A incrível Palmeira Andante que produz bananas

Na maior parte das vezes as pessoas pura e simplesmente não lêem; é triste mas é verdade: (estejam à vontade para saltarem para o último parágrafo caso não tenham tempo para ler este texto.)

Não me estou a referir à literacia funcional, que até é bastante elevada na América. Todos, ou quase todos, conseguem ler horários de transportes, ementas ou as mensagens de correio electrónico do dia-a-dia. Mas, quando se trata de trabalhos académicos ou da análise de notícias, a maioria das pessoas que não são das profissões académicas ou escolásticas não investem assim tanto tempo a ler os conteúdos não ficcionais.

Simplesmente é algo que não fazem, e isso não constitui qualquer surpresa. A TV e os podcasts (public on-demand broadcast) proporcionam uma comunicação caracterizada pela facilidade de acesso, e que é passiva, unívoca, e que, no fundo, bem vistas as coisas, exige pouca atenção e pouco empenho cognitivo por parte das suas audiências.

Como autor, tenho notado, ao longo dos anos, que porquanto algumas pessoas empregam o tempo necessário para lerem e analisarem o que estão a ler, resulta que essas constituem apenas uma minoria. Muitas pessoas ou não estão de facto a ler o que dizem que leram, ou interpretaram de forma muito deficiente a sua leitura. Tenho dois exemplos, recentes, que me chamaram a atenção, e até de forma acutilante, para esse facto.

Há cerca de 1 mês, escrevi um pequeno edital para o sítio Life’s Little Mysteries a propósito duma planta que me garantem conseguir andar pelo seu próprio pé. (Escrevi há uns anos uma peça algo diferente sobre o mesmo tópico para a minha coluna editorial “Skeptical Inquiree” na revista Skeptical Inquirer.)
Coloco aqui a hiperligação seguida dum excerto da mesma.
“Muita gente acredita que a chamada, por designação popular, palmeira andante (Socratea exorrhiza) que se encontra na América Latina (por exemplo na Costa Rica, nota do astroPT) consegue literalmente caminhar ao longo do solo da floresta… Mas, acontece que isso não é verdade; a árvore existe, mas não caminha – nem sequer se arrasta. Pousa onde germinou, não se movendo excepto com a força do vento (ou dum machado)…”. Depois citei o Biólogo Gerardo Avalos e o seu artigo sobre este tema, onde ele dizia “O meu artigo científico prova que a crença da palmeira andante é apenas um mito.”

Ao longo da peça jornalística, declarei de forma explícita, pelo menos 4 vezes, que a história era falsa, citando um artigo científico revisto pelos pares e ainda um cientista:
1) “[a história] é falsa…”
2) “não anda…”
3) “está no local onde germinou, não se movimentando…”
4) Especialista: “a palmeira andante é um mito.”

Após, presumivelmente, terem lido esta curta peça cuja tese não podia ser mais clara, o que foi que responderem os leitores nas caixas de comentários?

A primeira pessoa a responder, Veenaga Bhushan, escreveu, “A árvore caminhante desloca-se da sombra para o sol. A sobrevivência é a natureza mais individual dos seres vivos.” Outra pessoa, Violette Rose Patrick, escreveu, “gostaria de ver um vídeo com um time-lapse disto.” Finalmente outra pessoa, Miriah Williams, respondeu com um “mas vocês leram?? Elas não se movem.”

Então o que foi que sucedeu? Uma possibilidade é que as duas primeiras comentadoras não leram de facto a peça, mas olharam antes para o título e/ou para a foto ilustradora, e assumiram que sabiam o relato da história. Outra possibilidade é que leram a peça mas não perceberam o que lá estava escrito, e dalguma forma concluíram que a história da árvore andante era verídica, apesar das claras e repetidas declarações em contrário. Uma outra possibilidade é que leram e entenderam a peça, mas discordavam desta (apesar de não haver provas para esta possibilidade, dado que não refutaram qualquer facto descrito no seu conteúdo).

Noutro exemplo, escrevi sobre uma estranha criatura que veio dar à costa numa praia e que foi posteriormente identificada como um opossum.

