[ET #10] – Estratégias de procura de inteligência ET

Allen Telescope Array, Crédito: SETI.org

A nossa galáxia contém cerca de 200 mil milhões de estrelas. Pela estatística produzida pelo telescópio espacial Kepler, podemos estimar que cada estrela conterá um planeta. É um número bastante significativo para ponto de partida de procura de vida ET.

A vida na Terra teve início há 3,4 mil milhões de anos com colónias de bactérias; se pensarmos que o nosso planeta tem 4,5 mil milhões de anos, então concluiremos que a vida começou muito cedo. Este facto não é suficiente para provar a existência de vida noutros planetas, mas sugere-nos fortemente que poderá ter facilidade em surgir. Os cientistas que procuram inteligência ET acreditam que a vida simples pode evoluir para complexa, tal como aconteceu connosco, e esta é a principal motivação do seu trabalho.

Civilizações ET não devem saber que estamos aqui e, por conseguinte, não devem apontar as suas antenas (ou outras tecnologias equivalentes) diretamente para nós. Esta afirmação baseia-se nos seguintes argumentos:

  • As nossas transmissões de TV tiveram início há cerca de 100 anos e ainda estão na nossa vizinhança, tendo atingido menos de 10 mil estrelas;
  • A iluminação das nossas cidades não é visível no espaço a grandes distâncias. Seria necessário uma antena do tamanho do sistema solar para distinguir concentrações de luz; e
  • O espetro do nosso planeta revela a presença de ozono, o biomarcador mais credível por ser resultante da atividade natural de seres vivos. Por si só, não fica demonstrada a existência de vida inteligente na Terra, uma vez que a produção de oxigénio pode ser resultante de bactérias ou do processo de fotossíntese, mas servirá para identificar o planeta como local de interesse para exploração.

Poderá uma civilização ET transmitir sinais em todas as direções? Pode parecer uma boa ideia colocar um transmissor perto do centro da galáxia, contudo, a produção de um sinal capaz de ser detetado por nós irá requerer 10^17 watts e ao preço da eletricidade, o custo seria superior a 10.000.000.000.000 € por hora. Improvável…

Ora, se os alienígenas não apontam as suas antenas na nossa direção porque não sabem que estamos aqui, nem transmitem em todas as direções do espaço por ser demasiado dispendioso, qual a estratégia de procura que poderemos adotar?

Podemos enumerar algumas ideias pensadas em restringir a procura a locais específicos:

  1. Se tivermos de escolher um local na Galáxia, a direção acertada poderá ser o centro galático. Para tal, teremos de manter uma antena constantemente a escutar o centro galático e talvez possamos detetar algum sinal enviado por uma civilização bastante avançada;
  2. Uma supernova irá posicionar telescópios da Galáxia na sua direção. Talvez alguma civilização ET aponte o seu radiotelescópio na mesma direção (e nos dois sentidos) e transmita um sinal para anunciar a sua presença. Deste modo, ao apontarmos para a supernova, seríamos surpreendidos por um sinal ET;
  3. Um binário de estrelas suficientemente separadas (> 30 UA) poderá albergar planetas. Se nesses dois sistemas solares existirem civilizações comunicantes entre si e se o seu plano orbital estiver alinhado com o nosso, então poderemos caracterizar este sistema pelo método do trânsito; sempre que ocorrer um trânsito em qualquer uma das estrelas e simultaneamente existirem comunicações rádio entre esses dois sistemas, estaremos localizados nesse alinhamento e seremos capazes de os detetar;
  4. Uma civilização ET poderá observar a Terra a transitar o Sol e aproveitar esse evento para transmitir sinais rádio. Se mantivermos uma antena permanentemente à escuta na direção oposta, podemos varrer a elítica (1 grau por dia) à procura de sinais;
  5. A Lua pode ser usada como uma esfera refletora. Devido à sua capacidade de refletir sinais de rádio provenientes de várias direções da Via Láctea, se apontarmos um radiotelescópio para a Lua, estaremos a alargar significativamente a área de procura (embora haja uma perda forte de sensibilidade a compensar); e
  6. O telescópio JWST (com lançamento previsto para 2018) terá capacidade para analisar a composição química das atmosferas de exoplanetas. Se detetar biomarcadores (oxigénio ou ozono), poderemos marcá-los como locais de interesse e observá-los regularmente ao longo do tempo.

