as experiências, é acusada de colocar o assunto de lado; se a ciência faz as experiências e elas mostram claramente que nada de relevante existe, então os pseudos olham só para o facto de ter havido experiências para inventaram que só isso (e não o resultado das experiências) é suficiente para transmitir credibilidade ao assunto (esta é até uma razão para os cientistas recearem o interesse em avaliar as alegações pseudo, porque os pseudos usam essa avaliação para marketing vigarista).
Por exemplo, a Organização Mundial de Saúde, após vários testes, diz-nos que a Homeopatia não serve para curar nada. No entanto, os defensores desta pseudo-terapia assumem que só por a Organização Mundial de Saúde ter falado neles, então é porque têm credibilidade. Isto é, obviamente, uma idiotice.

Aliás, no caso de experiências feitas pela Organização Mundial da Saúde, a verdade muitas “alternativas” já foram testadas, porque a OMS tem óbvio interesse em estudar novas formas de curar doenças. O problema é que os estudos mostram sempre a mesma coisa: estamos na presença de meros placebos.

O paradoxo nestes casos das terapias alternativas é que estão sempre desejosos de publicitarem que foram referidos positivamente pelas grandes instituições, enquanto simultaneamente afirmam que as grandes instituições têm interesses ocultos para os suprimir.
Ou seja, querem retirar credibilidade aos avaliadores, mas depois estão sempre desejosos que eles lhes dêem credibilidade.

onus

Por fim, provavelmente a parte mais importante deste texto: quem faz as alegações extraordinárias é que tem obrigação de apresentar evidências facilmente comprovadas por todos da eficácia da terapia.
Os pseudos usam a falácia da Inversão do Ónus da Prova, afirmando que a ciência não “desprovou” algo.
Mas não é a ciência que tem que “desprovar” alguma coisa. Quem afirma que algo funciona é que tem de o provar.

Se eu disser que consigo voar sozinho, por mais que as pessoas duvidem, eu posso sempre inventar argumentos do porquê do meu “dom” não funcionar na presença dessas pessoas (o argumento mais utilizado pelos pseudos é dizer que as pessoas não “acreditam” suficientemente nos meus poderes e por isso é que os poderes não se manifestam).
Se eu disser que o Pai Natal é verdadeiro, posso sempre afirmar que ele só não aparece a quem não acredita suficientemente nele.

A verdade é que inventar alegações e argumentos falaciosos é extremamente fácil.
E não é da responsabilidade da ciência avaliar todas as mentiras que existem no mundo.
Pelo contrário, é da total responsabilidade de quem faz as alegações, apresentar evidências que possam ser comprovadas por todos que aquilo que alega é a verdade. O ónus da prova está sempre do lado de quem afirma as coisas.

1 comentário

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  1. Eu também concordo que Homeopatia não tem lá grande fundamento.
    Mas existem plantas que só podem ser utilizadas como medicamento, se for na forma de homeopatia, um exemplo disto é a Cicuta..

  1. […] Não democratização das opiniões. Respeito. Intolerância para com a ignorância. Insulto. Ónus da Prova. Argumento da Ignorância (aqui e aqui). Hipocrisia. Hipocrisia. Conversa. Responsabilidade […]

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