Google+

«

»

Ago 30

Cosmos, de Tyson

cosmos-nt

Em Março de 2014, em 180 países, estreou a nova série Cosmos, apresentada por Neil deGrasse Tyson.
Este foi o maior lançamento de uma série na história da televisão.

Nos EUA, a série foi transmitida em canal aberto, pela FOX.
Em Portugal e no Brasil, infelizmente, só se viu em canais de cabo…

Crédito da imagem: Wellton Enishi

Crédito da imagem: Wellton Enishi

A nova série Cosmos, com o sub-título “Uma Odisseia no Espaço-Tempo“, foi para o ar este ano, 2014, numa altura em que Carl Sagan faria 80 anos.
A primeira série Cosmos, lançada em 1980 e apresentada por Carl Sagan, teve como sub-título “Uma viagem pessoal”. Foi um sucesso para o público (vista por 750 milhões de pessoas) e para a crítica, e ainda hoje é o maior marco televisivo da divulgação científica.

A nova série teve 13 episódios.
Deixem-me deitar o sentido crítico pela janela e dizer desde já: a série é excelente.

E agora que, finalmente, vi a série, vou analisar cada episódio:

828902

1 – De Pé na Via Láctea (Standing Up in the Milky Way)

A Nave da Imaginação, de Carl Sagan, volta a percorrer o Universo 34 anos depois, desta vez com Neil deGrasse Tyson no comando.

Ao leme da Nave da Imaginação, Tyson vai explorar o passado, presente e futuro do Universo.
A Nave começa no sistema solar, na Terra (passado e futuro), passa pela Lua, Sol, Mercúrio, escaldante Vénus, Marte, asteroides, gigantesco furacão de Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno, Plutão, cometas e acaba na Voyager 1, o objeto mais distante feito pelo Homem. A Nave continua a viajar para fora do sistema solar, mostrando a Via Láctea, Andrómeda, Grupo Local de galáxias, e por aí adiante até ao Super-Aglomerado da Virgem. O objetivo é mostrar que a Terra é incrivelmente pequena, invisível, no Universo Conhecido/Observável.
Tyson diz que a Humanidade nem sempre soube o quão insignificante era no Universo. E aproveita isto para ensinar um pouco de história, nomeadamente sobre Giordano Bruno, quando este frade dominicano italiano desafiou o modelo geocêntrico defendido pela Igreja Católica e foi condenado à fogueira pela Inquisição. Através da famosa pintura que aparece no livro de Camille Flammarion, nós vamos desvendando os mistérios do Universo.
De seguida, Tyson traz à vida o famoso Calendário Cósmico de Carl Sagan. 13.800 milhões de anos concentrados em 12 meses. Cada mês representa mais de mil milhões (bilhão, no Brasil) de anos. Cada dia representa quase 40 milhões de anos. Sendo o Big Bang às 0h00m de dia 1 de Janeiro e o tempo Agora ser a 24h00m de 31 de Dezembro, toda a história humana documentada (escrita) passou-se nos últimos 14 segundos…
O episódio termina com Tyson a contar um episódio de quando ele, Tyson, tinha 17 anos, e Sagan o inspirou a ser um cientista. E Tyson celebra Sagan recordando as maiores realizações científicas de Carl Sagan (o seu contributo como cientista).

O episódio tem assim 4 grandes partes, sobre as quais vou dissertar um pouco mais agora.

A primeira grande parte é o Tour pelo Universo, o passeio espacial, de modo a nos mostrar as escalas espaciais no Universo. Pessoalmente, penso que a viagem cósmica teria mais impacto com um Powers of Ten.
Além de ficarmos a perceber a nossa morada cósmica, o nosso endereço cósmico, as nossas coordenadas no Universo, o objetivo desta parte é mostrar que a Terra é completamente insignificante no Universo. Não temos qualquer posição especial no Universo. Não há assim qualquer razão para termos extraterrestres sempre a nos visitarem ou deuses muito interessados em nós. Infelizmente, esses mitos continuam, porque as pessoas continuam mentalmente no passado, sem noção da grandeza do Universo.
Pessoalmente, adorei as escalas e a beleza do Universo.
Gostei também de se falar nas Voyager e da inclusão de música do disco das Voyager.
Adorei ter visto o Porto na série.
Detestei a representação da Cintura de Asteroides, da Cintura de Kuiper e da Nuvem de Oort. Apareceram todas demasiado densas, com demasiados objetos muito próximos uns dos outros. Na realidade não são assim. Apesar de Tyson ter dito que a distancia entre objetos na teórica Nuvem de Oort é maior que a distância entre a Terra e Saturno, penso que a maior parte das pessoas nem “ouviu” isso, porque o que fica na memória é a representação… errada.
Detestei o segmento sobre os planetas-órfãos. Diz Tyson que planetas invisíveis à luz visível aparecem de repente quando se vê em infravermelho. O que ele diz está certo. No entanto, a forma como foi apresentado este facto promoveu as parvoíces pseudo daqueles que acreditam sem evidências no chamado Nibiru. Tyson dá a entender, inadvertidamente, que os planetas podem “aparecer de repente” sem os notarmos anteriormente. Isto é mentira, claro, até pelo que Tyson diz (vemos em diferentes comprimentos de onda), mas foi pessimamente comunicado e promove as conspirações idiotas.
Detestei a especulação sobre o Multiverso. A parte de que o nosso Universo Observável é somente uma bolha, num infinito número de bolhas é pura especulação baseada numa interpretação antropocêntrica do Universo.

