Natal a 25 com estrela

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Neste post vou assumir uma posição crítica em relação àquilo que se comemora nesta altura, e a alguns dos dados referidos na estória.
Não percebo aqueles que tentam explicar as crenças cristãs sob uma perspectiva supostamente científica, como por exemplo tentar encontrar conjunções ou supernovas para a “estrela de Belém”. Na minha opinião, é um exercício fútil. Basta perceber de história para entender esses temas.
Neste post vou-me concentrar em somente 2 aspectos, que de certa forma estão relacionados com a astronomia:

1 – o mérito da Igreja em adoptar o dia 25 de Dezembro como o dia de nascimento de Cristo. 25 de Dezembro era o dia da festa pagã de adoração do “deus-Sol”, já que erradamente se assumia que era o dia do Solstício de Inverno.

2 – naqueles tempos, era uma prática comum escrever que existia uma brilhante estrela no céu a anunciar o nascimento de pessoas importantes (ex: reis). Daí que a existência da Estrela de Belém foi um artifício literário, um símbolo, incorporado na história para incutir maior importância ao nascimento de Jesus.

São 2 temas de Natal com ligações à astronomia, sob um enquadramento histórico que não deve ser ignorado.

Sobre o dia 25 de Dezembro:
No outro dia estava a ver um documentário/filme em que era entrevistado um padre em pleno Vaticano, e em que ele próprio gozava/explicava/sentia-se frustrado com as crenças das pessoas que lá iam rezar. Dizia ele que era uma estupidez as pessoas continuarem a pensar que Cristo nasceu a 25 de Dezembro.
Toda a gente sabe (ou devia saber) que não se sabe o dia de nascimento de Cristo, e isto é já assumindo que ele é uma figura histórica real, mas que o dia 25 de Dezembro foi simplesmente assumido à posteriori.
Só no século IV, as igrejas ocidentais passaram a adoptar o dia 25 de Dezembro para o Natal.
O que se passava era que as festas pagãs comemoravam o Solstício de Inverno por estas alturas de Dezembro (no calendário romano este solstício acontecia erradamente no dia 25. Os Celtas pensavam o mesmo). Assim, a Igreja Cristã, e muito bem, decidiu aproveitar o já existente clima de festa para “sorrateiramente” incluir a festa de Cristo, num brilhante esquema de marketing que confundia a festa pagã de adoração da luz do “deus Sol” com a festa Cristã “daquele que dá a luz”.

Da Wikipedia:
Inteligentemente, a Igreja, em vez de proibir as festividades pagãs, forneceu-lhes um novo significado, e uma linguagem cristã.
As evidências confirmam que, num esforço de converter pagãos, os líderes religiosos adoptaram a festa que era celebrada pelos romanos, o “nascimento do deus sol invencível” (Natalis Invistis Solis), e tentaram fazê-la parecer “cristã”. Para certas correntes místicas como o Gnosticismo, a data é perfeitamente adequada para simbolizar o Natal, por considerarem que o Sol é a morada do Cristo Cósmico. Segundo esse princípio, em tese, o Natal do hemisfério sul deveria ser celebrado em Junho.

Mas não só os Cristãos tiveram esta brilhante ideia. Várias outras religiões antes deles fizeram exatamente o mesmo. Os Cristãos somente copiaram essa famosa estratégia.
Hórus: deus Egípcio (mais de 1000 anos anterior a Cristo) que significa o Sol, a Luz, o Salvador, o Cordeiro de Deus, o Bom Pastor, o que vem do Céu, a Verdade, e o Bem. Fazia parte de uma Trindade egípcia. Nasceu a 25 de Dezembro da virgem Isis-Mari. Teve uma estrela no Este a marcar o seu nascimento. 3 Reis prestaram-lhe honras no nascimento. Foi baptizado aos 30 anos de idade. Teve 12 alunos, com os quais viajava e fazia milagres (tal como curar pessoas e andar sobre a água). Foi traído por Typhon, e depois crucificado. Foi enterrado e ressuscitou ao 3º dia.
Claro que a história de Hórus tem muitas diferenças para a história de Cristo, além de que as fontes não são totalmente fidedignas (não se sabe onde acabam umas e começam outras), mas a ideia aqui é somente dizer que a data de 25 de Dezembro não foi propriamente criativa/original…
Mithra: o deus Persa Mithra, que também foi adorado na Índia, e até em Roma até ao século III, era chamado o Sol da Virtude e Sol Vencedor, e representava o bem e a luz. Os Romanos comemoravam o seu nascimento (“o Nascimento do Invicto”) na madrugada de 24 de Dezembro para 25 de Dezembro, sendo que o seu dia era a 25 de Dezembro. Além de também ter nascido de uma virgem, de ter 12 discípulos, de ter ressuscitado, etc.
Krishna: deus Hindú que, entre outras coisas, nasceu no Solstício de Inverno mais de 3000 anos antes de Cristo, e também teve uma estrela a marcar o seu nascimento.