Claro que vieram logo alguns “leitores” acrescentar o seu conto ao conto, um deles até escrevendo no Facebook que “eles *assumiram* que é um Opossum, mas nunca disseram claramente que era um.” Respondi com desportivismo: “Leu o que lá está escrito? Diz: ‘Darren Naish, uma escritora de Ciências da Universidade de Southampton, perita em Paleozoologia, e que escreve para a revista Scientific American, identificou-a como um Opossum da Virgínia.’ A identificação do Opossum é óbvia.”

Como pode alguém dizer que os peritos apenas assumiram (mas que nunca o disseram claramente) que o animal fora identificado como um Opossum quando o artigo declara explicita e repetidamente que fora identificado?

Torna-se é antes nítido que as pessoas não estão a ler o que está à sua frente. Na qualidade de cépticos deparamo-nos com isto a toda a hora; os que advogam o paranormal ignoram detalhes importantes (que por vezes resolvem os mistérios) nos relatos e nas histórias de fenómenos misteriosos.

Caso se ignore, não se leia, ou não se entenda informação importante nas alegações, então é fácil criar-se um mistério. Se ler um relato sobre um fantasma feito por uma pessoa mas não notar que ela disse que isso aconteceu enquanto esta estava deitada na cama a dormir, ou se ler um relato dum OVNI mas falhar a parte onde a testemunha diz que se parecia com um planeta e que estava na mesma área do céu onde estava Vénus – então não vai conseguir resolver o mistério.

Encontrei também este tipo de coisas no início deste ano, no meu blogue, em resposta à Riley, uma rapariga de 4 anos de idade que se queixava acerca das bonecas num vídeo viral. Tal como notara no meu blogue CFI, também tenho a minha quota-parte de responsabilidades dalgumas más interpretações dos leitores, dado que alguns pontos que discorri estavam pouco claros e mal escritos. Noutros casos, no entanto, o problema não foi que eu tenha sido pouco claro, pois de facto até estava a obter uma escrita cristalina. Foi que as pessoas não leram cuidadosamente o que eu escrevera (baseando-se antes em caracterizações doutras pessoas, ou apenas a irem directamente e a responderem aos comentários e às respostas doutras pessoas), concluindo, em muitos casos, que eu discordava do seu ponto de vista, quando de facto até estávamos em pleno acordo.

Poderia dar muitos mais exemplos, mas estes constituem uma amostra representativa. Como escritor profissional, é para mim surpreendente a frequência com que as pessoas simplesmente não lêem, ou, se lêem, não entendem o que leram. Como qualquer professor vos pode dizer, simplesmente ler as palavras não significa que se esteja a compreender o seu significado ou a entender o que nelas está a ser transmitido. A interpretação requer esforço e capacidade, e, sem embargo da clareza ou da pujança empregue na escrita, o leitor tem que perfazer a sua parte e esforçar-se por entendê-la.

É fácil, no ritmo que tomou o mundo actual, lermos apenas superficialmente a informação disponível.

Somos inundados com blogues, noticiários, mensagens das redes sociais, correio electrónico, tweets, e inúmeras outras peças de informação ao longo do dia. Gostamos da nossa informação simples, clara, curta e repleta de sound-bites. Olhamos de relance para “as letras gordas” e assumimos que conhecemos o relato da história, o seu conteúdo. Decidimos e reagimos em fracções de segundo em função duma determinada informação ser-nos relevante ou do nosso interesse. Por vezes carregamos no “Like” em publicações nos murais do Facebook apenas escassos segundos após a sua publicação, quando é óbvio que não tivemos ainda hipótese, de facto, de ler mais do que o seu título ou do que uma linha introdutória; não estamos a apoiar o que de facto diz a publicação mas o que assumimos o que esta diz. E, até certo ponto, todos o fazemos, e todos o fazemos, pelo menos a tempo parcial, quer o saibamos (ou admitamos) ou não.

Não que isso seja errado ou confine falta de ética. Mas é pervertivo, e explica em parte porque tanta gente pura e simplesmente não lê as coisas. Quando somos confrontados com um artigo ou com um blogue com 3 mil palavras (ou mesmo até com um muito mais curto, o meu artigo sobre a árvore caminhante tem 400 palavras) é muito mais fácil saltar para os comentários e responder aos outros do que tomar tempo a ler cuidadosamente o que o autor escreveu.

