Exoplaneta Habitável pode ser somente uma mancha solar? A história de 2 exoplanetas que podem não existir

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Gliese 581 é uma estrela anã vermelha que se encontra a cerca de 20 anos-luz da Terra.

É uma estrela bastante famosa porque tem sido o local de descoberta de vários exoplanetas. Esta estrela, pensa-se, tem 6 planetas na sua órbita (Gliese 581e, Gliese 581b, Gliese 581c, Gliese 581g, Gliese 581d, Gliese 581f), sendo que 3 deles (“c”, “g” e “d”) tiveram direito a grandes notícias aquando da sua descoberta devido a estarem na zona habitável dessa estrela.

E, como se sabe, mal se fala em zona habitável, alguns imaginam imediatamente água, alienígenas e filmes de Hollywood.

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Gliese 581c teve o seu período de fama, mas percebeu-se que estava num dos limites interiores da zona habitável, por isso foi perdendo gradualmente o interesse.

O mesmo aconteceu a Gliese 581d, por se encontrar no limite exterior dessa zona habitável.

Mas Gliese 581g continuou a ser o “poster boy” nesse sistema para a habitabilidade.
Apesar de ser somente um planeta candidato (ou seja, não existir confirmação de que é um planeta), a verdade é que era um dos locais mais promissores para a habitabilidade.
O Catálogo de Exoplanetas Habitáveis coloca-o em 8º lugar. Ou seja, de todos os planetas descobertos, este seria o 8º com características mais próximas da Terra, de modo a poder ter água à superfície (e, quiçá, vida como a conhecemos).
Claro que o próprio Catálogo informa-nos, em letras pequenas, que este é somente um candidato a planeta, e que não existe confirmação de que o planeta realmente exista.

Crédito: PHL

Crédito: PHL

Um novo estudo feito a este promissor candidato a planeta, mostra-nos que poderá nem sequer existir planeta.
Será que a ciência errou? Claro que não!

Primeiro, os cientistas informaram desde a descoberta que era um planeta-candidato (tal como referimos no AstroPT, aqui).
Na altura, existiram cientistas a colocar em causa a existência do planeta, e nós próprios no AstroPT informamos sobre essas dúvidas, por exemplo aqui.
Desde a descoberta, em 2010, que mais equipas de cientistas têm colocado em causa a existência deste planeta, ou pelo menos, foram incapazes de confirmar a sua existência, e isso tem sido reportado quer em artigos científicos quer na divulgação científica, como aqui e aqui.
Por fim, o Catálogo de Exoplanetas refere literalmente que é um planeta-candidato, que ainda está à espera de confirmação, mostrando claramente que a ciência e os cientistas sabiam que o planeta podia existir ou não.
Ou seja, nem a ciência nem os cientistas erraram, porque a existência do planeta ainda estava a ser avaliada…. pela ciência e pelos cientistas.

Em segundo lugar existe aqui o fator “tempo”.
A ciência funciona sempre desta forma, e sempre com 100% de sucesso: com descobertas, avaliações, correções, novas descobertas, novas correções, etc. Existe um peer-review constante em ciência.
Antigamente, este processo poderia demorar séculos e nos livros de história só aparece o resultado final. Ou seja, ao ler sobre história, as pessoas ficam com a ideia errada que os cientistas observaram e imediatamente chegaram à conclusão correta. Obviamente, isto nunca se passou assim (dou como exemplo o delicioso debate sobre a (não) existência de manchas solares no Sol). Mas para um leigo em ciência, a ideia que fica é sempre a última, a que aparece nos livros de história.
Atualmente, com o imediatismo da informação, vemos o processo da ciência em movimento. Percebemos como a ciência (ao contrário da religião, da pseudo-ciência, etc) constrói o seu conhecimento a partir de confirmações objetivas feitas por diferentes equipas independentes, num constante e progressivo acumular de conhecimento. Claro que isto pode levar alguns a ficarem com a ideia de que a ciência está constantemente errada, mas é precisamente o contrário disto, e o mundo à nossa volta (feito de eletricidade, computadores, carros e internet) prova o quanto o conhecimento científico está correto. E está correto precisamente devido a essa vantagem da ciência: da constante revisão dos resultados feita por equipas independentes de modo a podermos gradualmente aumentar o nosso nível de conhecimento sobre o que nos rodeia. É assim que o conhecimento evolui!

