Cientistas ressuscitam vírus gigante com 30 mil anos

Pithovirus_sibericum_Legendre_et_al_Mar2014Imagem de microscopia electrónica de transmissão mostrando o novo vírus gigante Pithovirus sibericum.
Crédito: Julia Bartoli/Chantal Abergel/Information Génomique et Structurale (CNRS-AMU).

Cientistas descobriram um novo vírus gigante numa amostra de permafrost siberiano congelado há mais de 30 mil anos. Denominado Pithovirus sibericum, o novo vírus foi isolado a partir de culturas de amibas expostas a fracções do antigo solo ressuspendidas em meio de cultura. Os resultados deste trabalho foram publicados na semana passada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Esta é a mais recente de uma série de descobertas de vírus gigantes, nas quais esteve envolvida a dupla de investigadores franceses Jean-Michel Claverie e Chantal Abergel, ambos da Universidade de Aix-Marseille, na França. Na última década, Claverie e Abergel ajudaram a identificar alguns dos mais emblemáticos membros das famílias Megaviridae e Pandoraviridae (os dois maiores grupos de vírus gigantes de ADN), incluindo o Mimivirus, o primeiro vírus gigante a ser descoberto, e os Pandoravirus, vírus com um genoma comparável em tamanho ao de muitas bactérias.

O novo vírus é o maior alguma vez observado. A sua descoberta nasceu de uma colaboração entre a equipa francesa e cientistas da Academia de Ciências da Rússia. Em 2000, investigadores russos recolheram amostras de solo permanentemente congelado numa vertente íngreme junto ao rio Anuy, no extremo ocidental da região autónoma de Chukokta, na Rússia. As amostras continham sementes de uma pequena planta siberiana, que os investigadores fizeram germinar após mais de 30 mil anos aprisionadas em sedimentos congelados do Plistoceno Superior.

“Se foi possível ressuscitar uma planta, perguntei-me a mim mesmo se não seria também possível ressuscitar um vírus”, afirmou Claverie. Usando amostras providenciadas pela equipa russa, Claverie e colegas procuraram por vírus gigantes no permafrost siberiano, utilizando como isco culturas de amibas pertencentes à espécie Acanthamoeba castellanii (os hospedeiros naturais de muitos dos vírus gigantes).

Após algumas horas de incubação, as amibas começaram a morrer e a libertar partículas virais suficientemente grandes para serem observadas através de um microscópio óptico. Imagens obtidas por microscopia electrónica de transmissão revelaram a presença de um vírus nunca antes visto, com uma forma muito semelhante à dos Pandoravirus. As semelhanças ficam, no entanto, por aqui. “São vírus totalmente diferentes”, disse Abergel.

Análises moleculares demonstraram que o Pithovirus sibericum tem um genoma significativamente mais pequeno (cerca de 500 genes) que os dos Pandoravirus (até 2500 genes). Os ciclos replicativos são também distintos. Enquanto que os Pandoravirus recrutam a participação de muitas das funções do núcleo da célula, o Pithovirus sibericum é mais autónomo nos seus processos de multiplicação, dependendo maioritariamente da sua própria máquina replicativa, edificada no citoplasma do hospedeiro.

“Aquela enorme partícula encontra-se basicamente vazia”, afirmou Claverie. “Pensávamos que era uma característica dos vírus compactarem o seu ADN numa partícula o mais pequena possível, mas este tipo é 150 vezes menos compacto que qualquer um dos bacteriófagos [vírus que infectam bactérias].”

De acordo com a equipa, este descoberta poderá ter fortes implicações em termos de saúde pública. O aumento das temperaturas globais põe em risco a estabilidade dos solos gelados das regiões polares, o que poderá conduzir à libertação de mais vírus antigos. Alguns poderão ser vírus potencialmente patogénicos para o Homem, que se consideravam há muito erradicados.

Podem encontrar mais pormenores acerca deste trabalho aqui.

6 comentários

1 ping

Passar directamente para o formulário dos comentários,

  1. Amiba é ameba no português de Portugal?

    1. Olá Maria,

      As duas formas estão corretas: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/amiba. 😉

  2. Interessante a matéria mas não entendi muito bem que tipo de doença esse vírus pode causar nos humanos….

    1. Olá Carlos,

      Este vírus, em particular, não causa qualquer doença no Homem. Os seus hospedeiros naturais são amibas. 😉

        • Carlos on 14/03/2014 at 02:16

        Bom saber isso, mas acho este tipo de pesquisa, na visão de um leigo, um tanto quanto perigosa..

      1. Pelo contrário, Carlos. Este estudo alerta-nos para uma outra consequência do aquecimento global. A verdade é que os solos permanentemente gelados em regiões tão remotas como a Sibéria estão a sentir os efeitos do aumento da temperatura global. Vírus e outros organismos que estavam congelados há dezenas de milhares de anos estão a descongelar e a voltar a estarem activos, mesmo sem a intervenção directa do Homem. 😉

  1. […] Natural. Elo Perdido. Biodiversidade, ano, datas. Árvore. 1ª vida artificial. ADN expandido. Vírus Gigante. Gaia-Medea. Chaminés Negras. Lost City. Extraterrestres, Abissais. Bactérias de Arsénio: […]

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.