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Out 19

A Ascensão do Caçador

À medida que o Outono avança, a constelação de Orionte, uma das mais belas e mais facilmente identificáveis no céu nocturno, aparece cada vez mais cedo no horizonte Este. Em Dezembro, Janeiro e Fevereiro, pode ser vista pouco depois de anoitecer. Trata-se de uma constelação especial, e para muitos astrónomos amadores, o autor incluído, é tempo de rever uma velha amiga.

Na mitologia grega, Orionte era um caçador gigante, filho de Poseidon, deus do mar, e de Euryale, filha de Minos, o rei de Creta. A julgar por várias referências indirectas nas poucas obras que sobreviveram da literatura clássica grega, existiu uma mitologia rica de episódios envolvendo Orionte. Segundo Hesíodo, um poeta grego possivelmente contemporâneo de Homero, a origem da constelação deve-se a um episódio que, para além de Orionte, envolveu Artemis, a deusa da caça, e a mãe, Leto. Os três reuniram-se em Creta para caçar. A certo momento durante a caçada, Orionte terá ofendido Gaia, a deusa da Terra, ao afirmar que seria capaz de matar todas as feras do mundo. Irada, Gaia enviou um escorpião gigante com a missão de matar Orionte. Após uma luta épica, Orionte sucumbiu a uma picada do escorpião. O maior dos deuses, Zeus, colocou os dois no firmamento, criando as constelações de Orionte e do Escorpião, de tal forma que nunca estariam em contacto. De facto, as duas constelações estão em zonas opostas do céu, nunca sendo visíveis em simultâneo.

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[Orionte, o caçador gigante, rodeado das constelações do Touro, dos Gémeos, do Unicórnio, do Cão Maior, da Lebre e do Erídano. A ilustração apresenta as constelações com a orientação horizontal invertida relativamente ao que observamos no céu. Fonte: Firmamentum Sobiescianum — Uranographia , obra do astrónomo polaco dos séculos XVI-XVII, Johannes Hevelius.]

Sete das estrelas mais brilhantes da constelação formam um quadrilátero (com uma estrela por vértice) dentro do qual se encontram três estrelas quase perfeitamente alinhadas. As estrelas que formam o quadrilátero são Betelgeuse, Bellatrix, Rigel e Saiph, começando no vértice superior esquerdo e seguindo no sentido dos ponteiros do relógio. No interior, as Três Marias, como são conhecidas na tradição oral portuguesa, têm por nome, da esquerda para a direita, Alnitak, Alnilam e Mintaka. Acima destas sete estrelas aparece ainda Meissa, marcando a cabeça do caçador gigante. Estes nomes exóticos são na realidade corrupções dos seus nomes originais em árabe. Na tradição árabe as estrelas de Orionte e de algumas constelações vizinhas formavam uma figura feminina conhecida por al-Jauzā. Rigel, por exemplo, é uma corrupção do nome Rijl Jauzah al Yusrā, “O Pé/Perna Esquerdo/a de Jauzah”.

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[Visão moderna da constelação de Orionte, com os limites fixados pela União Astronómica Internacional.]

Ao contrário da maioria das constelações, o alinhamento das estrelas mais brilhantes de Orionte não é obra do acaso. De facto, tirando o caso de Bellatrix, situada a apenas 240 anos-luz, as restantes estrelas referidas encontram-se todas entre 800 e 1500 anos-luz e estão associadas a um vasto volume de espaço ocupado por nuvens de hidrogénio molecular, a matéria prima necessária para formar novas estrelas, visíveis como nuvens densas de poeira interestelar que parecem envolver toda a constelação.

Todas estas estrelas são extraordinárias pelas suas dimensões e elevadas luminosidades. Betelgeuse é uma supergigante vermelha mil vezes maior e 100 mil vezes mais luminosa do que o Sol. Colocada no centro do Sistema Solar, o Sol e todos os planetas até Júpiter, inclusive, ficariam no seu interior. É tão grande que a sua fotosfera é mais fria do que a do Sol, o que lhe dá uma tonalidade alaranjada facilmente notada à vista desarmada. As restantes estrelas são todas gigantes e supergigantes muito quentes e extremamente luminosas. Rigel, por exemplo é 80 vezes maior, 2 vezes mais quente e 120 mil vezes mais luminosa do que o Sol. Alnilam é ainda mais luminosa, brilhando com a luz de 250 mil sóis. A estrela mais quente é Meissa, na cabeça de Orionte, com uma fotosfera 6 vezes mais quente do que o Sol, emitindo a maior parte da sua energia sob a forma de fotões ultravioletas.

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[Fotografia de longa exposição da constelação de Orionte. As principais estrelas da constelação são bem visíveis. A grande quantidade gás e poeira interestelar é evidente nesta região do firmamento, onde se acumulam enormes nuvens moleculares que são as maternidades das estrelas. Na imagem está também assinalada parte da Bolha de Orionte-Erídano, esculpida por uma primeira geração de estrelas maciças que explodiram como supernovas. As estrelas não nascem todas ao mesmo tempo e na mesma região. As três gerações identificadas até à data, G1 a G3, estão localizadas na imagem. Actualmente a formação de novas estrelas continua em várias regiões, e.g., a Nebulosa de Orionte (a nebulosa colorida no centro da região G3) e na Nebulosa da Chama (a nebulosa creme, bissectada por um filamento negro, ao lado de Alnitak, na região G2). Crédito: Rogelio Bernal Andreo com anotações pelo autor.]

