Trânsito de Vénus: A Ciência, a História e o Belo

Imagem tirada pela sonda Hinode da NASA. Crédito: JAXA/NASA/Lockheed Martin

Imagem tirada pela sonda Hinode da NASA. Crédito: JAXA/NASA/Lockheed Martin

Em pouco mais que 6 horas, aconteceu o Trânsito de Vénus do dia 5 de Junho de 2012, fenómeno que só voltará a se repetir no longínquo ano de 2117. Para o teste da história, ficam testemunhos fotográficos e de vídeo, capturados por todo o mundo, que nos lembrarão a beleza momentânea do passeio de Vénus em frente ao disco solar.

Ainda mal tinha Vénus escondido uma ínfima porção do Sol e já tínhamos os olhos do mundo pousados sobre este fenómeno condenado a ser raro. Muitas ligações caíram, muitos “sites” pararam e muitas transmissões gelaram, à custa de uma geração que, não podendo ver o evento ao vivo, tinha aqui a última oportunidade de participar, de alguma forma, neste acontecimento astronómico.

Composição do Solar Dynamics Observatory

Composição do Solar Dynamics Observatory

O anterior trânsito de Vénus fora no  dia 8 de Junho de 2004, numa altura em que a democratização da Internet ainda “gatinhava”. Mesmo assim, vários registos foram divulgados e partilhados, aumentando a vontade de experimentar o deste ano. Hoje, com a facilidade de acesso à Internet, com a tecnologia de captura de imagens e de vídeo a baixo preço, poucos eram aqueles que não estavam dispostos a imortalizar e a partilhar o fenómeno.

Mais do que oferecer a possibilidade de ver em directo o trânsito de Vénus do outro lado do mundo, sem a necessidade de participar em aventuras fatais, a era tecnológica em que vivemos permitiu guardar uma quantidade exorbitante de registos que ficam agora vulneráveis ao teste da história. Curioso será “ver” como a geração de 2117 olhará para os registos deste trânsito. Espero que com a mesma curiosidade, sensação de exotismos e de respeito com que nós, nos dias que antecederam o trânsito, olhamos para os poucos registos que nos restaram dos trânsitos vistos pela humanidade, em 1639, 1761, 1769, 1874 e 1882.

Nos próximos meses, talvez anos, ainda estaremos a falar deste trânsito para além da beleza das imagens capturadas. Isto porque não se tratou apenas de um fenómeno de pura curiosidade: muita ciência foi feita durante este trânsito. A verdade é que o Trânsito de Vénus, para além do deleite óptico da projecção da sua sombra no disco solar, constitui-se essencialmente como um fenómeno de interesse científico, trazendo, ao invés, muita luz a muitas das nossas questões. Para além dos cálculos executados pelos astrónomos amadores, espalhados em cada pedacinho de terra, também as principais agências espaciais apontaram os seus telescópios em direcção ao Sol.

Cliquem sobre as próximas imagens, para as verem de forma ampliada:

Se historicamente o trânsito de Vénus já fora essencial para as primeiras medições exactas do nosso sistema solar, o grande interesse deste trânsito passou por servir de ferramenta de teste para o desenvolvimento de métodos na detecção e caracterização de exoplanetas. Ao estudar de perto este trânsito de Vénus, utilizando a sonda Venus Express, foi possível testar as técnicas de detecção de exoplanetas com o planeta que mais perto está da Terra. O telescópio Hubble também procurou estudar, através da espectroscopia, de que forma se poderá confirmar a constituição da atmosfera de um planeta durante o seu trânsito. Mas, curiosamente, o Hubble não olhou directamente para o Sol, visto que tal direcção lhe queimaria os componentes. Como solução utilizou a Lua como espelho.

Fica ainda o trabalho da Solar Dynamics Observatory (SDO) da NASA que, para além de cientificamente relevante, produziu resultados visuais estonteantes. Através da sua sonda, a equipa da SDO olhou para o trânsito através de uma variedade de bandas do espectro. Foi possível, através desta operação, calibrar os instrumentos da sonda, garantindo que esta está a “olhar” para o norte verdadeiro e confirmar a função de espalhamento de um ponto. Foi possível ainda conhecer mais sobre a atmosfera do planeta. Ficamos a aguardar os resultados.
Para nós, curiosos, fica a beleza enorme das imagens conseguidas por esta sonda. (veja aqui todas as imagens do SDO) São inúmeras e de impacto visual inqualificável.

