A Graviola, as Bananas e a Multiplicação das Tretas

Uma das características mais salientes da nossa cultura é a abundância de treta. Todos sabemos disto. Cada um de nós contribui com o seu quinhão. Mas temos a tendência para aceitar a situação como um dado adquirido. A maior parte de nós confia na sua aptidão para reconhecer a treta e evitar ser levado pela cantiga. Daí que o fenómeno não tenha despertado até agora muita preocupação […]

 […] Quando um homem honesto fala, diz apenas o que acredita ser verdade; da mesma forma, para o mentiroso é indispensável conceber o que diz como falso. Para o treteiro, todavia, nada disto importa: não está nem do lado do verdadeiro nem do lado do falso. Não encara sequer os factos, ao contrário do que fazem o homem honesto e o mentiroso, a não ser no caso de serem pertinentes para levarem a sua avante. Não quer saber se as coisas que diz descrevem a  realidade de forma correcta. Apenas as usa, ou as inventa, para satisfazer o seu propósito. […]

[…] A treta é inevitável sempre que as circunstâncias permitam que alguém fale sem saber do que está a falar. Assim, a produção de treta é estimulada sempre que as obrigações ou as oportunidades de alguém falar sobre um determinado assunto excedem o seu conhecimento dos factos relevantes para esse assunto. Esta discrepância é comum na “vida pública”, na qual as pessoas são frequentemente impelidas – quer pelas suas próprias inclinações, quer pelas exigências alheias – a falar extensamente sobre matérias das quais são, em variados graus, ignorantes.

Harry G. Frankfurt (Filósofo), Ensaio Da Treta (On Bullshit)

Se o Einstein disse algo então é porque não só foi mesmo ele que disse, como também só pode ser absolutamente verdade, certo?

Um dia normal na Internet.

No meu texto anterior sobre as supostas propriedades milagrosas da Graviola, eu comecei por avisar os leitores do potencial perigo de aceitar como verdadeiras as desinformações da Internet só porque soam intuitivamente bem. A nossa intuição pode falhar espantosamente em muitas situações porque é uma forma muito rápida e simplista de avaliar questões. Durante muito tempo soou intuitivamente bem dizer que o Sol revolvia em torno da Terra, basta sair à rua e olhar para o céu para o testemunhar e, no entanto, hoje sabemos que é precisamente o contrário que acontece. Existe uma enorme abundância de tretas (ou baboseiras) na Internet que são propagadas não apenas por mentirosos e vigaristas, mas também por participantes inadvertidos. Sem ferramentas mentais que permitam distinguir entre a verdade e a treta ou, sem o cuidado de as empregar em todas as situações, arriscamo-nos frequentemente não só a tomar más decisões para a nossa vida, como também, a fazer parte de mais uma longa corrente de treteiros que não se importaram com a verdade ou, pelo menos, não tanto quanto deveriam.

Quem aplica o cepticismo e o pensamento crítico está normalmente mais atento a possíveis sinais de alerta e, por consequência, menos vulnerável a ser enganado por mentirosos e treteiros. A regra geral é que tudo o que parece ser bom demais para ser verdade normalmente é. Mas ninguém é perfeito… Nem sempre os sinais de alerta estão presentes, podemos não ter os conhecimentos suficientes para avaliar a veracidade de uma afirmação, ou, podemos estar sentimentalmente apegados à mesma, analisando-a com menos rigor. Todos nós podemos ser enganados (uns mais do que outros) e acabar por contribuir inadvertidamente para a propagação de uma treta. Ser treteiro não é assim uma característica definitiva de uma pessoa, mas qualquer pessoa pode ser treteira sempre que, por qualquer motivo, não se importar com o valor verdade de determinada afirmação. A verdadeira questão será então, quantos de nós temos a capacidade para admitir o problema? Talvez não tantos quanto seria desejável.

A juntar aos erros clássicos de percepção e raciocínio que a mente humana pode cometer, a forma como a própria informação é acedida na Internet pode também dar origem a outros fenómenos que contribuem para a propagação de tretas. Recentemente, vários investigadores têm defendido a hipótese de que a Internet está a mudar drasticamente o nosso cérebro e, por consequência, a forma como absorvemos e analisamos a informação. Estamos a ficar cada vez mais superficiais, saltitando de estímulo em estímulo sem conseguir manter a atenção por muito tempo. Quantas pessoas fazem Gosto e partilham uma informação no Facebook sem sequer a ler com atenção? É assim que se propagam as tretas na era da des(informação).

