Jun 30

O mistério da Lua em forma de U

Lua e Vénus sobre a Praia do Guincho, em Cascais, a 25 de Fevereiro de 2012.
Crédito: Sérgio Paulino.

Já não é a primeira vez que recebemos comentários sobre este estranho fenómeno na Lua. Aparentemente, a companheira da Terra tem aparecido nos céus a norte do equador a formar um U sobre a paisagem! Enfim… isto só pode parecer estranho a quem nunca olhou para a Lua.

Após uma pequena pesquisa no Google percebe-se que estas preocupações têm origem em mentiras compiladas em Março por vários blogs de qualidade duvidosa. Nesses textos afirma-se que esta suposta anomalia é uma prova de que “algo está diferente na órbita da Terra ou com a da Lua ou talvez com ambas”. Antes de me deter nesta patetice sem sentido, vou explicar primeiro como é possível observar um crescente lunar perfeitamente paralelo ao horizonte em locais tão longínquos do equador como Cuba ou o Rio de Janeiro.

Quem já olhou para a Lua mais que uma vez na vida apercebeu-se certamente de mudanças cíclicas na sua aparência. Conhecidas por fases lunares, estas mudanças não são mais que um truque de luz produzido pela gradual mudança do ângulo de incidência dos raios solares sobre a orbe lunar. O período compreendido entre duas Luas Novas consecutivas define um ciclo lunar completo (também denominado lunação), e tem como duração média cerca de 29,53 dias.


Simulação do aspecto da Lua visto numa posição geocêntrica ao longo do ano de 2012. Reparem que durante toda a animação a Lua não apresenta exactamente a mesma face. Na verdade, a Lua parece oscilar em períodos ligeiramente mais curtos que o de cada lunação. Essas oscilações denominam-se librações e são um produto do movimento orbital da Lua. Na animação são visíveis dois tipos de libração: a libração em longitude e a libração em latitude. A primeira resulta da excentricidade da órbita lunar, enquanto que a segunda é uma consequência da inclinação do eixo de rotação da Lua em relação ao plano definido pela sua órbita em redor da Terra (existe ainda um terceiro tipo de libração, conhecido por libração diurna ou paraláctica, que resulta da mudança de perspectiva induzida pela rotação da Terra).
No vídeo é ainda visível um segundo movimento mais subtil. Se observarem com atenção vão verificar que a Lua vai aparentemente alterando o seu tamanho. Este fenómeno ocorre ao longo de cada revolução orbital e é produzido pelo movimento da Lua entre os dois pontos extremos da sua órbita: o perigeu, o ponto em que está mais próxima do nosso planeta, e o apogeu, o ponto em que se encontra mais distante.

Crédito: NASA/Goddard Space Flight Center Scientific Visualization Studio.

Diariamente, a Lua aparenta progredir numa trajectória no céu de leste para oeste. Esta trajectória não é mais que uma ilusão criada pela rotação da Terra. Na verdade, a Lua move-se no sentido contrário, numa órbita excêntrica com um período de 27,32 dias (ligeiramente mais curto que o período de uma lunação), o que explica a sua deslocação para leste em noites consecutivas relativamente à abóbada celeste. Para além da sua excentricidade, a órbita da Lua apresenta ainda uma inclinação de 5,1º relativamente à elíptica, a que corresponde uma inclinação de 18,3 a 28,6° em relação ao equador terrestre dependendo da estação do ano na Terra. Ora, na prática, o que isto quer dizer é que em algumas lunações pode surgir um crescente lunar numa posição perfeitamente paralela ao horizonte em latitudes até 28º distantes do equador (por exemplo, Havana, a capital de Cuba, está 23º a norte do equador). Ou seja, nada disto é anómalo!

Para darem alguma consistência a este disparate, os autores dos blogs que tomam este fenómeno como insólito argumentam que “alguns cientistas também detectaram a anomalia lunar”. Para justificar esta afirmação, acenam com este artigo de um suposto investigador da Cornell University.