A segunda grande parte é sobre história, nomeadamente Giordano Bruno.
Bruno desafiou a crença religiosa de que o Universo é geocêntrico e defendeu a visão infinita do Universo.
É verdade que Tyson quis: realçar a integridade de alguém, Bruno, na defesa das suas ideias, contrárias à ortodoxia da altura; defender a liberdade de pensamento de qualquer tipo, incluindo religiosa; e explicar que as ideias de Bruno foram pura sorte, sem qualquer evidência e baseadas somente nas ideias religiosas dele. Devido a uma posição de fé, Bruno defendia que um Deus infinito teria que ter feito um Universo infinito, para não ficar espacialmente fechado e limitado. Tyson foi claro: isto não é ciência.
No entanto, esta mensagem não passou. Grande parte do que se lê pela internet, incluindo em blogs científicos, é que o episódio deixou a ideia que Bruno foi um mártir da ciência. Bruno não foi um mártir, um herói da ciência. Tyson, inadvertidamente, propagou esse mito. Tyson fomentou ideias erradas sobre Bruno. Foi uma péssima lição de história.
Facto: Giordano Bruno não foi condenado à fogueira pela Inquisição pelas suas ideias científicas, nomeadamente pela sua crença num Universo infinito, pela sua crença em vários mundos, pela sua crença de que o Sol estava no centro do sistema solar, pela sua crença de que a Terra era somente um planeta como os outros a orbitar o Sol, ou pela sua crença que outras estrelas seriam como o Sol com mundos a orbitá-las. Claro que estas ideias não ajudaram o seu caso. Mas não foram elas as responsáveis pela sua condenação. Nem podiam. Porque estas ideias dele tinham por base as suas crenças religiosas. Ele não estava a falar de ciência.
Facto: as 8 acusações contra Bruno foram: crença na pluralidade de mundos; negar a divindade de Jesus; negar a virgindade de Maria; negar a Santíssima Trindade; negar a transubstanciação; praticar magia; acreditar na transmigração da alma; acreditar que animais e objetos possuem alma. Bruno seguia ensinamentos do Hermetismo, uma seita Egípcia. Como se pode ver, Bruno pode ter sido um mártir da liberdade religiosa, mas não da ciência. Bruno foi condenado pelas suas ideias religiosas (como muitos outros foram na altura) e não pelas suas ideias científicas.
Detestei o facto de Bruno ter sido mostrado como um “solitário” nas suas ideias científicas. Essa foi outra conceção errada que não gostei. Foi uma péssima representação do processo da ciência. A ciência é um esforço de grupo, uma colaboração entre várias pessoas que faz com que o conhecimento científico vá acumulando. Nenhum homem é uma “ilha”.
Também errada foi a frase: “Havia apenas um único homem em todo o planeta que imaginava um cosmos infinitamente maior.”
Fico sem saber porque não escolheram um verdadeiro vulto da ciência, como Galileu.
Também não entendi porque decidiram animar esta secção. Ficou demasiado… infantil. E a qualidade da animação está a “anos-luz” do resto dos efeitos especiais no episódio. No entanto, tendo em conta que a animação, por exemplo, de South Park tem ainda menor qualidade, e mesmo assim são bastante populares devido ao seu conteúdo (pessoalmente, eu adoro a série), então não me parece importante esta crítica à animação.
Gostei da forma como os Inquisidores da Igreja foram representados, com uma mentalidade pequena, tacanha, dogmática e geocêntrica.
Adorei quando Bruno os desafia, dizendo que o deus deles é demasiado pequeno. O deus deles é pequeno, porque para eles o Universo é pequenino e centrado na Terra. O Deus de Bruno é muito superior, já que habita um Universo infinito onde a Terra é insignificante.
Adorei a inclusão da pintura divulgada por Flammarion, pelo significado que ela tem.