Como foi dito, na direcção da constelação de Orionte, a uma distância entre os 1000 e 1500 anos-luz, existe uma concentração anormal de grandes nuvens de gás e de poeira interestelar. Estas nuvens são tão frias que, na superfície dos grãos de poeira, se formam moléculas como o hidrogénio molecular (H2), monóxido de carbono, água, entre outras mais complexas, percursoras mesmo dos aminoácidos fundamentais à vida como a conhecemos. A molécula mais abundante é de longe a do hidrogénio molecular, a principal matéria prima para fazer novas estrelas. Estas maternidades estelares podem conter milhares, até mesmo alguns milhões, de massas solares, e estendem-se ao longo de várias dezenas ou centenas de anos-luz. Se estiverem suficientemente próximas podem cobrir uma área no céu que ocupa constelações inteiras, como acontece com Orionte. Por terem estas características, estas nuvens são designados por “Nuvens Moleculares Gigantes”.

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[Fotografia de muito longa exposição da enorme Bolha de Orionte-Erídano, esculpida pelas explosões das estrelas mais maciças e luminosas formadas nas nuvens moleculares de Orionte. Os limites da bolha estão anotados com setas vermelhas. As setas azuis assinalam as posições das 8 estrelas principais da constelação. Crédito: Dennis di Cicco e Sean Walker com anotações pelo autor.]

Estudos mostram que as nuvens moleculares de Orionte deram origem a pelo menos 3 gerações distintas de estrelas, em zonas distintas da constelação. A primeira geração de estrelas (G1) formou-se há cerca de 12 milhões de anos. As estrelas mais maciças dessa geração explodiram entretanto como supernovas e esculpiram uma bolha que envolve a constelação designada por “Bolha de Orionte-Erídano” (porque se estende também pela constelação do Erídano, adjacente a Orionte). Betelgeuse, Rigel e Saiph poderão ser membros dessa primeira geração que se distanciaram do seu local de nascimento. A segunda geração (G2), com cerca de 8 milhões de anos, está associada às Três Marias — Alnitak, Alnilam e Mintaka. Finalmente, a terceira geração (G3), com 3 a 6 milhões de anos, é formada por estrelas numa região abaixo das Três Marias, com idades entre 3 e 6 milhões de anos. Em vários pontos na constelação existem regiões activas de formação estelar, e.g., a Nebulosa de Orionte e a Nebulosa da Chama. Tratam-se de partes de nuvens moleculares gigantes beliscadas pela radiação ultravioleta de estrelas jovens e maciças que provoca a fluorescência do gás interestelar. Vistas por um telescópio ou em fotografias, estas nebulosas são de grande beleza estética, enaltecida pelo facto de estarmos a testemunhar o nascimento de novas estrelas.

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[Sirius é fácil de localizar, devido ao seu brilho intenso, seguindo uma linha imaginária que continua o alinhamento das Três Marias, no sentido descendente, para a esquerda do observador.]

Mas as noites de Inverno têm outro espetáculo reservado para o observador do firmamento. Seguindo por uma linha imaginária definida pelas Três Marias, para o lado esquerdo e para baixo, podemos observar a estrela com maior brilho aparente do céu nocturno — Sirius, a luminária da constelação do Cão Maior. A constelação representa um dos cães que seguia o gigante caçador. De brilho intenso, branco-azulado, Sirius é, no entanto, apenas 25 vezes mais luminosa e 2 vezes mais maciça do que o Sol. É a estrela mais brilhante do céu simplesmente por que se encontra a apenas 8.7 anos-luz de distância. No antigo Egipto, o primeiro avistamento desta estrela antes do nascer do Sol coincidia com o início das cheias do rio Nilo, em Julho. As cheias arrastavam consigo os sedimentos que fertilizavam os terrenos nas margens do rio, o celeiro que sustentava toda a civilização Egípcia. Por este motivo, os antigos egípcios tinham uma veneração especial por Sirius, a qual era conhecida por Sodpet, ou, na versão helenizada, Sothis. Os gregos e os romanos atribuíam o calor excessivo dos meses de Verão a este primeiro aparecimento de Sirius, a “Estrela do Cão”, sendo esta a origem do termo “canícula”.

Nota: uma primeira versão, mais curta, deste texto, foi originalmente publicada na revista “Parques e Vida Selvagem”, número 42, do Parque Biológico de Gaia.

Acerca do autor(a)

Luís Lopes

Luís Lopes é professor no departamento de Ciência de Computadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Astrónomo amador há mais de 25 anos, interessa-se pela ciência em geral e pela sua divulgação. Acompanha com especial atenção os desenvolvimentos nas áreas de exoplanetas e da evolução estelar. Gosta de estar com a família, de ler um bom livro, de plantar e ver crescer árvores e de passar noites a observar o céu. Também escreve para o AstroPT de vez em quando ;-)

3 comentários

  1. Paulo Sanches

    Excelente artigo Luis.
    Obrigado pela divulgação histórica e astronómica de uma Constelação que eu também muito gosto de ver no céu.
    Venham mais!!
    Abraço

    1. Luís Lopes

      Obrigado Paulo 🙂

  2. Luis

    Muito bom , ótimas informações !

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