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Nov 19

A Noite em que o Mundo Quase Acabou

Maria, a minha avó materna, foi uma das pessoas que mais me marcou. Nas longas conversas que tive com ela, em especial quando já tinha idade para apreciar a sua experiência de vida, perguntei-lhe várias vezes sobre eventos astronómicos que poderia ter visto. Uma das recordações que mais a tinham marcado, disse-me, aconteceu quando tinha entre 10 e 15 anos e participava numa desfolhada, ao cair da noite. Contou-me que, à medida que a noite caía, as estrelas começaram todas a mover-se no céu. A assistência entrou em pânico, com gritos que anunciavam o fim do mundo; alguns começaram a rezar de forma compulsiva enquanto outros fugiram para casa.

Leonids-1833
[A espectacular chuva de meteoros das Leónidas em Novembro de 1833, numa gravura de Adolf Vollmy. Fonte: Wikipedia.]

Pela descrição do evento, não é difícil perceber que o que as pessoas presenciaram durante aquela desfolhada foi uma chuva de meteoros — ou “estrelas cadentes” como são popularmente conhecidos — particularmente intensa. É um evento raro, mas existem vários exemplos documentados.

nomenclature
[A diferença entre cometas, asteróides, meteoróides, meteoros e meteoritos.]

Os meteoros são produzidos por pequenas partículas de poeira espacial, a maioria mais pequenas que grãos de areia, que colidem com a Terra e ficam incandescentes devido à fricção com a atmosfera. A temperatura atinge valores tão elevados que os vários elementos químicos que compõem a partícula emitem luz em comprimentos de onda característicos, deixando um rasto luminoso. Normalmente são visíveis apenas por breves segundos podendo, no caso de partículas maiores, ser bastante brilhantes.

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[Grãos de poeira interplanetária que dão origem a meteoros quando atravessam a atmosfera terrestre. Estes são mais pequenos do que grãos de areia e são consumidos rapidamente pela fricção atmosférica. Corpos maiores, do tamanho de grãos de areia, pequenas pedras ou, muito raramente, pedregulhos, dão origem aos meteoros que observamos.]

Estas partículas existem no espaço e resultam principalmente de colisões entre asteróides. Estão na origem dos meteoros que vemos todas as noites, pelo menos em locais com pouca poluição luminosa. Por vezes, no entanto, os meteoros têm uma origem comum. Isto acontece quando a Terra, no seu movimento orbital, intersecta a órbita de um cometa ou asteróide que liberta esse material para o espaço. Devido à geometria orbital, a Terra atravessa esse ponto todos os anos no mesmo dia. Nessa data os meteoros ocorrem com maior intensidade — são as chamadas chuvas de meteoros — e, por um efeito de perspectiva, parecem ter origem num único ponto do firmamento, designado por radiante. Existem várias destas chuvas de meteoros, cujo nome reflecte a constelação onde se situa o radiante: Perseidas, Leónidas, Gemínidas, Oriónidas, etc..

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[A Terra intersecta a órbita do cometa de 1P/Halley em dois pontos, dando origem a duas chuvas de meteoros, as Eta Aquáridas, na Primavera, e as Oriónidas, no Outono. As Perseidas resultam da intersecção com a órbita de outro cometa periódico, o 109P/Swift-Tuttle. Crédito: Kenneth R. Lang, Tufts University.]

Mas voltando ao evento relatado pela minha avó, a restrição imposta pela sua idade apontava a chuva de meteoros das Leónidas, no final de Novembro, como uma explicação possível. As Leónidas têm picos de intensidade a cada 33 anos, coincidentes com a passagem periódica do cometa 55P/Temple-Tuttle. Em 1933, tinha a minha avó 13 anos, ocorreu um destes picos. No entanto, tanto quanto pude apurar, nesse ano as Leónidas não proporcionaram um espectáculo digno de nota. Para além disso, o facto desta chuva de meteoros ocorrer em finais de Novembro é inconsistente com ter sido presenciada durante uma desfolhada — que normalmente têm lugar em finais de Setembro ou durante Outubro.

Entretanto, anos passados, e por mero acaso, li um artigo que veio trazer sentido a este enredo. O artigo descrevia uma outra chuva de meteoros, as Dracónidas, associada a um outro cometa periódico, o 21P/Giacobini-Zinner. Este cometa pouco brilhante foi descoberto em Dezembro de 1900 pelo astrónomo francês Michel Giacobini e pouco depois desapareceu do “radar” dos astrónomos para treze anos depois ser re-descoberto pelo astrónomo alemão Ernst Zinner.