A terceira grande parte diz respeito ao Calendário Cósmico.
Esta é uma parte obviamente espetacular.
É uma forma visualmente fabulosa de representar a escala da história do Universo, e mostrar o quão insignificantes os humanos são.
Adorei quer a parte visual quer a parte textual do nascimento das estrelas. Fabuloso.
Adorei o realce dado ao primeiro anfíbio, o Tiktaalik, que sai do mar para se aventurar na terra… como se estivesse a “visitar outro planeta”.
Gostei de Tyson já ter falado em 13,8 mil milhões de anos de idade do Universo (e não 13,7). Mas curioso, em inglês, ele diz “13,8 thousand million years old” e não “13,8 billion years old”.
Não gostei da representação explosiva do Big Bang. Passa a conceção errada que foi uma explosão no espaço.
Percebo que fica muito bem visualmente colocar os óculos escuros… mas na altura do Big Bang, não havia luz (ao contrário do que é dado a entender).
Além disso, Tyson diz textualmente que o Big Bang foi uma “explosão de fogo cósmico”. Isto é totalmente errado.
E, claro, quem já conhece o Calendário Cósmico que nos foi transmitido por Sagan, este é o mesmo calendário e por isso perde relevância.

A quarta parte é a homenagem de Tyson a Sagan.
É um testemunho inspirador e emocionante.

No seu conjunto, o episódio é muito bom. Tem, por exemplo, efeitos especiais soberbos.
Se não tivesse incluído a longa e má secção referente a Bruno, poderia ter sido um episódio excelente.
Por outro lado, parece-me que as 4 partes não têm encadeamento entre si. Se tivesse sido feito um episódio inteiro para a viagem espacial, outro episódio inteiro para o calendário cósmico (ou quiçá unir estas 2 partes num episódio sobre escalas espaciais e temporais), e outro episódio inteiro sobre Sagan, as suas contribuições e os testemunhos pessoais, teria sido muito melhor. Da forma como foi feito pareceu-me inconsistente.

cosmos-102-some-of-the-things-that-molecules-do-fox

2 – Coisas que as Moléculas Fazem (Some of the Things That Molecules Do)

Este episódio cobre a evolução da vida na Terra.
O grande tema do episódio é a evolução, a mudança, a transformação.

Tyson descreve a seleção artificial, feita pelo homem, ao domesticar os lobos e transformá-los em cães. Os Humanos interferem na evolução natural de alguns animais e plantas, fazendo com que a evolução vá na direção que eles desejam.
Tyson também descreve a seleção natural, que gradualmente criou espécies como o urso polar e que também esculpiu o extraordinariamente complexo olho humano.
Os indivíduos que melhor se adaptam a determinado ambiente numa dada altura, têm uma vantagem que se traduz numa maior procriação. Essa vantagem vai-se transmitindo geneticamente à sua descendência, e após algumas gerações todos os indivíduos poderão ter essa vantagem (que não existia inicialmente). Exemplo: os ursos são castanhos; entretanto um sofreu uma mutação aleatória, que lhe deu uma vantagem no ambiente polar: tinha pelo branco que lhe permitia estar camuflado, o que o levava a caçar mais facilmente e esconder-se de predadores; essa vantagem fez com que ao fim de várias gerações se passasse a ter uma população de ursos polares.

Tyson utiliza a Nave da Imaginação para mostrar como o DNA, os genes e as mutações funcionam.
Tyson utiliza este conhecimento para demonstrar como isto levou à diversidade das espécies (representadas na Árvore da Vida), e como levou ao desenvolvimento de órgãos complexos (como o olho) comuns a diferentes espécies.

Na terceira grande parte deste episódio, Tyson explica as razões para as espécies se extinguirem e menciona as 5 maiores extinções em massa dos últimos 500 milhões de anos, que exterminaram numerosas espécies na Terra. A maior terá sido há 250 milhões de anos, no super-continente da Pangea, causada por erupções vulcânicas que exterminaram 96% de vida na Terra (incluindo as trilobites).
Seguidamente, Tyson fala dos tardígrados que sobreviveram a essas extinções e ainda hoje continuam a prosperar.

Depois disto, Tyson especula sobre vida noutros locais do sistema solar, como em Titã.

Por fim, Tyson discute rapidamente a origem da vida na Terra.
O episódio termina com uma animação vinda do Cosmos original de Sagan, onde é mostrada a evolução da vida, desde organismos unicelulares de há 4.000 milhões de anos até à Humanidade atual.

