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Out 23

A Fuga de Afrodite e de Eros

A constelação dos Peixes, uma das 12 que compõem o zodíaco, ocupa uma área considerável na esfera celeste e é visível durante toda a noite no Outono. Contudo, não é particularmente proeminente pois a figura representada — dois peixes atados por uma corda — é delineada por estrelas relativamente débeis. A constelação só pode ser apreciada com detalhe num local com pouca poluição luminosa, mas vale a pena o esforço.

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[A constelação dos Peixes num atlas datado de 1822. Os dois peixes representam Afrodite e Eros fugindo do monstro Tifão. A corda que os ata foi usada pelos dois para não se perderem nas profundezas do oceano. Fonte: Celestial Atlas, Alexander Jamieson, 1822.]

A origem da iconografia da constelação é particularmente interessante. Segundo a mitologia grega, existiu um primeiro grupo de divindades, designadas genericamente por titãs, filhos de Gaia, a deusa da Terra, e de Urano, o deus do Céu. Os titãs constituíram o primeiro panteão de deuses gregos. Mais tarde, uma outra geração de deuses, liderados por Zeus, filho do titã Cronus, tomaram o poder, derrotando os titãs numa guerra épica e enclausurando-os no abismo infernal de Tártaro. Gaia, descontente com este desfecho, enviou o monstro Tifão para matar os novos deuses, em especial Zeus. Tifão foi o mais terrível monstro da mitologia, descrito desta forma por Hesíodo (fonte: Wikipedia):

“As vigorosas mãos desse gigante trabalhavam sem descanso, e os seus pés eram infatigáveis; sobre os ombros, erguiam-se as cem cabeças de um medonho dragão, e de cada uma se projetava uma língua negra; dos olhos das monstruosas cabeças jorrava uma chama brilhante; espantosas de ver, proferiam mil sons inexplicáveis e, por vezes, tão agudos que os próprios deuses não conseguiam ouvi-los; ora o poderoso mugido de um touro selvagem, ora o rugido de um leão feroz ; muitas vezes — ó prodígio! — o ladrar de um cão, ou os clamores penetrantes de que ressoavam as altas montanhas.”

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[Selo grego com cena extraída de uma peça cerâmica, mostrando Zeus, à esquerda, enfrentando o monstro Tifão, à direita.]

O primeiro dos novos deuses a aperceber-se da aproximação de Tifão foi Pan, deus dos espaços selvagens, dos pastores e rebanhos e da caça. Ao ver Tifão, Pan soltou um grito de alerta, transformando-se num ser metade cabra metade peixe, e escapou saltando para as águas do rio Eufrates — a água era o único meio impenetrável para Tifão. Esta transformação do deus Pan está eternizada no firmamento na constelação de Capricórnio. Entretanto, Afrodite e o seu filho Eros ouviram o alerta de Pan e transformaram-se em peixes, saltando para o oceano para se protegerem. Para não se perderem nas profundezas ataram-se com uma corda. A iconografia da constelação dos Peixes representa assim a fuga da deusa do amor, beleza e sexualidade, e do seu filho, perante a ameaça de Tifão.

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[A constelação dos Peixes, com os limites definidos pela União Astronómica Internacional (IAU). Crédito: IAU e Sky&Telescope.]

A estrela α da constelação, Al-Rischa, marca um nó na corda. O seu nome tem origem na palavra árabe para “corda”. Al-Rischa é uma estrela dupla muito atraente com duas componentes parecidas, estrelas de tipo espectral A, 31 e 12 vezes vezes mais luminosas do que o Sol. As estrelas giram em torno de um centro de gravidade comum com uma periodicidade ainda mal estabelecida — algumas fontes indicam cerca de 720 anos, outras mais de 900 anos.

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[Desenho de observação telescópica de Al-Rischa, a estrela Alfa da constelação dos Peixes, também conhecida Struve 202, num catálogo de estrelas duplas.]

Um estudo sugere que cada uma das estrelas do sistema é uma binária espectroscópica, i.e., um par de estrelas tão próximo que não consegue ser separado por um telescópio, mas cujas componentes podem ser detectadas pela análise do espectro do sistema. Se se confirmar, Al-Rischa é um sistema quádruplo.

