Teoria da Panspermia

Vejam este pequeno vídeo simplificador da ideia desta teoria.

Uma das questões fundamentais com que qualquer pessoa se depara é a da razão de estar vivo, de existir. Na Ciência, sendo um conhecimento de todos, procura-se entender a razão de todos nós existirmos. Darwin deu uma ajuda: evoluímos de outros seres. Mas se sabemos que a Terra nem sempre existiu, isto implica que a vida neste planeta tenha tido um começo. Pegando novamente na Teoria do Evolucionismo consegue-se perceber que se os organismos são sempre mais complexos, então o começo deverá ter acontecido da transição do “não ter vida” para o “organismo mais simples, primordial e fundamental”. Depois de identificadas as “peças” essenciais da vida, deveria bastar reconhecer as moléculas que as constituem e determinar as condições necessárias para transformar essas moléculas, nessas “peças”. Apesar de haver várias teorias que tentam explicar essa transformação, a verdade é que nenhuma foi confirmada em laboratório. Sendo assim impõe-se a questão: será que esta incompreensão não se deve a alguma razão que nos transcenda? Essa razão pode ser simplesmente uma condição com a qual nunca nos deparámos, por não ocorrer neste planeta. Mas num outro planeta nada nos garante que tal não exista. E é com esta hipótese que podemos chegar à Teoria da Panspermia: a vida terrestre pode ter origem extraterrestre.

A ideia não é nova: Anaxagoras, 500 A.C., já a tinha proposto. Mas só voltou a ser considerada e estudada novamente a partir do século XVIII, com Benoît de Maillet (1743), Jöns Jacob Berzelius (1834), Kelvin (1871), Hermann von Helmholtz (1879), Svante Arrhenius (1903) e muitos outros, posteriormente.

William Thomson, mais conhecido por Lord Kelvin (1824-1907). Físico e engenheiro, deu importantes contributos em várias áreas da Física, em particular na Termodinâmica (tendo sido o primeiro a estimar o zero absoluto – a menor temperatura possível, -273.15 ºC).

Esta teoria não assume apenas a possibilidade de que a Terra tenha sido “contaminada” com vida. O mesmo é igualmente plausível para qualquer outro planeta, a diferença é que nem todos os planetas têm condições para receber a vida (que supostamente é transportada em asteróides, claro). Do mesmo modo, também a própria Terra poderá estar em condições de enviar vida para outros planetas.

Como? É uma boa questão. Pode-se imaginar alguns cenários, como por exemplo um asteróide que entre e saia da atmosfera terrestre sem embater no planeta, conseguindo levar alguns organismos que possam sobreviver à viagem de milhões de anos que deverá ocorrer até que chegue a outro planeta. É uma hipótese extremamente remota, mas se num bilião de asteróides, um o consiga, então não deveremos desprezar este cenário (a probabilidade indicada não é real, tal nunca foi calculado, pois não se têm dados suficientes para se fazer uma análise estatística do problema, como é evidente).

Mais importante que isso, a teoria divide-se em duas hipóteses distintas: ou supõe que a vida transportada teve início num dado planeta, ou então supõe que estas “sementes da vida” sempre existiram no universo. É claro que esta última possibilidade tem perdido adeptos, pois é uma hipótese impossível se assumirmos que a Teoria do Big Bang é verdadeira, ou seja, se o universo não é eterno, então tal implica que qualquer coisa dentro dele também tenha tido um princípio, como tal a vida não podia “cá andar desde sempre” (nem faz sentido que tenha sido criada aquando do Big Bang, claro).

“Mas afinal: há provas que confirmem a teoria?” Provas irrefutáveis e incontornáveis não há e arrisco-me a profetizar que assim continue. Existem factos geobiológicos que sugerem que a vida não teve tempo de se desenvolver no planeta, que teve que vir de fora, para poder aparecer quando apareceu. Existem microorganismos que conseguem sobreviver milhões de anos num estado inactivo (como que uma hibernação), conseguindo voltar ao estado metabolicamente activo quando encontram as condições necessárias para isso. Existem fortes evidências de que no sistema solar, noutros planetas e luas, tenha havido condições favoráveis à vida (ou até mesmo que ainda haja). A probabilidade de haver vida noutros locais do universo é actualmente considerada quase pela unanimidade dos cientistas de ser suficientemente elevada para podermos dizer: “Não estamos sozinhos.”. E, por fim, talvez possamos assumir que dado o número de possibilidades sob investigação de “sementes da vida” (meteoritos com supostos microorganismos extraterrestres), é plausível assumir que a Teoria da Panspermia é viável, no entanto, não devemos esquecer que a maioria destes estudos têm dado resultados inconclusivos, bem como outros nos mostram que, por exemplo, dificilmente uma bactéria num meteorito sobreviveria ao impacto do meteorito com a Terra (supondo que o meteorito não é pulverizado só com a entrada na atmosfera). Por outro lado, mesmo que seja possível a disseminação da vida no universo habitável pelos meios que a Teoria da Panspermia refere, tal não implica que isso tenha acontecido na Terra!