Este episódio é fabuloso, melhor que o primeiro.
Tem excelentes efeitos especiais (CGI).
Adorei quando Tyson diz que a Evolução não é “somente uma teoria“, não é uma opinião. “A Teoria da Evolução, como a Teoria da Gravidade, é um facto científico.”
A narrativa a explicar como a evolução funciona está muito bem conseguida. Está simples e brilhante. É bastante inspiradora e compreensível.
Adorei a mensagem sobre estarmos todos ligados: toda a vida na Terra está ligada entre si. “A ciência revela que toda a vida na Terra é una.”
Adorei Tyson ter utilizado e começado o episódio com o exemplo dos cães (de onde todos eles vieram?). A razão é simples: permite que as pessoas se identifiquem porque os cães são animais de estimação adorados pelas pessoas.
Adorei o facto de Tyson ter dito que foram os lobos que domesticaram os seres humanos: enquanto os humanos passavam pelo perigo da caça, os lobos simplesmente vasculhavam o lixo, e assim podiam comer mais regularmente e ter mais crias. Ao não ameaçarem os humanos, tornou-se bastante vantajoso para os lobos. Foi a “sobrevivência do mais simpático”. 😀
Adorei o segmento sobre a evolução do olho. Onde Tyson fala no desenvolvimento do complexo olho e diz literalmente que é uma conceção errada falar de um Criador Inteligente (Intelligent Designer).
Gostei bastante do segmento sobre a “evolução em movimento” e sobre as “mutações aleatórias” que permitem ao urso polar sobreviver em condições extremas.
Pessoalmente, gostei também das pequenas “alfinetadas” às crenças Criacionistas. Aliás, este episódio deveria ser visto por toda a gente, sobretudo Criacionistas.
Uma dessas alfinetadas é quando Tyson fala dos chimpanzés e diz: “A família é quem mais nos envergonha”. E, seguidamente, de forma brilhante começa a falar sobre as semelhanças (incluindo de DNA) entre os humanos e as árvores. Normalmente não se pensa em semelhanças entre espécies tão distintas, e por isso é que é brilhante, porque deve ter feito explodir algumas cabeças criacionistas…
Gostei de, em Titã, Tyson alargar o conceito de vida para algo diferente do que pode existir na Terra. Vida muito diferente da que estamos habituados. E Tyson deixa perceber que os cientistas pensam sobre isto, ao contrário das ideias limitadas daqueles que imaginam OVNIs e outras tretas supostamente extraterrestres semelhantes ao que conhecem na Terra. Tyson estimula a imaginação e evidencia que a ciência “vê mais longe”.
Mais uma vez não entendo porque alguns temas são inseridos à força nos episódios. Por exemplo, neste episódio, porque Tyson começou a especular sobre vida em Titã? Não faz sentido essa inconsistência. Esse assunto não teria que ser inserido. É uma distração que foge ao grande tema do episódio. Não faz qualquer sentido.
Também não entendi o porquê da existência da parte da origem da vida na Terra, que foi demasiado rápida e superficial.
Não gostei da animação final. Dá a ideia de uma evolução linear e com um propósito final: Humanidade.

WhenKnowledgeConqueredFear_017_Cosmos

3 – Quando o Conhecimento Venceu o Medo (When Knowledge Conquered Fear)

Este episódio é sobre as origens e a evolução do conhecimento.

Na primeira parte deste episódio, Tyson explica que da mesma forma que quando nascemos, como bebés, não temos conhecimento do mundo em que aparecemos, quando a Humanidade estava nos seus primórdios, também não tinha conhecimento do mundo.
Em tudo que não compreendia, fosse chuva, trovoada, neve, etc, a Humanidade “culpava” deus ou deuses. Os eventos naturais eram supostamente gestos divinos.

Gradualmente, a Humanidade foi reconhecendo padrões.
Fomos percebendo as diferenças entre animais predadores e outros que são as nossas presas, entre plantas comestíveis e venenosas, etc. Com este conhecimento, fomos vivendo melhor e mais tempo.
Também fomos compreendendo alguns padrões no céu, e como isso afectava a nossa vida na Terra. Assim, pudemos prever, por exemplo, a passagem das estações,.
Estes e milhares de outros padrões foram sendo compreendidos ao longo de milhares de anos, e com isso fomos percebendo a explicação dos fenómenos.

Um dos padrões compreendidos é a passagem de cometas.
No início, a aparição de um cometa nos céus era interpretada como uma mensagem sobrenatural, dos deuses – era o anúncio de eventos catastróficos. Os cometas eram mensageiros da desgraça.
Mas ao longo dos séculos, a observação sistemática destes eventos permitiu um estudo científico deles. O resultado deste estudo foi colocarmos as interpretações pseudos de lado, e compreendermos a natureza real do fenómeno em causa.

Os cometas têm a sua origem no frígido reino da Nuvem de Oort, onde se encontram mais de 1 trilhão de cometas. O cientista referido nesta história é, naturalmente, Jan Oort, e Tyson fala das suas contribuições para o nosso conhecimento astronómico. Por fim, Tyson leva-nos na viagem de um cometa, no seu mergulho de centenas de milhares de anos até ao Sol.