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[A órbita do cometa 21P/Giacobini-Zinner relativamente às dos planetas do Sistema Solar interior. Note-se a posição da Terra, intersectando a órbita do cometa, no dia 9 de Outubro. Fonte: JPL Small-Body Database Browser.]

Logo após a re-descoberta, uma análise da órbita permitiu verificar que intersectava a da Terra e que deveria produzir uma chuva de meteoros no início de Outubro com um radiante na constelação do Dragão. O astrónomo amador inglês William Denning detectou alguns meteoros na primeira metade de Outubro provenientes dessa região do céu e cálculos mais refinados fixaram a data provável do pico da chuva em 9 de Outubro. Em 1920, poucos meses depois do cometa ter passado pelo periélio, o mesmo Denning detectou 5 meteoros desta região entre os dias 6 e 9 de Outubro, estabelecendo definitivamente a existência das Dracónidas.

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[O radiante da chuva de meteoros das Dracónidas, na constelação do Dragão, ao anoitecer no dia 9 de Outubro. Imagem gerada com o software Stellarium.]

Em 1933, o cometa 21P/Giacobini-Zinner passou no periélio em 15 de Julho e a Terra atravessou a órbita do cometa no dia 9 de Outubro, apenas 80 dias após o cometa. O espectáculo foi tão grande quando inesperado. Na Europa, à medida que a noite caía, o número de meteoros visíveis era já anormal. O número aumentou rapidamente e às 20h UT (tempo universal) uma das chuvas de meteoros mais espectaculares do século XX abateu-se sobre o velho continente.

draconids_1933_Lucien Rudaux (1874 – 1947)
[Pintura representando a chuva de meteoros das Dracónidas em Outubro de 1933, da autoria do artista francês Lucien Rudaux.]

Dos vários cantos da Europa surgiram relatos que atestam a singularidade do evento. Na Irlanda, o astrónomo William Ellison reportou milhares de meteoros que caíam com a mesma frequência de flocos de neve, notando que a determinada altura observou 100 num intervalo de 5 segundos. Em Malta, R. Forbes-Bentley, um aviador inglês, observou 22500 meteoros em apenas algumas horas, com um pico estimado de 480 por minuto às 20:15 UT. A maioria dos meteoros era débil, com apenas 5% a atingirem magnitude +1. Na Rússia, Nadežda Sytinskaja fez observações entre as 18:00 e 22:00 e recolheu relatos de outros locais. No máximo houve 100, 300 e 200 meteoros por minuto em São Petersburgo, Pulkovo e Odessa, respectivamente. Mais perto, em Espanha, o astrónomo amador inglês Percy Ryves observou um máximo de 100 meteoros por minuto, a maioria com magnitudes entre +3 e +5. Destes e muitos outros relatos foi possível calcular que a chuva teve um máximo de 100 meteoros por minuto, ou cerca de 6 mil por hora, por volta das 20:15 UT, no dia 9 de Outubro.

A data do 9 de Outubro encaixa perfeitamente com a época esperada para as desfolhadas. Para além disso, a visibilidade excepcional desta chuva de meteoros na Europa, com o seu pico nas primeiras horas da noite, faz-me pensar com confiança que foi este o espectáculo testemunhado pela minha avó que tanta comoção provocou naquela noite de desfolhada.

(Fonte: A Surprise October Meteor Shower? Joe Rao, Sky&Telescope, Outubro 1998, 100–105)

Acerca do autor(a)

Luís Lopes

Luís Lopes é professor no departamento de Ciência de Computadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Astrónomo amador há mais de 25 anos, interessa-se pela ciência em geral e pela sua divulgação. Acompanha com especial atenção os desenvolvimentos nas áreas de exoplanetas e da evolução estelar. Gosta de estar com a família, de ler um bom livro, de plantar e ver crescer árvores e de passar noites a observar o céu. Também escreve para o AstroPT de vez em quando ;-)

1 comentário

  1. Duarte Seabra

    Prof. Luís Lopes,a minha avó,em Vila Flor, Trás-os Montes,também se lembrava desta -chuva de estrelas

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