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Nov 27

Asteróides Potencialmente Perigosos. Poderá a Pseudociência ajudar a Ciência a garantir a nossa sobrevivência?

Curiosa e paradoxalmente, a Ciência e a Pseudociência partilham de um mesmo objetivo. Ambas pretendem alarmar a nossa civilização para as consequências castastróficas ou mesmo apocalípticas de uma possível colisão com um “Objecto Próximo da Terra” (OPT). Os riscos são conhecidos: ao longo da história da Terra, dezenas de eventos de extinção em massa foram responsáveis pelo desaparecimento de cerca de 98% de todas as espécies alguma vez descritas (1), os meteoritos foram quase sempre causa direta ou indireta (2).

 

Consequentemente, a Ciência desenvolveu programas de identificação e monotorização de OPTs, como são os casos dos europeus Near Earth Objects – Dynamic Site (NEODyS-2) e o Near Earth Object Program (NEOP) da NASA. Todos os OPTs que tenham pelo menos 110 metros de diâmetro e que passem a uma distância inferior a 7.5 milhões de quilómetros da Terra, são considerados Asteróides Potencialmente Perigosos (APP). A sensibilização das populações é crucial para aumentar o investimento em programas e tecnologias que possam prevenir novos eventos de extinção em massa no futuro.

A Pseudociência, como sabemos, não opera através do método científico mas sim através de fantasias infundadas e inobserváveis, incorrendo no sensionalismo alarmista e demagógico, tipicamente preferindo tópicos como o fim do mundo ou visitas de OVNIs/UFOs. É comum a Pseudociência aproveitar-se da Ciência para veicular os seus disparates, pegando em fenómenos reais observados pela Ciência, utilizando termos científicos mas sem nexo ou lógica entre si (vulgo, banha de cobra) para enganar a população leiga. Infelizmente, uma das bandeiras mais visíveis deste tipo disparates, são canais documentais vistos por milhões de pessoas como o Canal História, por exemplo.

Pois é, uma das mais recentes tolices do Canal História tem a ver com o asteróide 2004 UR116. O artigo começa com o desproporcional título “Russos lançam alerta: identificado asteroide que pode destruir a Europa“ e resume, em três curtos parágrafos, como este “novo” asteróide é potente, podendo causar uma explosão 600 vezes superior a Hiroshima, com a capacidade para destruir a Europa parcial ou completamente (caso este caia em cima de uma central/usina nuclear…). O artigo do História refere o site rt.com como fonte. Mas quando damos uma vista de olhos no artigo da RT intitulado como “1,000 times stronger than Chelyabinsk meteorite: New asteroid may threaten Earth” (reparem no título não tão alarmista) reparamos no quão exagerado é o artigo do História.

 

Mas o que nos diz a Ciência sobre o 2004 UR116? Consultando o NEOP e o NEODyS-2, vemos que o 2004 UR116 existe mesmo. Com pelo menos 300 metros de diâmetro, o 2014 UR116 completa uma órbita a cada 2.8 anos, passando a cerca de 4.3 milhões de quilómetros da Terra. Como tal, é classificado como um APP “Apollo” (juntamente com 62% de todos os asteróides conhecidos). Podem consultar aqui o diagrama da sua órbita.

O que os artigos apontados se esqueceram de referir, é que existem atualmente 1517 APPs, o 2004 UR116 é apenas um desses. Esqueceram-se também de referir que existem 979 APPs que passarão mais próximo da Terra que o 2014 UR116, dos quais 410 são maiores que o 2014 UR116. Talvez fosse justo o História redigir também um artigo para cada um desses 410 asteróides…

É ainda importante mencionar que  os programas NEOP e NEODyS-2, mantêm listas de monotorização com os objetos com maior risco de impacto nos próximos 100 anos. Em nenhuma destas listas o 2014 UR116 está presente. Convém referir que o famoso Apophis está incluído nesta lista com uma probabilidade de 99.9994% de falhar a Terra em 2068. Já o 410777 (2009 FD) é considerado um dos, ou talvez o APP mais preocupante, e tem uma probabilidade de 99.71% de falhar a Terra no ano 2185. Isto não quer dizer que 2014UR116 não venha a fazer parte destas listas para ser monotorizado, já que estes números são constantemente atualizados dado as possíveis alterações de órbita a que todos os asteróides estão sujeitos por influência de outros corpos celestes, ou por modificação da própria massa dos asteróides.

Mas a questão permanece. Poderá a Pseudociência auxiliar a Ciência na sensibilização das populações para este tópico? Ainda que os princípios e modus operandi da Pseudociência sejam perigosos e indesejáveis para uma sociedade desenvolvida, deveremos nós reprimir notícias como esta do Canal História?

 

Agora convido os leitores a consultar um conjunto de diagramas comparativos com objectivo de melhor perceber as dimensões e porporções reais da relação entre a Terra e os asteróides 2004 UR116, Apophis, 410777 (2009 FD) e o impactor de Chicxulub (originador da “extinção” dos dinossauros).

Comecemos por utilizar objetos de uma realidade mais mundana e familiar (legendadas a vermelho), fazendo-os corresponder aos objetos celestes que nos interessam (legendados a verde). As proporções são reais e constantes.

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O impactor que originou a extinção dos dinossauros está para a Lua, como um ovo de pulga está para a brazuca.

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O impactor de Chicxulub está para o nosso 2014 UR116, como um ovo de pulga está para uma célula humana (pequena).

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A distância mais curta a que o perigoso 410777 (2009 FD) passará em relação à Terra. Ainda assim, infimamente pequeno comparado à Terra.

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Distâncias a que o famoso Apophis e o perigoso 410777 (2009FD) passarão da Terra. Bem dentro da órbita da Lua em torno da Terra.

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Distância minima calculada a que o nosso 2014 UR116 passará da Terra. Sensivelmente 10 vezes mais distante que a órbita da Lua.

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Em palavras, o asteróide 2014 UR 116 passará pela Terra, como uma célula humana passará por uma bola pilates a quase 300 metros de distância…

 

 

Outros links de interesse:

Defendendo a Terra contra Asteróides. Painel de discussão com Neil Degrasse Tyson.

Pequeno Meteoro entra e explode na atmosfera terrestre 

Acerca do autor(a)

Vasco Fachada

Micólogo amador e entusiasta da Cosmologia, Astrofísica e Astrobiologia. Vasco Fachada é astrónomo amador e astrofotógrafo (fotografia e vídeo).
Licenciado em Ciências do Desporto. Mestre em Biologia da Actividade Física.
Doutorando em Fisiologia na Universidade de Jyväskylä, Finlândia, pesquisando no campo do Metabolismo Lipídico no Músculo Esquelético.
Grande interesse e objectivos na Fisiologia Espacial.

4 comentários

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  1. Jaculina

    Mesmo que viesse em direcção à Terra, as energias do reiki tratavam de o desviar.

    Ou então atirava-se-lhe uma bomba homeopática quântica.

    1. Carlos Oliveira

      LOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL 😀

  2. Pedro Lucas

    Não entendi completamente….. O 2014 UR 116 Baterá na terra neste século…… Se for bater qual será a data da colisão… Ou passagem??.

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