Em primeiro lugar, Lorenzo Iorio não é um cientista da Cornell University; é sim um funcionário do Ministério da Educação, das Universidades e da Investigação de Itália. Depois, é preciso ler com alguma atenção o seu artigo para o perceber de forma correcta. Através do que parece uma sequência de complicadas equações, Iorio expõe no seu artigo a detecção de um aumento na excentricidade orbital da Lua em (9 ± 3) × 10−12/ano, em dados recolhidos entre 1970 e 2008. Aparentemente, este aumento não é explicado pelos actuais modelos de interacção gravitacional entre a Lua e a Terra ou qualquer outro objecto conhecido no Sistema Solar.

Em que é que se traduzem estes valores na realidade? Traduzem-se num desvio de apenas 3,5 mm por ano nos extremos da órbita da Lua. Ou seja, de acordo com este artigo de Iorio, dentro de 100 milhões de anos, o perigeu e o apogeu lunares estarão deslocados em cerca de 350 km, cerca de 1/10 do diâmetro equatorial da Lua! Obviamente, este desvio nunca seria perceptível para um observador na Terra mesmo após 100 milhões de anos!

Claro que o artigo de Iorio fascina os profetas da desgraça não tanto pela sua possível importância na descrição da órbita da Lua, mas sim pelas especulações lançadas pelo autor para explicar a pequena anomalia na excentricidade orbital. Segundo Iorio, a discrepância por si descoberta poderia ser produto da perturbação gravitacional de um planeta com a massa da Terra numa órbita a 30 UA de distância do Sol, ou de um gigante com a massa de Júpiter situado um pouco mais distante, a 200 UA. No entanto, mesmo ele deixa transparecer o óbvio: um hipotético planeta com essas características já teria sido descoberto há muito tempo pelos astrónomos!!

Enfim… mais um chorrilho de disparates que só servem para vender as mesmas tretas de sempre do fim do mundo.

133 comentários

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  1. Enfim,.. Não temos provas de que tudo esta normal,. e nem de que esta anormal,… isso é o fim do mundo mesmo,….shaushaushuahsua,. confesso que é mto divertido ler esses post’s,..kkkk ,. vlw galera,…

    1. Temos provas de que está tudo normal.
      Basta a pessoa ter 2 olhos na cara e ter olhado para a Lua durante alguns anos. Uma pessoa com essa experiência, percebe que está tudo normal.

      abraços

    2. Eu moro em Brasília-DF, capital do Brasil, e na semana passada vi a Lua em forma de U durante o dia. Qual a explicação para isso?

      1. A explicação está dada no artigo…

        • Paulo on 30/06/2017 at 02:13

        A explicação é que se pode ver a lua tanto nas noites quanto nos dias e nada mais!

  2. Caro Sérgio Paulino,

    Gostaria de saber a resposta para a questão posta aqui: http://assimterraceu.blogspot.pt/2014/01/lua-de-janeiro-e-uma-perguntinha.html

    http://1.bp.blogspot.com/-uia-90Btjcg/UtUuKkj0AkI/AAAAAAAACcA/xTOkkN-n1q4/s1600/IMG_3083-002.jpg

    http://2.bp.blogspot.com/-zo9xg3byu98/UtUuTwQoEpI/AAAAAAAACcI/4xe4Kv_byiw/s1600/IMG_2954-002.jpg

    As duas fotos supra foram tiradas exactamente do mesmo local terrestre (Portugal), no mesmo dia (11 de Janeiro deste ano). Uma à tarde e outra à noite. Perguntinha: Por que razão a primeira tem a “barriga” virada para cima e a segunda virada para baixo, num aparente movimento no sentido dos ponteiros do relógio?

    Atenciosamente,

    João Guilherme

    1. Olá João,

      A primeira foto mostra a Lua pouco depois de aparecer acima do horizonte, ou seja, a leste do observador. É por isso que o disco lunar surge com o extremo oeste voltado para cima.

      A segunda foto foi obtida quando a Lua se aproximava do horizonte a poente, pelo que o disco lunar surge, em jeito de despedida, de barriga para baixo. 🙂

        • JoãoG on 22/01/2014 at 10:21

        Caro Sérgio,

        Muito obrigado pela resposta.

        Atenciosamente,

        João Guilherme

  3. Caro Sérgio,

    Se me permite, vou fazer uma outra pergunta a propósito da sua fotografia: por que razão só no início da fase crescente, com uma percentagem muito pouco iluminada (em forma de meio anel) é possível ver a olho nu o resto da Lua eclipsada pela Terra? Numa fase mais crescente (meia lua, por exemplo) é completamente impossível observar a parte não iluminada. Isto de dia, no crepúsculo ou à noite.