Este é um fenómeno que os cépticos já tinham reparado há algum tempo, uma vez que pelos comentários é bastante fácil perceber que muitas pessoas nem sequer lêem o texto, ou lêem na diagonal, saltando de imediato para a caixa de comentários para dar a sua opinião sobre o assunto, a favor ou contra, dependendo dos preconceitos e intuições de cada uma. Já aqui tínhamos falado da experiência de Benjamin Radford, um investigador científico do paranormal, sobre este mesmo problema. Mas nós próprios também temos vários casos de comentários assim no astroPT. É possível alguém escrever um texto a explicar por que razão uma teoria do fim do mundo é um disparate e, ainda assim, receber comentários de pessoas que, de alguma forma, ao lerem o texto pensaram que o mundo ia realmente acabar.

Os “superficiais” da era da Internet podem não ter reparado, mas o meu texto anterior sobre a cura milagrosa da Graviola, tinha um pequeno teste criado para averiguar quantas pessoas tinham realmente lido o texto com atenção.

TesteO “teste das bananas” foi inicialmente utilizado por John Timmer da Ars Technica num artigo que noticiava um estudo sobre a utilização de armas nos Estados Unidos da América, um tema altamente controverso que, tal como ele previa, iria levar a que as pessoas saltassem de imediato para a caixa de comentários para exporem a usa opinião, a favor ou contra, sem sequer lerem o artigo. E assim foi, somente após mais de cem comentários é que alguém mencionou a palavra “bananas”.

Dos treze comentadores no post sobre a Graviola, apenas três não referiram as bananas, o que achei surpreendentemente bom. Eu estava à espera de pelo menos alguns comentários a tentarem iluminar-me sobre os poderes milagrosos das curas naturais e/ou a acusarem-me de ser um lacaio da indústria farmacêutica (infelizmente sem o proveito financeiro). Talvez eu tenha sido extremamente claro na minha explicação, ou talvez este grupo de pessoas simplesmente tenha por hábito ler as coisas com atenção e não pertençam, pelo menos ainda, ao grupo dos “superficiais”. No Facebook, onde bastantes pessoas nos seguem, o cenário já foi substancialmente pior…

Não é possível determinar quem leu o texto se a pessoa não fez qualquer comentário junto da sua partilha, nem o que pensaram as pessoas que fizeram partilhas secundárias a partir de outras, ou ainda, aqueles cujas definições de privacidade não permitem que se aceda a essa informação. Ainda assim, analisando os vários comentários e partilhas directas a partir da página do astroPT (quase quinhentas) é possível constatar que muitas pessoas não leram, ou pior, “leram” apenas aquilo que queriam ler. Não estou sequer a falar se referiram a palavra “bananas” no Facebook, não estava à espera de que o fizessem a não ser no próprio post, mas por acaso houve três pessoas que deram-se ao trabalho de ir ou voltar ao Facebook para escrever esse comentário (obrigado!). Estou antes a falar de pessoas que por não lerem as coisas com atenção, pensaram que o astroPT estaria a promover a cura milagrosa da Graviola e, tanto “crentes” como cépticos, revelaram que não leram o texto antes de formar uma opinião sobre o mesmo.

Exemplo curtoA publicação no Facebook não tinha qualquer elemento que indicasse o apoio do astroPT à cura milagrosa da Graviola, tinha uma pergunta «Este e-mail anda a ser distribuído pela internet. Mas será verdade?», seguido de uma cópia do e-mail em corrente e de um link para o artigo do blog onde se recomendava «Leiam toda a verdade, aqui”». Como pode alguém que interprete correctamente um texto chegar à conclusão de que o astroPT estava a defender que a Graviola cura o cancro? Seria de pensar que é difícil e, no entanto, aqui estão mais alguns exemplos.