Seguidamente, Tyson fala da colaboração entre Edmund Halley e Isaac Newton no final do século 17, em Cambridge.
Esta colaboração levou à publicação do livro Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica, o primeiro grande trabalho científico a descrever as leis da física de forma matemática.
Ao explicar de forma natural como o Universo funcionava, este livro desafiava as explicações sobrenaturais para os fenómenos, nomeadamente a noção que era Deus que fazia tudo.
Apesar das objeções, da acusação de plágio feita por Robert Hooke (um feio, popular e brilhante cientista), e das dificuldades financeiras da Royal Society of London, o livro foi publicado (Halley pagou). E foi um sucesso!
Este trabalho de Newton ainda hoje influencia enormemente a nossa vida diária… e não só (ex: viagens espaciais).
Tyson considera que foi a publicação deste trabalho que lançou a Revolução Científica. A Revolução Científica fez com que a ciência explorasse o cosmos e passasse a prever o futuro.

O conhecimento de Newton e a colaboração com Halley, fez com que Halley previsse corretamente a órbita do cometa que agora tem o seu nome.
Halley previu a órbita do cometa, a sua localização no céu, e a data exata que iria aparecer! Nunca algum “profeta de desgraças” conseguiu este feito. A profecia de Halley para 50 anos mais tarde foi incrivelmente precisa e acertada!
Os cometas, supostos mensageiros de más notícias, foram domados! O Conhecimento Venceu o Medo!

Tyson coloca em contraste o conhecimento científico que temos agora destes eventos no nosso Universo, e a ignorância sobrenatural que existia nos primórdios da Humanidade.
Tyson também debate o reconhecimento de padrões, mostrando que isto pode ser bom ou mau. Da mesma forma que nos permitiu evoluir no conhecimento, também por vezes vê padrões que não estão lá, fomentando conspirações e pseudo-ideias que não existem na realidade. Desejamos tanto encontrar um significado para a nossa existência, queremos tanto sentir-nos especiais no Universo, que facilmente nos iludimos.

Com o conhecimento atual pode-se prever a colisão entre as galáxias Via Láctea e Andrómeda daqui a alguns milhares de milhões de anos. E tudo com base nas leis de Newton…
As únicas profecias que realmente acontecem são as da ciência.
A ciência funciona.

Este foi mais um excelente episódio.
O episódio refere vários cientistas importantísssimos na história da ciência: Oort, Wren, Booth, Hooke, Newton e Halley.
Se calhar mais do que Newton, quem foi superiormente celebrado neste episódio foi Halley. E merecidamente!
O episódio é excelente ao retratar um momento crucial na história da ciência.
Apesar de ter menos efeitos especiais, não se “sentiu”, porque o conteúdo textual foi muito bom.
Parece-me que o episódio mandou vários “socos” quer às crenças sobrenaturais quer às crenças pseudos, baseadas na ignorância e não no conhecimento dos fenómenos. Mas estes “socos” foram subtis. A mensagem é claramente para os extremistas religiosos nos EUA e para os Deepak Chopras deste mundo…
Tyson celebra as conquistas da ciência, a conquista do conhecimento.
Tyson coloca em contraste mas também une conhecimento com crenças. Tyson diz-nos por exemplo que Newton, apesar de ser um génio científico, também tinha crenças religiosas fundamentalistas e seguia ideias pseudos como a alquimia. O génio de Newton foi saber separar essas coisas. As suas crenças sobrenaturais não afetaram a sua procura de conhecimento objetivo. Newton é uma das pessoas que mais contribuíram para o progresso da Humanidade porque soube compreender que as suas experiências científicas eram mais valiosas para a Humanidade que as suas crenças pessoais. Em Newton, a Racionalidade convivia com a Superstição, mas a Racionalidade superava a Superstição e foi nessa decisão que Newton teve sucesso.
As crenças sobrenaturais e as crenças pseudos fomentam o medo. O conhecimento científico venceu esse medo! Este é o Poder do Conhecimento!
Adorei o realce dado a Newton e também a Halley nesta conquista do conhecimento.
Adorei Tyson dar a entender que, em face de fenómenos desconhecidos, enquanto os outros têm medo e inventam histórias para amedrontar outros, já os cientistas adoram entrar no reino dos fenómenos desconhecidos e encontrar padrões que resultem em explicações consistentes desses fenómenos, de modo a que possam ser previstos corretamente. O Conhecimento Conquista as Superstições! O Conhecimento Conquista o Medo!
Adorei a mensagem: quando os humanos se predispõem a compreender o mundo que os rodeia, são capazes de feitos incríveis. Todos nós somos capazes desses feitos. Se, claro, deixarmos de fora as crenças, os medos, as pseudo-notícias, os sensacionalismos idiotas, o “jornalismo amador de internet”, etc. Ou seja, somos todos capazes de fazer evoluir a Humanidade, se optarmos por seguir a via do conhecimento de modo a conquistarmos os nossos medos.
A cena final com a colisão entre as duas galáxias, foi visualmente um assombro. Aposto que levou muita gente ao êxtase. Apesar de nós já conhecermos o vídeo, a verdade é que para grande parte da audiência do programa terá sido uma novidade. E esses certamente tiveram um surpresa visualmente fabulosa.
Desta vez, até gostei da animação histórica. Acho que esteve muito melhor que no primeiro episódio, mais educacional.
Gostei da homenagem que Tyson fez a Robert Hooke. Percebeu-se que Tyson o admira, na parte científica; mas Tyson também deixou perceber que nas disputas pessoais com Newton, Hooke errou.
Gostei bastante quando Tyson faz uma reflexão sobre a Humanidade: porque é que conhecemos os nomes de músicos, futebolistas e supostos famosos, mas pouca gente conhece Jan Oort, Edmund Halley e tantos outros que fizeram tanto pelo progresso da Humanidade? O que diz isto sobre os Humanos? Porquê que alguns indivíduos preferem a falsidade em vez do conhecimento da realidade que nos odeia? Talvez algumas pessoas prefiram o conforto das falácias, das mentiras, porque as faz sentir melhor; fá-las sentir importantes, uma falsa noção de importância.