Muitos outros “deuses” tinham as mesmas ou características similares, tal como nascerem no ou perto (25) do Solstício de Inverno, ou terem uma estrela a anunciar a sua chegada ao mundo (muitos reis também partilhavam esta história no seu nascimento).

Várias outras histórias de semelhanças entre uns e outros estão contidas no filme Zeitgeist. O problema deste filme (podem ver a parte religiosa, legendada em português, aqui) é que as suas fontes são difíceis de encontrar.
No entanto, no que concerne aos dois pontos deste post (dia e estrela), não há dúvidas que realmente elas são somente estórias incluídas à posteriori, tal como tinha sido feito no passado para outras personagens.


Sobre a Estrela de Belém:
Há quem se ponha a fazer contas e a imaginar que pode ter sido um cometa, meteoros, uma nova, uma supernova, planeta Vénus ou Júpiter, uma conjunção planetária, uma ocultação planetária, uma conjunção estelar, uma estrela variável como Mira, etc.
Mas é uma perda de tempo tentar encontrar uma explicação para algo que não existe.

Dos 4 Evangelhos do Novo Testamento só um, o Evangelho de São Mateus, faz referência a essa “estrela”. O Evangelho de São Marcos, considerado o mais antigo, e logo teoricamente mais credível, nem sequer faz referência à história do nascimento. O Evangelho de São João diz que Jesus é da Galileia e não de Belém. Os 4 Evangelhos referem-se a Jesus de Nazaré, e não a Jesus de Belém (naquele tempo, e já vinha de há milhares de anos, os nomes próprios normalmente vinham seguidos do local de nascimento).
Ou seja, os próprios Evangelhos da Bíblia mostram que a história de Belém e a estrela que supostamente se via, não passa disso, de uma estória.

Naqueles tempos, o nascimento de reis e pessoas importantes tinham sempre uma estrela (anjos) a anunciar a sua chegada ao mundo.
Logo, é natural que esta história tenha sido incluída para incutir importância a Jesus.
O mesmo era feito periodicamente para o nascimento de pessoas que se considerava serem importantes.
Mas eram só estórias, sem qualquer “estrela especial” no céu.

O mesmo aconteceu com outros “deuses”, anteriores a Cristo, como aqueles que eram crença no Egipto, ÍÍndia, etc. Também era dito nas suas estórias que tinham uma estrela no Este a marcar o seu nascimento.

Na prática, há já muito tempo que os Chineses e outros povos tinham um conhecimento excelente do céu, descrevendo tudo o que lá acontecia. A civilização chinesa, por exemplo, foi a primeira a registar uma Supernova; e também deixou anotações precisas de cometas, meteoros e meteoritos desde 700 A.C. No entanto, nem os Chineses nem outros quaisquer povos viram essa “estrela” que só S. Mateus viu.

Aliás, pelo que me é dado a perceber, muitos teólogos (que estudam precisamente as questões religiosas) pensam que não há uma referência a uma estrela literal, mas sim uma simbologia que relata o nascimento de uma pessoa importante.

Por fim, aconselho a leitura deste excelente artigo da Teresa Direitinho no Portal do Astrónomo:
Introdução.
Estrela de Belém.
Data de Nascimento e Reis Magos.
Possíveis Explicações Astronómicas para a Estrela.
Mais Possíveis Explicações Astronómicas para a Estrela.