Isto não é novidade; tenho a certeza que todos já nos deparámos com a experiência sociológica (provavelmente no Liceu ou na Universidade) em que o examinador nos entrega um exame com várias páginas e diz com toda a clareza para os estudantes lerem todas as instruções até ao fim antes de encetarem as respostas. Depois, é claro, a última instrução é para pousarem o lápis e não iniciarem qualquer resposta até isso lhes ser indicado. E, é claro, 90% das pessoas não se dão ao trabalho de ler as instruções claras e explícitas, pensando que elas é que sabem e iniciando desde logo as respostas.

Quais são as consequências disto? Tempo perdido, esforço perdido, e ainda guerras de alecrim e de manjerona alimentadas num conjunto de pessoas dentre as quais é provável que mais de metade nem sequer tenha de facto lido ou entendido o que estão a comentar.

Claro que alguns de nós lemos as coisas com cuidado, e, apesar de nos esforçarmos o melhor que nos é possível, até os mais diligentes por vezes atalham, seja tanto na qualidade de leitores como na de autores. Por vezes há uma incompreensão honesta, ou as palavras não são transmitidas com clareza. Mas na maior parte das vezes a única explicação plausível é que as pessoas simplesmente não estão a ler e não sabem, literalmente, do que estão a falar. A propósito, obrigado por terem lido este texto – se é que chegaram até aqui, e, se for esse o caso, então, pois bananas, essa palavra, deverão colocar nos comentários.

Este texto é da autoria de Benjamin Radford. Tradução geral da minha responsabilidade.

Para lerem mais em profundidade sobre a Internet e a leitura dos livros sugerimos este excelente artigo do Público com o título “Como a rápida Internet está a conquistar o cérebro aos vagarosos livros”.

39 comentários

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  1. Bem, eu farto-me também de criticar por aqui certos comentários, que se vê que as pessoas nem se deram ao trabalho de ler os artigos.
    Exemplos que me vêm à cabeça imediatamente:
    http://www.astropt.org/2008/08/22/2012/
    http://www.astropt.org/2011/05/13/halo-em-fatima/
    http://www.astropt.org/2010/08/30/fosseis-de-humanos-gigantes/
    Muitos mais posts existem por aqui, com alguns comentários “surreais”. Daí que compreendo bem o que o Radford diz…

    mas enfim… olha… bananas.

    • Manel Rosa Martins on 04/05/2012 at 12:37
    • Responder

    Esta artigo (s) do Benjamin Radford explica muito bem as disfunções da comunicação na actual sociedade da informação. A sua leitura não deixa de ser divertida, os exemplos muito bem escolhidos, tanto o da palmeira que NÃO caminha, como o do marsupial ou o das bananas.

    Agradeço ao Marco Filipe todas as suas indicações.

    1. De nada, foi mais fácil do que descascar bananas 😛

  2. Se eu fosse comentar esse texto apenas por ler o título já ia me armar em botânico e falar que existe um grande engano! Palmeiras não dão bananas, mas é normal as pessoas confundirem bananeiras com coqueiros e palmeiras. Essas duas ultimas são “parentes”, da mesma Família, Palmaceae (talvez já tenha mudado de nome). A bananeira é uma Musaceae (lindo esse nome) e apenas compartilha a mesma Classe, se não me engano, com as Palmaceae. E daria algum crédito para acharem que as palmeiras andam, pois é fácil confundirem essas com a bananeira, e essas “andam”! Como assim? Calma, não andam literalmente, mas como o caule é subterrâneo e a banana (cultivável pelo menos) não tem sementes (graças a Darwin, seria horrível se tivessem) elas se reproduzem assexuadamente a partir de brotos do caule. Brotam-se clones ao lado da bananeira “original”. Então é como se ela andasse mesmo. Pronto, uma bela conclusão só de olhar o título, sem ler nada.