Cosmos William and John Herschel

4 – Um Céu Cheio de Fantasmas (A Sky Full of Ghosts)

Este episódio explica como a luz, o tempo, o espaço e a gravidade se combinam para distorcer a nossa perceção do universo.

O episódio divide-se basicamente em 2 partes: na primeira parte fala-se na velocidade da luz; na segunda parte do episódio explica-se vários conceitos relacionados com a gravidade.

William Herschel explica ao seu filho, e a nós, que os telescópios são máquinas do tempo que nos permitem observar o passado.

Compreendemos que vivemos num poço gravitacional. A gravidade é uma distorção no tecido do espaço-tempo.
E percebemos os fenómenos estranhos que acontecem quando sofremos os efeitos relativistas.

De seguida, viajamos para a fronteira de um Buraco Negro. Tentamos espreitar para dentro dele. Mas a nossa curiosidade faz com que não consigamos escapar à sua “mão gravitacional”. Caímos nele. Vamos viajar por um Buraco Negro.

Por fim, viajamos para trás no tempo: até ao dia em que Tyson conhece Sagan.

Este episódio é muito bom.
Adorei o título: um céu cheio de fantasmas. Isso refere-se ao facto de, como a velocidade da luz é finita, quando olhamos para uma estrela estamos a vê-la (a sua luz) como ela era no passado. Por exemplo, quando olhamos para o Sol, vemos como o Sol era há cerca de 8 minutos atrás, já que a luz demora esse tempo a viajar do Sol até à Terra. Assim, muitas das estrelas que vemos atualmente no nosso céu podem de facto já não existir (podem já ter morrido): estamos a ver “fantasmas” delas.
Assim, “Seeing is not believing”, ver/observar algo não leva a que possamos acreditar que esse algo existe. Existem várias “ilusões ópticas” semelhantes e diferentes desta. O que é importante, diz-nos Tyson, é que coloquemos as nossas ideias à experiência, ao “julgamento do Universo”. Isto é, obviamente, incrivelmente importante para se perceber a natureza da ciência.
Gosto especialmente de Tyson ensinar história através de histórias pessoais dos intervenientes.
Gosto que Tyson não “embeleza” a personalidade dos cientistas. Os cientistas são humanos, com as virtudes e as falhas comuns a todos os humanos. Já no episódio anterior Tyson tinha enaltecido o brilhantismo de Hooke sem se esquivar à sua personalidade irascível. O que é comum a todos os cientistas é a paixão por compreender o mundo que os rodeia.
Gostei do episódio ter falado em Galileu, Newton, Einstein, Faraday, Maxwell, William Herschel, John Herschel, e sobretudo John Michell (um dos grandes cientistas de quem ninguém ouve falar). É importante que se fale também dos cientistas menos conhecidos, das centenas/milhares de cientistas pela história, que tanto contribuíram para a Humanidade, mas que foram sendo esquecidos…
Para o público português ou brasileiro pode ser estranho Tyson ter realçado que o Universo não pode ter somente 6.500 anos. Mas Tyson está, naturalmente, a falar para o público americano. Quase metade dos americanos acredita nessa doutrina criacionista. Tyson é claro: se o Universo fosse tão jovem, não poderíamos ver a luz de estrelas a, por exemplo, 10 mil anos-luz da Terra. Mas conseguimos ver essas estrelas, porque a luz dessas estrelas demorou esse tempo a chegar até nós, provando assim que o Universo não pode ser tão jovem como os criacionistas acreditam. O Universo é muito maior, mais grandioso, e incrivelmente mais complexo do que os crentes fundamentalistas acreditam. (claro que, os fundamentalistas vão continuar a acreditar no mesmo, criando explicações ad-hoc, como por exemplo: Deus fez o Universo assim, para nos enganar).
Compreendo a mensagem que Tyson quis transmitir sobre Buracos Negros: que neste momento nada sabemos sobre o que se passa dentro de buracos negros, mas tal como Einstein, Herschel, etc, temos agora algumas ideias, “thought experiments”, que se podem tornar verdadeiras ou não; só no futuro saberemos que ideias serão confirmadas. No entanto, não gostei de ver as usuais especulações absurdas sobre este assunto: sobre buracos negros serem túneis no Universo, passagens entre universos, até podermos estar dentro de um buraco negro e não sabermos, ou até os buracos negros darem origem a outros universos. Isto é pura especulação sem sentido. Tendo em conta que noutros episódios, Tyson separa a ciência das crenças religiosas, explicando claramente que a ciência se baseia em evidências, o facto de não existirem quaisquer evidências para estas especulações e mesmo assim Tyson as referir como se fossem ciência, é um tiro no pé dado por Tyson. Se ele dissesse que os buracos negros são a porta do céu (heaven) onde vamos encontrar Deus… estaria ao mesmo nível das especulações que ele referiu…
Gostei dele dizer que os buracos negros não são os aterradores comilões da ficção cientifica. Isso é uma conceção errada que é necessário erradicar.
Adorei a denominação “estrela negra”, dada por John Michell quando imaginou a existência do que hoje conhecemos por buracos negros. Parece-me que “estrela negra” é um termo mais realista… e que iria prevenir conceções erradas que temos sobre os chamados buracos negros.
Não gostei da passagem entre observarmos o passado e vivermos em poços de gravidade. Mais uma vez, é uma transição sem sentido entre temas.
Foi pena o episódio não falar da astrónoma Caroline Herschel, irmã de William Herschel.