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Então o que se passou com esta nova investigação publicada na revista Science?

Os planetas ao redor de Gliese 581 foram detetados por métodos indiretos ao analisar a luz da estrela (neste caso, foi por velocidade radial).
O problema é que esta luz vinda de outras estrelas é distorcida não só pelo movimento da estrela (devido à atração gravitacional dos planetas), mas também devido à sua atividade magnética (como manchas estelares) à medida que a estrela vai rodando sobre o seu eixo.

Até agora, os astrónomos não sabiam o período de rotação da estrela. Com uma nova técnica, conseguiram saber isso: cerca de 130 dias.
Ao incluir esta informação nos dados do sistema planetário, 2 planetas “deixaram de existir”. Ou seja, ao incluir essa informação da rotação da estrela (e as suas manchas), os movimentos da estrela são totalmente explicados sem existir necessidade de pensar que existem 2 planetas ao seu redor.

Na verdade, estes novos resultados mostram que o planeta Gliese 581d (sim, o “d”) provavelmente não existe.
Já o famoso Gliese 581g devia a sua existência a um método ainda mais indireto: as evidências para ele dependiam da existência e da excentricidade da órbita de Gliese 581d. Não existindo Gliese 581d, deixa de existir Gliese 581g.

Ou seja, Gliese 581d era somente uma mancha solar. E o famoso Gliese 581g, como dependia de Gliese 581d, também “deixa de existir”.

Segundo Paul Robertson, o investigador-principal deste estudo: “We’ve proven that some of the controversial signals from Gliese 581 don’t come from two proposed Goldilocks planets, but instead are coming from activity within the star itself masquerading as planets”. – Provamos que alguns sinais controversos que vêm do sistema de Gliese 581 não têm como causa dois planetas na zona habitável, mas a causa é a atividade na própria estrela.

A ciência poderá ter que separar esta família tãooo bonita...

A ciência poderá ter que separar esta família tãooo bonita… Crédito: PHL

Existem nesta notícia mais 4 aspetos para os quais vos quero chamar a atenção:

– os novos dados viram o sinal de Gliese 581d diminuir bastante. No entanto, não desapareceu completamente.
Ou seja, estes resultados precisam também ser confirmados, verificados por equipas independentes, antes de podermos “riscar” de vez dois exoplanetas em órbita desta estrela.

– esta nova técnica permite aumentar significativamente o nível de confiança na confirmação de outros planetas. Com os novos dados, os astrónomos puderam confirmar ainda mais a existência de 3 outros planetas neste sistema.
Ou seja, não pensem que esta nova técnica, com o inserir de mais informação, mais conhecimento, constitui um revés. Nada disso. Esta técnica permite-nos separar melhor o “trigo do joio”: ou seja, permite-nos confirmar de forma independente vários outros planetas, enquanto simultaneamente coloca a existência de outros em dúvida.
Constitui assim progresso. É um passo na direção certa de modo a termos mais certezas sobre a existência dos planetas.

– além disso, colocando mais uma variável decifrável no modelo, torna-se mais fácil descobrir planetas menos massivos.

– esta nova técnica não coloca em causa as descobertas feitas pelo Telescópio Espacial Kepler. Esses cerca de 1.000 planetas descobertos pelo Kepler provavelmente não são afetados, já que o Kepler utiliza o método dos transitos.

7 comentários

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  1. atenção! eu não estou a criticar os cientistas e o seu trabalho! Longe disso. Eu até sou dos maiores críticos dos pseudos (como lhe chama o Carlos) que devem existir. (talvez ainda mais crítico que ele!!!) 😉

    1. Sim, eu percebi 😉

      Aliás, eu dei-lhe razão 😉

      abraços

  2. É impressionante como há gente que espalha essas idiotices, os mesmos que já imaginavam homenzinhos verdes por lá… este post mostra-nos a ciência em acção, é mesmo assim que é feita a ciência. Temos de nos lembrar que apesar de se ter tornado quase rotina a descoberta de novos planetas fora do sistema solar isto é ciência de ponta, com métodos indirectos e muito recentes (não se pode pedir 100% de fiabilidade a um método indirecto, por muito bom que ele seja, só com o tempo e muito estudo serão aperfeiçoados ou substituídos por outros com melhores resultados) até à poucos anos planetas extra-solares nunca tinham sido sequer detectados.
    Outro desafio é a propaganda mediática que normalmente deixa de fora aspectos importantes de uma noticia científica, aqueles detalhes que não enchem o olho, quando se fala num planeta ou candidato a planeta em zona habitável é imediata a comparação com a Terra, mas também poderia ser com Marte ou Vénus que também fazem parte da zona habitável do sistema solar, só que isso não teria o mesmo impacto, mas depois a “desilusão” acaba por ser maior para os menos bem informados.