Chuva vermelha de Kerala. Embora a sua origem seja ainda fonte de debate, uma das teorias avançadas é que esta poderia conter microorganismos de origem extraterrestre.

A título de curiosidade refiro ainda que, em 1973, Francis Crick e Leslie Orgel sugeriram uma variante a esta teoria, chamaram-lhe: Panspermia Directa. Directa, porque seria induzida, não seria um acaso! Ou seja, esta teoria formula a hipótese de uma civilização extraterrestre avançada ter tido o intento de espalhar a vida pelo universo, enviando para todo o lado as “sementes da vida”.

 

11 comentários

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  1. Já há material suficiente para justificar uma teoria científica ou ainda é mera hipótese científica?

    1. Diz-se Teoria. É assim que é chamada.
      Mas na verdade é uma hipótese 😉

    2. toda teoria é baseada em premissas que necessariamente devem ser consideradas verdadeiras… assim como a evolutiva… entao nos partimos sempre do mesmo ponto, ‘premissas necessariamente verdadeiras’, mas por pura arbitrariedade mesmo… a discussao sempre sera filosofica.

      1. Teorias são baseadas em factos já comprovados… (como já explicado várias vezes neste blog) 😉

        http://www.astropt.org/2012/09/15/teoria/

        http://www.astropt.org/2013/07/14/lei-vs-teoria/

        http://www.astropt.org/2013/07/31/hipoteses-ou-teorias/

  2. Encanta por tirar o evento da vida de um contexto pontual para um universal. Mas desconforta ao propor apenas o meio e o fim da história.

    1. Pode ser na mesma “pontual”, simplesmente não terá ocorrido neste “ponto” chamado “Terra”. 🙂 Por outro lado, propõe parte do “meio”, mas não o “fim”.

  3. É uma teoria bonita… mas só adia a resolução da pergunta essencial: mesmo com essa opção de termos vindo de uma forma de vida extraterrestre… algum momento no universo, em algum planeta extraterrestre, necessariamente deve ter havido a transição do “não ter vida” para o “organismo mais simples, primordial e fundamental”.

    É análogo a outra pergunta essecial da filosofia: “why something rather than nothing?”
    Acho que nunca responderemos essas.

    1. A teoria pretende responder à questão sobre a origem da vida na Terra e não a origem da vida no universo… É claro que mesmo que se verifique que a vida terrestre tem origem extraterrestre, continuará a ser necessário mostrar como é possível gerar vida a partir de matéria inorgânica.
      Não me parece que seja bem análogo, porque neste caso não vejo porque motivo não havemos de ser capazes de responder a ambas as questões (origem da vida na Terra e no universo). Não são propriamente questões filosóficas, ainda que não tenham resposta.

      1. Me parece que não seria necessário 13 Bilhões de anos pra ter as condições de formar a vida.
        Um só já seria o suficiente.

        Pois todas moléculas mais fundamentais para a vida surgiria logo depois da primeira geração de estrelas.

        Então pode existir as duas coisas.

        Eventos raríssimos criando a vida em lugares longincuos uns dos outros no universo.

        E quase que uma campanha de astros errantes levando a vida de um lugar para o outro.
        Fazendo ela se propagar muito mais doq se fosse apenas pela formação autônoma em cada astro.

      2. Um ano não, porque é necessário esperar que essa geração estelar complete o seu ciclo (que se criem planetas, por exemplo)… Mas em geral, a tua ideia poderá ou não ter um fundo de verdade: depende de qual é a probabilidade de aleatoriamente se “juntarem os elementos” necessários para “criar” vida (com “elementos”, não me refiro apenas à química necessária, mas também às condições que circundam essa química), a qual embora se saiba que deva ser bastante baixa, é desconhecida. Se a conhecêssemos, teríamos que a comparar com o “tamanho” do universo, para verificar se isso seria verdade (ou seja, se haveria uma probabilidade significativa de isso acontecer num número X de anos).

    2. Olá Guilherme . Esta pergunta ” Porque algo e não o nada” intriga a todos. Dá uma olhada no livro do Jim Holt , Porque o mundo existe. Ele dá uma resposta. Dogmática mas original.
      Abraço.

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