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Para todos estes que não viram o fenómeno, para todos aqueles que se distraíram, para todos aqueles que um dia quiserem recordar este fenómeno, deixamos aqui alguns dos testemunhos: uns de vídeo, outros de imagem. Mas, em cada um destes registos, uma geração inteira que quis participar em algo único que em 2117 será lembrado, com distância, como o “último trânsito de Vénus”.

“Close-up”  do primeiro e do segundo contacto do trânsito de Vénus de 2012, visto pelo HMI:

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Trânsito de Vénus visto na banda de 1700 angstroms (Ultra-violetas longos), ficando visível a fotosfera na sua temperatura mínima:

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Hidrogénio visível. Na frequência de 304 angstroms, na banda do ultravioleta extremo:

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Em 131 angstroms, na banda do ultravioleta extremo, utilizada para estudar as ejecções coronais:

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Em 171 angstroms:

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E a edição de vídeo que nos foi presenteada pelo astroPT:

 

7 comentários

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  1. Espetacular a forma como este ano pudemos seguir este fenómeno!!
    Em 2004 passou-me algo despercebida a importância do evento, embora tenha tido a oportunidade de o ver por breves minutos num observatório astronómico.
    Este ano, acompanhei-o durante algum tempo em directo no site da NASA, desde casa (!), com imagens impressionantes, como as que aqui partilhas!

    Viva a tecnologia!
    Viva a Ciência!

    • Manel Rosa Martins on 09/06/2012 at 00:24
    • Responder

    Pedro, uma lição a tirar é que também a tecnologia que hoje nos dá acesso pelos telescópios espaciais também causou fatalidades no espaço, basta ver os objectivos da missão do desastre trágico da Challenger.

    Que seja um grande homenagem aos que pereceram. Tanto na Expedição de Cook como nesse Vai-vém espacial:

    Objetivos da missão

    Os objetivos planejados para esta missão eram: o lançamento de um satélite, o Tracking Data Relay Satellite-2 (TDRS-2); o transporte de material instrumental para voos espaciais dos ônibus espaciais para astronomia (SPARTA-109), relacionado com experimentos com o Cometa Halley, tais como observação da cauda e do corpo do referido cometa, além do ‘Programa para Monitoramento Ativo do Cometa Halley’ (CHAMP); experimento com dinâmica de fluidos (FDE); experimento para partição de fases (PPE); três experiências do ‘Programa para Inserção de Estudantes’ (SSIP); e duas aulas para o ‘Projeto Professor no Espaço’ (Teacher in Space).

    1. Obrigado pelas palavras Manel Rosa Martins. Agradecer é pouco, realmente. 🙂

      A sua questão é pertinente. Não a considerei porque procurei mais espelhar de que forma este trânsito pode marcar uma geração. A sua raridade a isso o obrigava.

      Fica a sugestão ao Manel Rosa Martins de elaborar um artigo com a devida homenagem a todos os que morreram pela ciência e pela garantia de acesso de todos a essa 😉

      Abraço,
      Pedro Garcia

    • Manel Rosa Martins on 09/06/2012 at 00:11
    • Responder

    Excelente post Pedro, desde as aventuras fatais de James Cook 🙂 como hoje até o trânsito de Vénus já é irrelevante para a medição das distancias dos astros do Sistema Solar.

    Mas como é também muito relevante para a divulgação da Astronomia, para a Fisica Solar (hélio Física) e para toda a Ciência no seu conjunto.

    Obrigado pela ligação, mas olha lá, também não terá havido uma aventura ou outra de amor fatal na ilha de Taiti? 🙂

    Parabéns pelo post, estou a reler e a reler, é apaixonante.

  2. Muito Obrigada!

  3. Ótimo artigo, Garcia. 😉

    Abraços.

    1. Agradecer é pouco 😉

  1. […] no Sol. Dois Sóis. Halo Solar em Fátima. Trânsito de Vénus: informações. Explicação. Ciência, História e Belo. Ciência e Beleza. Horrocks. Cook. Vídeo. Tretas. Trânsito de […]

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