Realço estas frases:
“Como se pode comprovar no Evangelho de Mateus, a referência é breve e nenhum dos outros evangelistas faz qualquer alusão à estrela ou aos Magos do Oriente. Nos anos que se seguiram à morte de Jesus Cristo, a estrela aparece apenas mencionada num escasso número de textos. Um deles é o evangelho apócrifo de Tiago, que faz parte de um grupo de textos não incluídos nas Sagradas Escrituras por não terem sido considerados, pela igreja, como de “inspiração divina”.”
“Não deixa, por isso, de ser curioso analisar como uma passagem tão pequena dos evangelhos pode chegar a ter tanta influência e a tornar-se mesmo numa das crenças mais enraizadas da nossa cultura.”
“Não me parece nada estranho que se possa sugerir que, numa altura em que o império romano e a sua cultura pagã dominavam e qualquer nascimento ou morte de rei era acompanhado por um “fenómeno” que o pressagiava, Mateus tivesse querido estender o alcance da história de Jesus Cristo, como o enviado de Deus, o mais possível e por isso tivesse referido esta imagem, que pode ser apenas simbólica.”
“A Estrela de Belém pode ter sido apenas uma imagem simbólica que o autor do Evangelho segundo Mateus utilizou para exaltar o carácter sagrado do nascimento de Jesus Cristo, de acordo com a mensagem messiânica das antigas escrituras.”
“A conclusão a que se pode chegar, compatibilizando as escrituras de Mateus e Lucas, é que Jesus Cristo terá nascido durante a Primavera e entre os anos 7 e 5 A.C.”

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O objectivo deste post não é colocar em causa aquilo que Jesus representa, mas sim dar uma noção histórica do acontecimento.

É indesmentível que a figura de Jesus teve um papel fundamental nos últimos 2000 anos na civilização ocidental.
Mas não só se deve saber separar o simbolismo daquilo que é verdadeiramente histórico, como também se deve saber contextualizar os factos e perceber que esta crença faz parte de somente uma pequena parte das culturas terrestres (é uma crença limitada no espaço), e existe há somente 2000 anos num planeta com 4,6 mil milhões de anos (é uma crença bastante limitada no tempo).

Crenças não se questionam…
Mas Conhecimento é Poder.

11 comentários

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  1. Caro Carlos, tentei durante várias semanas encontrar fontes sobre os mitos de que falam no documentário referido mas estas são mesmo difíceis de encontrar.
    Em relação às referências astronômicas, depois de as verificar, parece-me credíveis e em 40 anos de vida esta é a melhor interpretação da bíblia que já encontrei.
    A verdade é que os evangelhos foram escritos apenas 40 anos depois da suposta existência do mesmo.
    Nunca tinha colocado a existência de jesus em causa mas agora acho mesmo que foi apenas uma personificação do “deus” Sol.

    40 anos parece pouco tempo, mas sem imagens e vídeo como seria contar a ida do homem à lua?

    1. “40 anos parece pouco tempo, mas sem imagens e vídeo como seria contar a ida do homem à lua?”

      Certamente com muita fantasia incluída 😉
      Aliás, basta ler o que se dizia e escreveu sobre o cometa Elenin, que estava no céu em 2011, para se perceber que se inclui muita fantasia – em real time – em eventos que até são verdadeiros 😉

      Mas esse exemplo tem um outro aspecto interessante: é que mesmo com imagens e vídeo, há gente que diz que não acredita 😛

  2. isto sobre o natal…

    no entanto, e devido a este tema, andei em conversas e leituras e dei com a seguinte citação:

    “Richard Dawkins argues that it is possible to mount a serious, though not widely supported, historical case that Jesus never lived at all, although he believes Jesus probably existed”

    Se por um lado remete para a não-existência de Jesus, historicamente sequer (uma vez que as fontes são todas tiradas dos evangelhos e não há provas físicas contundentes…)… por outro lado acho graça ao facto de Richard Dawkins, um dos maiores ateus assumidos e mediáticos, dizer algo (se é que disse assim) como “he believes Jesus probably existed”. He believes? Fé? Fé e Richard D. não combinam! 😀 E crê em Jesus histórico, apesar de começarem a existir muitas dúvidas em certos estudiosos e historiadores, que consideram que só os evangelhos, por si, escritos depois da sua morte e aparentemente só se conhecendo um historiador maisoumenos contemporaneo de jesus (Josefo)?…

    Mistério. Tudo em torno deste personagem é um mistério e uma sucessão de “quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”.

