Lua teve erupções vulcânicas num passado muito recente

Maskeylene_Lua_NAC_LROCDepósitos vulcânicos recentes nas proximidades da cratera Maskelyne. Imagem obtida pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter.
Crédito: NASA/GSFC/Arizona State University.

Foi há mais de 3 mil milhões de anos que violentas erupções vulcânicas criaram as vastas planícies basálticas, facilmente reconhecíveis a olho nu no lado da Lua mais próximo da Terra. Dados estratigráficos sugerem, no entanto, que este período de intenso vulcanismo lunar ter-se-á prolongado por mais algumas centenas de milhões de anos, antes de cessar abruptamente há cerca de mil milhões de anos.

Investigadores da Universidade do Estado do Arizona, nos Estados Unidos, e do Instituto de Planetologia da Universidade de Münster, na Alemanha, vêm agora revelar novas evidências da presença de focos de atividade vulcânica ainda mais recentes na superfície da Lua. A descoberta foi divulgada num artigo publicado esta semana na revista Nature Geoscience.

Usando imagens obtidas pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, a equipa liderada pela investigadora norte-americana Sarah Braden identificou cerca de 70 formações vulcânicas recentes, espalhadas pelas planícies basálticas, ou maria, que se estendem pelo interior das gigantescas bacias de impacto do lado da Lua mais próximo da Terra. Estas estruturas exibem uma distinta morfologia, caracterizada pela presença de pequenas colinas arredondadas de textura uniforme, interrompidas por porções irregulares de terreno rugoso.

localizacao_mapa_lua_WAC_LROCLocalização das estruturas identificadas neste trabalho no lado da Lua mais próximo da Terra. Legenda: Aristarchus (A), região Gruithuisen E-M (GEM), Hyginus (H), Ina (I), Mare Nubium (MN), Mare Tranquillitatis (MT), Marius Hills (MH), Maskelyne (M), Sosigenes (S).
Crédito: NASA/GSFC/Arizona State University.

Com comprimentos que vão desde os 100 aos 5000 metros, estas formações são demasiado pequenas para serem vistas a partir da Terra. Uma das maiores, uma área bem estudada conhecida por Ina, foi fotografada pela primeira vez em 1971, quando os astronautas da missão Apollo 15 sobrevoaram a região de Lacus Felicitatis. Desde essa altura, Ina tem sido interpretada como uma jovem caldeira vulcânica, formada no topo de um pequeno vulcão-escudo.

As imagens em alta-resolução obtidas nos últimos 5 anos pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter permitiram aos investigadores reconhecer muitas outras estruturas com morfologias e texturas semelhantes. O seu elevado número e ampla distribuição sugerem que os mais recentes surtos de vulcanismo lunar não foram uma anomalia, mas sim uma parte importante da evolução geológica da Lua.

prespetiva_Ina_Lua_NAC_LROCPerspetiva sobre Ina, uma depressão semicircular com 2,98 quilómetros de diâmetro, localizada em Lacus Felicitatis, a norte de Mare Vaporum. Imagem obtida pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter.
Crédito: NASA/GSFC/Arizona State University.

A ausência generalizada de crateras de impacto com mais de 20 metros de diâmetro no interior destas áreas sugere que estas estruturas foram criadas nos últimos 100 milhões de anos. No caso de Ina, os investigadores descobriram que a atividade vulcânica poderá ter cessado apenas há cerca de 33 milhões de anos. Outra estrutura, conhecida por Sosigene, poderá ter-se mantido ativa até há pelo menos 18 milhões de anos!

Esta nova descoberta tem fortes implicações na forma como os cientistas encaram a evolução e distribuição de calor no interior da Lua. “A presença e juventude destas áreas irregulares fornece uma nova limitação aos modelos de evolução térmica do interior da Lua”, afirmou Sarah Braden, primeira autora deste trabalho. “O manto lunar teve de permanecer quente o suficiente, pelo tempo necessário, para providenciar magma a estas pequenas erupções.”

Curiosamente, os resultados deste novo trabalho são consistentes com as leituras térmicas do regolito lunar, obtidas nos locais de alunagem das missões Apollo 15 e 17. As temperaturas medidas pelos astronautas norte-americanos eram ligeiramente mais elevadas que as previstas pelos modelos, pelo que, na altura, os cientistas propuseram que a discrepância seria devido a defeitos nos instrumentos ou a anomalias pontuais no fluxo térmico nos dois locais de alunagem.

“Estas jovens estruturas vulcânicas são, agora, alvos primordiais para futura exploração, tanto robótica como humana”, sugeriu Mark Robinson, um dos coautores deste trabalho. A recolha de amostras nestes locais forneceria certamente pistas cruciais para a compreensão da Lua como um todo, desde a sua evolução geológica até à sua estrutura interna.

Podem ler mais sobre este trabalho aqui.

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