    Mas como o texto não é sobre isso. Ainda há uma coisa que vejo acontecer muito, principalmente em tópicos de opiniões muito divergentes. É o de ler já sabendo o que vai responder! E provavelmente contra o que está escrito. Vê-se isso muito nas questões do Criacionismo X Evolucionismo. Já vi um tópico aqui no Astro-PT (acho que sobre Panspermia) onde um cidadão joga a discussão para um lado que nada tinha a ver com o texto. Ou seja, ele não leu! Mas já sabia/queria dar uma resposta. Ler é antes de tudo se abrir, se propor a viajar com o texto, mesmo que o interprete de uma maneira diferente da proposta pelo autor. Se você não faz isso está fazendo uma leitura burra e deveria voltar para o ensino básico. E experimentar boa literatura, como romances e poesia, faz bem para abrir a mente para a leitura.

    E por acaso, nesse momento estou comendo minha Musa paradisiaca!

    1. Pois, Guilherme.

      Por aqui temos centenas de artigos com esse problema, em que há comentadores que nem sequer se dignam a ler os artigos.
      O Guilherme referiu-se bem, a este:
      http://www.astropt.org/2012/04/19/panspermia-do-avesso-2
      Mas há mais 😉
      Ainda agora vi mais outro:
      http://www.astropt.org/2012/02/11/o-misterio-do-triangulo-das-bermudas/
      (veja o comentário do “toupeira”)

      Como estes, infelizmente, existem centenas deles aqui pelo blog, de comentadores que demonstram não ter a literacia funcional para ler os artigos e comentar sobre eles.

      E as centenas de exemplos que existem aqui pelo blog, são sem contar os comentários somente a insultar os autores porque o artigo vai contra a convicção deles. Esses nem aprovo. Esses seriam aos milhares.
      Ainda agora apaguei mais um no artigo sobre a suposta Profecia Maia, em que o comentador só escreveu insultos contra mim (não sobre aquilo que escrevi) porque o artigo diz-lhe a verdade e ele não quer saber do artigo para nada. Só quer insultar directamente quem lhe dá conhecimento que é contra aquilo em que ele acredita.
      http://www.astropt.org/2008/08/22/2012/
      Mas lá está. Comentários só com insultos pessoais nem aprovo. Seriam milhares de trolls.

        • Pedro Tomás on 24/08/2013 at 00:00

        Se calhar esse leitor fica feliz por sofrer de dissonância cognitiva, não? 🙂
        Sugiro que escrevam um artigo sobre o tema um dia, caso não tenham escrito já.

        • Pedro Tomás on 24/08/2013 at 00:05

        Ah… e já agora… bananas! 🙂

      1. Yep. Já escrevemos 🙂

        Este para a brincadeira:
        http://www.astropt.org/2013/04/10/dissonancia-cognitiva/

        E aqui a sério:
        http://www.astropt.org/2011/08/20/o-dia-em-que-o-mundo-nao-acabou/

        😀

        • Pedro Tomás on 24/08/2013 at 00:24

        Não conhecia esse exemplo relatado no artigo a sério. Mas conheci pessoalmente uma realidade muito semelhante. mais um artigo muito bom. parabéns!

      2. Obrigado, em nome do AstroPT e da autora do artigo 🙂

    2. Ainda por cima as bananas e o criacionismo têm muito em comum 😛
      http://www.youtube.com/watch?v=Y4yBvvGi_2A

  3. Não sei o que me confundiu mais: Se a hipótese de a palmeira andar, se a possibilidade de uma palmeira produzir bananas.

    Estive a ver imagens da dita árvore e de facto ela tem umas raízes que se elevam a partir do solo, até uma altura que pode chegar aos 2 metros, começando aí o tronco. Essas raízes, que podem levar uma mente mais fantasiosa a imaginar um grupo de pernas, poderá ter contribuído para o mito.

  4. Que a palmeira não ande nem corra, parece evidente.
    Mas as trífides andavam bem depressinha (não sei se existem outras plantas andantes).

    1. Jaculina, leia a última frase do texto traduzido 😉 eheheheh 😉

        • Jaculina on 05/05/2012 at 11:22

        Em primeiro lugar quero dizer que não sou apreciadora de bananas.

        Não sei se é da vida agitada que temos hoje ou da ominpresença dos artefactos electrónicos mas sinto muitas vezes que estou apenas a ler “na diagonal”. Por vezes chego ao fim de uma página e