    Portanto, ao contrário do que disse anteriormente, agora pergunto: Jesus existiu? Historicamente falando?… (e argumentar que “existem muitas provas e consenso” não chega 😀 que provas? evangelhos… quase só e apenas…)

    Deixo o pensamento 😛

    E, como repto pessoal, eu tendo a achar que a figura histórica existiu. No entanto, à luz de novos dados, acho que só posso afirmar o mesmo que Dawkins… 😀

    • Ana Guerreiro Pereira on 15/03/2011 at 21:18
    • Responder

    No entanto considero que todos os mitos têm um fundo qq de verdade e começaram de alguma forma. É possível, em alguns casos, reconstruir o percurso que terá levado a determinado mito, e retirar alguns factos dessas histórias. Claro está que tal exercício só poderá ser feito por alguém com conhecimentos profundos da área em questão e um espírito crítico aguçadíssimo.

    Muito do que se sabe hoje relativamente a determinadas civilizações antigas também se baseia na análise (com todos os perigos que daí advêm) da mitologia desses povos.

    Por exemplo, existem inúmeras teorias qto à travessia do Mar Vermelho por Moisés e qto às pragas do Egipto. Várias delas bastante lógicas até. Algumas apontam para a existência de um fenómeno geológico concomitante que até corrobora o que poderá ter acontecido e que poderá atestar que realmente aconteceu.

    A existência de Jesus, comprovada, também foi retirada de análises de evangelhos e afins.

    Não podemos descartar logo essa fonte de informação, embora seja necessário um cuidado redobrado e um conhecimento profundo para se poder analisá-las.

    Digo eu… 😛

    • Ana Guerreiro Pereira on 15/03/2011 at 21:05
    • Responder

    crenças não se questionam? ah, questionam sim… e muito. 🙂

    por exemplo, em certos países há a crença de que a mulher é um ser inferior. Noutros, que violar uma criança virgem é a cura para a SIDA. Outros crêem tanto na homeopatia que já se terão deixado morrer ao cortar com tratamentos convencionais. Hitler cria que o povo judeu era inferior e deveria ser exterminado. And so on.

    As Crenças têm de ser questionadas. Mesmo.

    • Ana Guerreiro Pereira on 15/03/2011 at 21:01
    • Responder

    Nunca esteve em causa se Jesus existiu ou não…

    • Ana Guerreiro Pereira on 15/03/2011 at 20:59
    • Responder

    Gosto mais da visão do Chris de Burgh em A spaceman came travelling 😀

  3. Oo conteúdo retirado do filme zeitgeist (parte religiosa) não tem nenhum respaldo histórico, não se tratam sequer de referências fidedignas, tratam-se de não existirem referências. Se este blog se orgulha do poder que há no conhecimento (que há!), eu desafio a que ele realmente seja buscado.

    Jesus nasceu em Belém na Judeia (conforme as profecias – Miqueias 5:2) mas viveu a sua infância e juventude em Nazaré na Galileia. No evangelho de Lucas está escrito (Lucas 2) que César Augusto decretou um censo e cada pessoa tinha de se ir alistar na cidade onde tinha nascido, daí que José Natural de Belém foi com Maria grávida à sua cidade Natal. Acontece que Maria deu à Luz em Belém, no entanto este casal vivia em Nazaré e foi aí que Jesus cresceu.

    Quanto à data concordo que foi uma forma que Igreja teve de associar as festividades pagãs com as cristãs, o mesmo se sucede com a Páscoa.

    Já a estrela ela é descrita no evangelho de Mateus e quanto a mim é uma matéria de fé, acreditar se realmente existiu uma estrela ou não, Mateus escreveu e esse mesmo senhor morreu como Mártir pelo que professava, quanto a mim isso é base sólida para se crer.

    No entanto a argumentação que os outros evangelhos não contêm essa informação não é sólido, visto que cada evangelho contém detalhes que os outros não têm. De dizer ainda que é necessário ver o público alvo dos evangelhos, no caso do evangelho de Mateus ele foi escrito para os Judeus, e o messias teria de nascer em Belém conforme as profecias que os judeus acreditavam, daí que o nascimento é relatado. Marcos escreve para não judeus focando-se no ministério de Jesus Cristo.

    Já agora, o Cristianismo a ser entendido não começa com o nascimento físico de Jesus, ele agrega toda a história Judaica, e para quem crê, o próprio Cristo é o criador da humanidade e sempre se relacionou com ela.

    Considerem isto não como um proselitismo, mas como um contributo para o conhecimento.
    Um abraço

  4. Concordo totalmente. Até mesmo com as últimas frases.

    Quem tem conhecimento tem poder. Poder até mesmo para indução de novas crenças.

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