Exemplo longo

Não pretendo com isto humilhar qualquer pessoa, daí as imagens de perfil e sobrenomes terem sido apagados. Como disse anteriormente, todos nós podemos ser enganados, até os cépticos. E é bom ter, de vez em quando, algo que nos volte a relembrar dessa característica incontornável da condição humana. Temos como exemplo recente uma citação inventada que foi amplamente partilhada na Internet apenas por ser atribuída a Neil deGrasse Tyson, não existiam sinais de alerta óbvios, era algo que este cientista poderia muito bem ter dito e, contudo, era completamente falsa. Este exemplo pode parecer uma brincadeira inocente, mas ensina-nos a preciosa lição de que as mentiras e tretas às vezes estão presentes onde menos esperamos. Temos outros exemplos recentes: as falsas histórias sobre os atentados de Boston, algumas propagadas pelos meios de comunicação social sedentos de novas informações; o tweet falso que causou uma queda abrupta na bolsa de valores de Dow Jones; ou até o sexagenário que convenceu um grupo de mulheres de que era o cantor Mickael Carreira.

Algumas tretas podem não ter qualquer importância, mas outras podem ser de facto muito perigosas. Tretas como as curas milagrosas para o cancro estão sem dúvida incluídas no último grupo, pois afastam as pessoas do tratamento adequado em troca de promessas sedutoras mas vazias. De cada vez que alguém repassa um e-mail de uma cura milagrosa, sem ler com atenção ou sem se importar em investigar a veracidade, não está a ajudar absolutamente ninguém, pelo contrário, está a colocar a vida de uma pessoa algures no mundo em risco.

Nem a graviola, nem as bananas, nem o sumo de limão com bicarbonato de sódio são a cura milagrosa para o cancro, quem afirmar o contrário é um mentiroso com algum interesse financeiro ou um treteiro que não se preocupou em saber a verdade.

Tenham cuidado com as tretas porque elas “andem” aí.

9 comentários

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  1. Adorei todo o texto!

    Mas a citação inicial… está fantástica!!!
    Não sei como a foste “desencantar”, mas foi muito bem conseguida! 😉

    E que excelente convite que fazes à auto-reflexão!!!! 😉

    1. Eu tomei conhecimento dela no livro Ciência da Treta do Ben Goldacre, depois comprei o ensaio para ler (está indicado no link), é um livro pequenino, dá para ler numa hora.

    • D. Barbosa on 27/04/2013 at 04:02
    • Responder

    Será que se pode dizer que os leitores do blog estavam mais atentos que os seguidores do FB?

    1. Certamente.

      Até porque muita gente que comenta no FB nem sequer se dá ao trabalho de ler o texto no blog 😉

    • Susana Duarte on 27/04/2013 at 04:12
    • Responder

    Este tema já foi fonte de reflexão no meu blog há uns anos, com uma abordagem bem mais leve, no entanto a ideia é a mesma.
    Fico profundamente desconcertada com a facilidade com que a maioria das pessoas aceita informação publicada online automaticamente como verdadeira. Sejam curas/propriedades milagrosas, sejam pedidos de medula/sangue, sejam denuncias de esquemas de empresas/entidades, sejam cães para adoptar, sejam crianças desaparecidas… Acho que toda esta desinformação teve por efeito deixar-me “extra” céptica, nunca partilhando, e muitas vezes dando-me ao trabalho de fazer alguma pesquisa para denunciar a fraude e chamar a atenção de quem a perpetua. Penso que a diferença de resultados do teste “bananas” é um claro indicador dos diferentes tipos de publico-alvo 😉

  2. Sim, dá para ver uma diferença clara. Por exemplo, quando o plugin do blog publica o link para um novo post no Facebook, existem muito menos partilhas e “gostos” do que quando o Carlos reproduz parte do texto e uma imagem no Facebook. Isto pode ser interpretado como um sinal de que a maioria nem quer sair do Facebook para ler o texto completo no blog. Os que vêm cá normalmente é porque gostam realmente de ler ou chegaram ao blog sem ser pelo Facebook.
    Quando o Carlos partilha parte do texto e uma imagem no Facebook é não só uma maneira de chamar a atenção do público no meio de todos os outros estímulos presentes no feed de notícias, mas também, uma forma de que os “superficiais” fiquem pelo menos com uma ideia geral do que é o texto (apesar de às vezes errada como vimos) e então gostam e partilham mais. A questão é que é impossível ter a certeza se perceberam ou não o que queríamos dizer, acho que a única forma seria deixar de escrever e fechar o blog 😛