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[Um sistema binário constituído por duas estrelas — A e B —demasiado próximas para poderem ser separadas por um telescópio. A análise da luz do sistema permite detectar as linhas espectrais de A e B, separadamente. As linhas (riscas negras verticais no arco-íris) movem-se ligeiramente para o azul (vermelho), consoante a componente respectiva se aproxima (afasta) da Terra no seu movimento orbital. Crédito: Wikipedia.]

A constelação tem outros atractivos mais subtis, e.g., um grande número de galáxias, apesar de serem na maioria débeis e só visíveis num local com pouca poluição luminosa e com um telescópio de abertura generosa. De facto, entre Peixes e Perseu, existe uma enorme cadeia de galáxias que forma o chamado Super Enxame de Perseu-Peixes. A uma distância de 250 milhões de anos-luz esta estrutura ocupa cerca de 40 graus no céu de Outono!

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[O Super Enxame Local, ao qual pertence a nossa galáxia, a Via Láctea, recentemente “baptizado” de Laniakea (a negro). O Super Enxame de Perseu-Peixes é outra destas estruturas enormes, com milhares de galáxias, contígua ao Super Enxame Local. Cada linha na figura representa a trajectória projectada de uma galáxia. Crédito: Nature.]

O único objecto no catálogo de Charles Messier na constelação é Messier 74, uma galáxia espiral descoberta por Pierre Méchain em 1780. É uma galáxia belíssima, situada a cerca de 31 milhões de anos-luz, e facilmente localizada próximo da estrela η da constelação. A galáxia tem um brilho superficial muito baixo, pelo que é difícil de observar em locais com poluição luminosa. Messier 74 tem sido particularmente generosa no que diz respeito a supernovas, tendo produzido 3 neste século: SN 2002ap, SN 2003gd e SN 2013ej.

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[A galáxia Messier 74 com os seus belíssimos braços espirais. A seta indica a última supernova descoberta na galáxia — SN 2013ej — em Julho de 2013. Crédito: Bill Snyder.]

Um outro objecto curioso na constelação dos Peixes, visível em pequenos telescópios, é a Estrela de Van Maanen. Descoberta em 1917 pelo astrónomo americano de origem Holandesa, Adriaan van Maanen, trata-se de uma anã branca isolada a 14 anos-luz, uma das mais próximas do Sol. Este tipo de estrela é o núcleo, formado essencialmente por átomos de carbono e oxigénio, exposto no final da vida de uma estrela semelhante ao Sol ou um pouco mais maciça. As anãs brancas são estáveis porque os átomos se encontram compactados tanto quanto é permitido pelas leis da mecânica quântica e em equilíbrio com a gravidade da estrela. A densidade resultante é enorme — cerca de 1 tonelada por centímetro cúbico! As anãs brancas têm no máximo 1.4 vezes a massa do Sol e um raio semelhante ao da Terra. Na realidade, o raio varia ligeiramente com a massa, sendo as anãs menos maciças um pouco maiores e vice-versa. Por exemplo, a estrela de van Maanen, com apenas 70% da massa do Sol tem um diâmetro 21% maior do que o da Terra.

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[Comparação de tamanho entre uma anã branca como a estrela de van Maanen e a Terra. Quanto menor (maior) a massa da anã branca, menor (maior) a compressão gravitacional e por isso maior (menor) o seu raio. Crédito: BBC.]

A constelação dos Peixes faz parte de uma família de constelações particularmente interessantes, todas com iconografia e mitologia associadas à água, que são visíveis toda a noite durante o Outono e Inverno — a estação das chuvas no hemisfério norte. Esta família inclui: o Capricórnio, o Aquário, o Golfinho, os Peixes, o Peixe Austral, a Baleia, o Erídano (um rio), a Hidra (uma serpente aquática), a Taça e o Corvo.

Acerca do autor(a)

Luís Lopes

Luís Lopes é professor no departamento de Ciência de Computadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Astrónomo amador há mais de 25 anos, interessa-se pela ciência em geral e pela sua divulgação. Acompanha com especial atenção os desenvolvimentos nas áreas de exoplanetas e da evolução estelar. Gosta de estar com a família, de ler um bom livro, de plantar e ver crescer árvores e de passar noites a observar o céu. Também escreve para o AstroPT de vez em quando ;-)

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