    Atenciosamente,
    João Guilherme

    1. Olá JoãoG,

      É uma excelente pergunta. No entanto, queria primeiro esclarecer que o que vemos nos primeiros dias antes e depois da lua nova, não é a Lua eclipsada pela Terra, mas sim o hemisfério nocturno da Lua. 😉

      Voltando à pergunta. Imagine que, nessas alturas, estava na superfície da Lua, no seu lado nocturno. Veria certamente a Terra quase toda iluminada a brilhar intensamente no céu, iluminando a paisagem em seu redor de uma forma semelhante, mas mais intensa, ao que acontece no nosso planeta em noites de luar. Ou seja, o brilho do lado nocturno da Lua quando esta se encontra em falcada (fases entre a lua nova e os dois quartos) não é mais que o intenso brilho da Terra (em particular, da cobertura de nuvens) reflectido pela superfície lunar. 🙂

        • JoãoG on 11/02/2014 at 15:10

        Caro Sérgio,
        Peço desculpa pelo lapso: óbvio que não se trata de nenhum eclipse, mas da parte da Lua não iluminada pelo Sol (noite lunar). Óbvio, igualmente, que a sua explicação me suscitou outra dúvida: então, na Lua Nova, não se deveria ver igualmente a fase nocturna da Lua, uma vez que esta fica iluminada pelo clarão da Terra? Mas rapidamente cheguei à conclusão que não, pois Sol e Lua ficam alinhados de tal forma que aquele impossibilita a visualização desta. Estou errado?…

        Mais uma vez, muito grato pela sua partilha de conhecimento.
        JoãoG

      1. Exactamente. Na fase de lua nova, a Lua e o Sol ficam alinhados, pelo que o brilho do hemisfério nocturno da Lua perde-se no brilho do céu diurno. 🙂

    2. João,

      Só para elucidar, recordo que as fases da Terra vistas da Lua são sempre opostas às fases da Lua vistas da Terra. 😉

    • fabio alves do nascimento on 16/08/2014 at 15:46
    • Responder

    oi sou fâ da astronomia

    • ELVER TEIXEIRA. on 01/02/2015 at 03:05
    • Responder

    Sauiidações .Em 30 de dezembro de 1983,principais jornais americanos e depois jornais do Brasil,noticiaram ul corpo celeste maior que Júbiter próximo ao sistema solar.Era uma ilusão científica ?Sigamos no Bem.Elver.

    1. Envie um link para mostrar que isso realmente foi reportado.

      Se está a falar de Nibiru, é uma fraude:
      http://www.astropt.org/2011/09/09/fantasia-planetaria-nibiru/

    • Anã Margarida on 20/09/2015 at 01:19
    • Responder

    Boa noite, tenho reparado que as ultimas três luas têm FOA de U assim como a lua em vez de permanecer lá no alto por volta fãs 23/24H muda para um tom avermelhada e começa a descer acabando por desaparecer …aconteceu hoje tb …é normal? Obrigada

    1. Sim, perto do horizonte é normal a “mudança” de cor. Tem a ver com a atmosfera terrestre. O Sol ao nascer do Sol e ao pôr-do-Sol também parece meio avermelhado 😉

  4. Saudações ao leitores deste espaço.Sou apenas curioso em Astronomia e desde criança apaixonado pelo céu.Volto a perguntar ao pessoal que estuda Astronomia.Em 30 de dezembro de 1983,principais jornais do mundo noticiaram importante descoberta astronômica,esta descoberta se confirma ? Sim ? O objeto não está imóvel.Como ficamos ?Sigamos no Bem

    1. Sim, confirma-se que em 1983 já existiam vigaristas e jornalistas ignorantes.

      De resto, todos esses supostos “mistérios” já estão explicados aqui em diversos artigos. Como esse.
      http://www.astropt.org/2011/12/07/enorme-ovni-detectado-perto-do-planeta-mercurio/

      abraços

  1. […] – Lua: imagens. Face Visível e Distante. Libração. LCROSS. Lua em forma de U. Necessidade fisiológica na Lua. Azul. Super-Lua: definição, maior Lua do ano, 100 fotos 2011, […]

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