  3. Eu achei a citação de Harry G. Frankfurt interessante e por isso coloquei no post. Um mentiroso tem primeiro de saber a verdade para conseguir construir a sua mentira, o treteiro não se importa com a verdade, importa-se antes em sentir-se especial ou inteligente por exemplo (vemos isso com frequência nos adeptos das teorias da conspiração). Um médium que ande a enganar as pessoas com técnicas de leitura a frio é um mentiroso/vigarista, pois ele tem de saber a verdade e escolher mentir. Quem vê uma luz no céu sem saber o que é e assume de imediato que era uma nave extraterrestre está a ser um treteiro, não quer saber da verdade, acaba de inventar uma treta e provavelmente até acreditar nela, pois quer sentir-se especial ou quer impressionar os amigos. Essa luz pode na verdade ser muitas coisas para além de uma nave extraterrestre.

    Quando se diz “A treta é inevitável sempre que as circunstâncias permitam que alguém fale sem saber do que está a falar” não se está a dizer que apenas um astrónomo credenciado ia poder falar sobre a luz estranha no céu e que todos nós teríamos de nos calar. Mas sim, o astrónomo estaria entre as pessoas que seriam mais indicadas para o fazer, simplesmente porque tem mais conhecimento, não porque todos os especialistas de uma área sejam infalíveis, isso seria uma falácia chamada “argumento da autoridade”. É mais no sentido de formar opiniões sobre tudo e mais alguma coisa com poucas ou nenhumas evidências para suportar essas opiniões, quando a posição mais honesta seria em muitos casos dizer “eu não sei”. No fundo a única diferença entre a mentira e a treta, segundo a definição de Frankfurt, é a preocupação com o valor da verdade. A um nível mais pragmático o impacto de uma mentira ou de uma treta é o mesmo, e em linguagem corrente mentira e treta são utilizados como sinónimos, até frequentemente por mim.

  4. Só agora comecei a perceber que de certa forma pertenço a esse grupo de pessoas (hoje por acaso li tudo). Por definição, quando comento, comento depois de ler o artigo, mas comecei a aperceber-me que até são raras as vezes que me dou ao trabalho de ler completamente.

    O tal artigo sobre a Graviola mal me chamou a atenção, pelo que nem li. Tenho pena de estar a perder essa paciência. Obrigado por divulgar.

    Quanto a aceitar qualquer informação da Internet, penso que (apesar de não poder ter a certeza, pode ser que esteja nesse grupo dos crentes e nem repare) tenho um comportamento mais crítico, mas não posso ter a certeza.

    PS.: Sem querer divulgou um apelido, que se encontrava numa resposta a um comentário a um tal Paulinho. (Penúltimo comentário desta última imagem). Se calhar é melhor apagar.

    1. Obrigado pelo reparo Filipe, a Internet também já me está a afectar 😉
      Abraço

  1. […] seguimento deste excelente artigo, deixem-me colocar este vídeo sobre um dos grandes problemas da era da internet: as pessoas […]

  2. […] A Graviola, as Bananas e a Multiplicação das Tretas – AstroPT […]

  3. […] Com a chegada do Facebook a disseminação destas mensagens tornou-se ainda mais fácil, basta clicar em “partilhar” após a fracção de segundo de atenção a que cada post tem direito. Aliás, a nossa atenção no mundo dos estímulos constantes da Internet é tão reduzida, que é possível formar uma interpretação completamente errada até mesmo a partir de informações correctas. Eu próprio cheguei a fazer a experiência com os leitores de um texto da minha autoria. […]

  4. […] Com a chegada do Facebook a disseminação destas mensagens tornou-se ainda mais fácil, basta clicar em “partilhar” após a fracção de segundo de atenção a que cada post tem direito. Aliás, a nossa atenção no mundo dos estímulos constantes da Internet é tão reduzida, que é possível formar uma interpretação completamente errada até mesmo a partir de informações correctas. Eu próprio cheguei a fazer a experiência com os leitores de um texto da minha autoria. […]

  5. […] 93 – Medicina. Origem e Evolução dos Vírus. Graviola (cancro, comentários). […]

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