    1. 100% de acordo.

      Aliás, vamos supor que aquando da descoberta de Gliese 581g, os cientistas tinham informado a imprensa que: “Talvez tenha sido descoberto um planeta na zona habitável da estrela… ou talvez não, porque o método é indireto a partir da deteção indireta de outro planeta nesse sistema. Ou seja, não se sabe se o tal planeta existe ou não. Se existir pode ter água ou não, porque não se sabe nada sobre ele…”

      Se fosse assim divulgado, ninguém ia falar do planeta na imprensa… 😛

      abraços

  3. Carlos. Assim sendo (e porque a ciência está sempre a evoluir e a confirmar várias situações através de novos estudos, análises, etc), como foi possível, na altura da (agora duvidosa) descoberta do “gliese 581g”, dizerem que era muito possível ter água no estado líquido, etc, etc, etc.
    Não duvido do poder da ciência, muito pelo contrário! Mas lembro-me de ver esse tipo de informações dada pela equipa de “descobridores”.
    Vendo agora este artigo, pergunto-me :como podiam ter tanta “certeza” de tais características? (apenas por supostamente se situar na zona habitável?).
    Não terá havido uma certa pressa em divulgar tal descoberta (com medo talvez que outros a fizessem antes deles?)
    Não seria melhor terem feito ainda mais estudos para ter mais certezas da existência (ou não) do planeta, e evitar que agora viessem dizer que, com novas análises, talvez dois dos planetas que antes anunciaram talvez não existam (e que sejam apenas manchas na estrela?)
    Não haverá uma “febre” na descoberta de exoplanetas, que faz com que haja uma precipitação na divulgação de resultados ao público em geral, correndo-se depois o risco de se fazerem “correcções”?

    1. Nuno,

      Em consciência, sou obrigado a responder que sim a todas as perguntas.

      A verdade é que “zona habitável” é um termo enganador, como já expliquei aqui:
      http://www.astropt.org/2014/05/30/super-terras-e-zonas-habitaveis-sao-termos-enganadores/
      Para existir água líquida à superfície precisa não só da distancia certa à estrela, mas também ter pressão correta e atmosfera consentânea, por exemplo.

      Daí que, cientificamente, não se dá grande importância a isto.
      Se for às conferencias científicas, percebe que não se dá grande importancia a estes termos.

      Estes termos, realmente, são só para “vender”, para o público ficar interessado.

      Note que sempre foi assim (os cientistas a quererem ficar “por cima” de outros). Aliás no passado existiram debates famosos, em que os cientistas se insultavam. Hoje isso já não se passa assim. Mas hoje o tempo de espera é muito menor, o que faz com que se perceba melhor o processo da ciência, e também faz com que estes potenciais falsos positivos sejam mais badalados pela imprensa.

      abraços

  4. Esta notícia já está a ser usada pela web para passar inverdades, sobre erros na ciência, sobre ter-se a certeza dos planetas não existirem, etc.

    Mas lá está, estas conceções erradas da ciência são divulgadas por jornaleiros, comentadores bitaites e demais vigaristas que não se informam devidamente. E que são os mesmos que na altura da descoberta do candidato não referiram que era candidato e que diziam que Kepler-186f era uma outra Terra, etc, etc, etc.

    E as pessoas são enganadas por esses vigaristas e ficam a pensar coisas erradas sobre a ciência…

    Enquanto os cientistas andam a trabalhar para dar mais conhecimento à Humanidade, os vigaristas subvertem as investigações científicas, tiram conclusões erradas, e passam essa desinformação para a população (como se fosse dada pelos cientistas).

    Enfim… 🙁 Parece que o trabalho de algumas pessoas visa somente denegrir a ciência e estupidificar as pessoas… 🙁

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