medium_image-5342f4dd6170700697cc0000-coalesced

5 – Escondido na Luz (Hiding in the Light)

As chaves para o cosmos estão ao nosso redor para serem encontradas há muito tempo. A luz, em si, tem muitas destas chaves, mas nós nunca percebemos que elas estavam lá até que aprendemos as regras básicas da ciência.

Este episódio explora as propriedades da luz, as cameras, o método científico, e a composição do Universo.

Uma aposta fabulosa deste episódio é a contribuição do físico Ibn al-Haytham, que viveu no século XI e que é considerado o “pai do método cientifico”.

O episódio começa com uma ideia do último episódio: a luz teve um papel importante no aumento do nosso conhecimento científico.
Há mais de 2000 anos atrás já o filósofo chinês Mozi (Mo Tzu) fazia experiências com a luz numa camera escura.
No século XI, o cientista árabe Ibn al-Haytham “inventou” o método científico de maneira a compreender a natureza da luz. Ele foi o primeiro a compreender como conseguimos ver a luz e como a luz viaja. Ele desenvolveu a ótica de uma forma que levou ao conceito de telescópios.
O trabalho de Isaac Newton com prismas, utilizando a difração, demonstrou que a luz era composta pelo espetro visível, sendo que William Herschel mostrou que a luz também incluía radiação infravermelha (formas invisíveis de luz).
Joseph von Fraunhofer descobriu que era possível observar “linhas pretas verticais” entre as cores da luz visível. Estas linhas de Fraunhofer são causadas pela absorção de luz pelos eletrões que se movem entre órbitas atómicas. Cada átomo tem uma assinatura diferente. Isto levou à espetroscopia, sendo que as linhas espetrais permitiram que os astrónomos passassem a saber a composição de estrelas, planetas, etc.

Este é mais um episódio que é muito bom.
Visualmente, este é um episódio excelente!
O episódio versa sobre a espetroscopia, um assunto pouco compreendido na população mas que é crucial para vários assuntos, incluindo a astronomia. Sem espectroscopia, praticamente não teríamos conhecimento astrofísico. Por aqui já se vê como este tema é crucial.
A descoberta de formas invisíveis de luz também foi extremamente importante para a ciência. Note-se que foi a ciência, com o método cientifico, a descobrir isto. No entanto, esta antiga ideia de “energias desconhecidas” é hoje utilizada pelos pseudos para vigarizarem a população com “mezinhas da treta” (exemplo: Reiki).
A sequência no final do episódio, mostrando a Cidade de Nova Iorque em diferentes comprimentos de onda (visível, infravermelho, ultravioleta, raios-X, raios gama, microondas, e rádio), é brilhante. Deveria ser presença obrigatória nas aulas de ciência!
A parte em que Tyson explica a natureza da luz utilizando as ondas de som também é muito boa. Pode parecer um pouco “ao lado” do resto do episódio, mas essa parte é utilizada para explicar de forma simples os comprimentos de onda, as frequências e as “energias” não audíveis/vistas pelo ouvido/olho humano (mas que a ciência consegue ouvir/ver).
Adorei a inclusão de cientistas não ocidentais. É preciso realçar mais este facto: a ciência não se desenvolveu somente na Europa e EUA.
Já há mais de 2000 anos, pelo menos, que a política compromete o desenvolvimento da ciência. Não é só a religião, como em Alexandria ou na chamada Idade das Trevas. Se o imperador Qin Shihuang não exterminasse o trabalho de Mo Tzu e de outros filósofos chineses, talvez hoje estivéssemos muito mais avançados em termos científicos.