O futuro trará novas ideias e melhorias tecnológicas que permitirão dotar as atividades SETI de mais entusiasmos. Algoritmos como o KLT, capazes de detetar sinais modulados de banda larga em ruído, envolvendo elevadíssimo poder computacional, poderão ser implementados. Eventualmente, dentro de 300 anos, a comunicação rádio poderá ter evoluído para outras técnicas que ainda não conseguimos imaginar. A margem de progressão é enorme e um dia acabaremos por detetar o sinal inteligente que tanto ansiamos.

“A probabilidade de sucesso é difícil de estimar mas se nunca procurarmos será zero.” Giuseppe Cocconi & Philip Morrison.

3 comentários

  1. Olá Ruben,

    Alguns pontos críticos 😉

    1 – A vida na Terra começou ainda mais cedo do que dizes. O que coloca ainda mais peso no teu argumento 😉
    Há evidências concretas de vida há 3,8 mil milhões de anos.
    Sendo que nos últimos anos encontrou-se possíveis evidências de vida há 4,1 mil milhões de anos.
    http://newsroom.ucla.edu/releases/life-on-earth-likely-started-at-least-4-1-billion-years-ago-much-earlier-than-scientists-had-thought

    2 – As transmissões de TV perdem poder ao longo do espaço… o que faz com que não cheguem sequer a 100 anos-luz.
    Logo, novamente, isto coloca mais peso no teu argumento, porque seria ainda mais difícil detectarem-nos 😉

    3 – O ozono pode ser considerado hostil para eles…

    4 – O centro galáctico é muito denso. Seria muito difícil detectar um sinal inteligente de lá… e distingui-lo de todo o ruído natural.

    5 – Porque assumes que planetas num sistema binário usariam rádio para comunicarem?
    Não deveriam estar mais avançados que nós?
    Daqui a 500 anos (até muito menos que isso), já não usaremos rádio…

    6 – Os biomarcadores funcionam só para a vida tal como a conhecemos atualmente.
    A Terra tem atualmente vida que não precisa de oxigénio.
    A primeira vida na Terra não precisava de oxigénio para nada, até porque ele não existia na atmosfera.
    Por outro lado, Marte tem oxigénio e, que se saiba, não é devido à vida. É de origem geológica.
    Se um ET detectar oxigénio aqui, vai provavelmente assumir que aqui não existe vida, já que o oxigénio é tóxico, inflamável, etc, etc, etc 😀 Nenhuma vida que se preze evoluiria num planeta com o elemento hostil oxigénio 😛

    abraços!

    1. Olá Carlos,
      O ponto-chave é esse mesmo: como fazer a procura. As variáveis são tantas ao ponto da sua dinâmica nos obrigar a fixar algumas, como é o caso da utilização do rádio (mesmo nível tecnológico) e do oxigénio (marcação como local de interesse).
      Atualmente, podemos estar a receber sinais ET emitidos por civilizações mais avançadas mas, por nos encontrarmos num nível tecnológico diferente, somos incapazes de os detetar.
      Quanto ao oxigénio, como dizes e bem é tóxico e inflamável, gosto de pensar que poderá ser uma das nossas defesas naturais contra alienígenas 🙂 .
      Abraço.

      1. “Quanto ao oxigénio, como dizes e bem é tóxico e inflamável, gosto de pensar que poderá ser uma das nossas defesas naturais contra alienígenas”

        LOLLLLLLLLLLL bem pensado!!!! 😀

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