À Espera do Cometa de Halley

Em 1910, o mundo esperava o retorno do Cometa de Halley, um velho amigo que atravessa a vizinhança do nosso planeta a cada 76 anos. Os cálculos, nessa altura já bastante precisos, indicavam que o Halley atingiria o periélio no dia 20 de Abril e que, um mês mais tarde, a 19 de Maio, passaria tão próximo da Terra que o nosso planeta estaria, durante algumas horas, imerso na sua cauda.

Foi neste clima de antecipação e alguma apreensão que, na madrugada do dia 12 de Janeiro, mineiros na região do Transvaal, na África do Sul, descobriram um cometa que na altura era já tão brilhante como Sirius, a estrela mais brilhante do firmamento. O cometa aproximava-se da Terra vindo do lado oposto do Sol. Poucos dias depois, no dia 17 de Janeiro, passou no periélio, a apenas 20 milhões de km do astro rei. O cometa tornou-se tão brilhante que, segundo relatos de observadores na Cidade do Cabo, Roma, Viena e Argel, foi visto em pleno dia, com uma pequena cauda, junto ao Sol.

Depois do periélio o cometa aumentou rapidamente a sua distância angular do Sol, possibilitando a sua observação durante o crepúsculo e à noite. A sua trajectória favorecia os observadores do hemisfério Norte, onde se concentravam na altura a maioria dos observatórios astronómicos e centros de ciência. A imprensa, já sensibilizada para os assuntos astronómicos pela esperada aparição do Cometa de Halley, deu grande cobertura mediática ao fenómeno. Consequentemente, o Grande Cometa de Janeiro, como ficou conhecido, foi visto por milhões de pessoas e estudado em pormenor pelos astrónomos.

1910A1HampsteadHeath
[O Grande Cometa de Janeiro de 1910 desenhado por G. F. Morrel, às 5:10 p.m. do dia 21 de Janeiro de 1910, em Hampstead Heath, na região norte de Londres.]

Uma dessas pessoas foi o astrónomo amador inglês Ellison Hawkes, que descreveu assim o espectáculo que observou no final da tarde do dia 21 de Janeiro:

The picture presented in the western sky was one which will never be forgotten. A beautiful sunset had just taken place, and a long, low lying strip of purple cloud stood out in bold relief against the glorious primrose of the sky behind. Away and to the right the horizon was topped by a perfectly cloudless sky of turquoise blue, which seemed to possess an unearthly light like that of the aurora borealis. High up in the southwest shone the planet Venus, resplendently brilliant, while below, and somewhat to the right, was the Great Comet itself, shinning with a fiery golden light, its great tail stretching some seven or eight degrees above it. The tail was beautifully curved like a scimitar, and dwindled away into tenuity so that one could not see exactly where it ended. The nucleus was very bright, and seemed to vary. One minute it would be as bright as Mars in opposition, while at another it was estimated to be four times as bright. The tail, too, seemed to pulsate rapidly from the finest veil possible, to a sheaf of fiery mist.

A aparição do cometa não passou despercebida também em Portugal. O especialista em cometas John Bortle, numa das suas deliciosas crónicas sobre cometas históricos, menciona uma fonte (que desconheço) que descreve a reacção da população:

So awe inspiring was the scene that, reportedly, thousands of persons in Portugal flocked to the coastline to view it, the religious repeatedly crossing themselves out of fear as they beheld the unworldly apparition suspended before them in the firmament.

A cauda do cometa atingiu rapidamente um comprimento de 25 graus nos dias seguintes, à medida que era observado mais tarde no crepúsculo, com o benefício de um céu mais escuro. Para terem uma ideia aproximada do tamanho aparente do cometa, 25 graus é o arco projectado no céu pela distância entre a ponta dos dedos polegar e mindinho, na mão de uma pessoa adulta, de acordo com a figura seguinte. Notem que, para o truque funcionar, o braço tem de estar bem esticado.

hand-degrees
[As nossas mãos permitem-nos realizar medições angulares no céu. Os ângulos apresentados são apenas aproximados e pressupõem que o braço está esticado.]

Anos mais tarde, na visita seguinte do Cometa de Halley, em 1986, vários estudos tentaram resgatar aos mais idosos memórias da passagem do cometa em 1910. Curiosamente, estes estudos concluíram que a maioria das pessoas que se lembravam de um cometa em 1910 tinham recordações do Grande Cometa de Janeiro, e não do famoso Cometa de Halley.

2 comentários

    • Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernanbdes on 10/10/2014 at 20:54
    • Responder

    A minha avó viu o cometa Halley ou o grande cometa de Janeiro e falava-nos muito dele com grande entusiasmo e nenhuma superstição.

    1. Em qualquer época há sempre pessoas que escolhem, sim escolhem, porque não é apenas uma questão de acesso à educação, observar o mundo com a curiosidade que nos é inata e a espectacularidade proporcionada pelos nossos sentidos, ao invés de mergulhar no medo e na irracionalidade da superstição. Pelo que me diz, a sua avó foi sem dúvida uma dessas pessoas.

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