106-002-cosmos-deeper-deeper-deeper-still-large-photo-960x540

6 – Aprofundando (Deeper, Deeper, Deeper Still)

Este episódio é sobre a escala do muito pequeno… daquilo que não conseguimos ver, mas que é vital no Universo.

Existe todo um Universo do muito pequeno (micro, nano-universo), mas um Manto de Invisibilidade não nos permite vê-lo no dia a dia.
As pessoas são constituídas por minúsculos átomos. Uma gota de orvalho contém exóticas formas de vida, como tardígrados. As células nas plantas usam a fotossíntese e a luz solar para converterem quimicamente dióxido de carbono e água em oxigénio e açúcares.

Tyson aproveita o muito pequeno para explicar a Evolução: o papel das traças na polinização; e o nosso sentido do olfato.

Tales, na Grécia Antiga, ensinou-nos que o Universo é governado por leis naturais: não precisamos de explicações sobrenaturais.
Demócrito defendia a existência de um universo do muito pequeno: tudo é constituído por átomos indivisíveis no vazio.

Os átomos de carbono são essenciais para toda a vida na Terra.

No Universo do muito pequeno percebemos que nunca nos tocamos: quem se toca são os campos eletromagnéticos, a repelirem-se.

Um átomo é sobretudo espaço vazio.
Viajamos dentro dos átomos até aos seus minúsculos núcleos.

A seguir, viajamos ao centro do Sol, onde no seu núcleo se produz a fusão nuclear – tal como em todas as estrelas.

De seguida, Tyson fala-nos de neutrinos, entidades que passam pela matéria quase sem interagirem com ela.
São precisos detetores especiais, como o Super-Kamioka Neutrino Detection Experiment (Super-Kamiokande ou Super-K), no Japão, em enormes piscinas subterrâneas, para detetar neutrinos vindos da supernova SN 1987A (na galáxia satélite Grande Nuvem de Magalhães) que colidem com moléculas de água na Terra.

Por fim, viajamos quase até ao início do Universo, até 380 mil anos após o Big Bang, quando começou a existir luz. Quem nos pode ajudar a “ver” para além dessa barreira são os neutrinos.

Este é um episódio muito bom.
Adorei a frase: “Existem mais átomos num olho humano do que estrelas em todo o Universo”.
A Nave da Imaginação tem 2 motores: ciência e imaginação 🙂
Gostei de ver Tyson a explicar que a fotossíntese ainda não é bem compreendida. Apesar de podermos recriar a fotossíntese em laboratório, ela é tão complexa que não conseguimos recriar a sua eficiência nas células das plantas. Se o conseguíssemos, deixaríamos de ter problemas energéticos para todo o sempre.
Tyson falou de Evolução mais uma vez… para o público americano se ir habituando à ideia.
Adorei ele ter falado dos Tardígrados. A Terra é o Planeta dos Tardígrados! 🙂
Adorei ver Tyson explicar que as Previsões da Ciência, ao contrário dos pseudos, estão certas e são cruciais para o avanço da Humanidade: a partir de uma aparente violação da lei da conservação da energia Pauli previu a existência dos neutrinos, Darwin previu a existência de um tipo específico de traças (sphinx-moth) 50 anos antes da sua descoberta, Demócrito previu a existência de átomos séculos antes da sua descoberta, etc.
Basicamente, este episódio deixa-nos com a mensagem: o muito grande e o muito pequeno fazem parte do mesmo universo.

Cosmos Clean Room

7 – Sala Limpa (The Clean Room)

Este episódio explica os métodos e os processos, ou seja a ciência, que nos permitiram determinar a idade da Terra.
Ao fazer isto, o episódio celebra o trabalho do geoquímico Clair Patterson e a sua campanha para retirar o elemento chumbo, uma neurotoxina, da gasolina.
O título do episódio é uma referência às tentativas de Patterson para esterilizar o seu laboratório, já que ele percebeu que os seus resultados eram inconsistentes devido à contaminação do chumbo.

Após referir a origem dos elementos nos corações de estrelas, Tyson descreve como a Terra se formou com a matéria a juntar-se/coalescer milhões de anos após a formação do Sol.
No entanto, as únicas evidências que temos do passado terrestre são só algumas centenas de milhões de anos, que podemos ver nos estratos geológicos.
O resto são evidências indiretas, de impactos e de meteoritos, que nos permitem ver mais longe no tempo terrestre.

Seguidamente, Tyson descreve o trabalho de Patterson como estudante de doutoramento, em que mediu o chumbo no zircão da Cratera Meteoro (Cratera de Barringer), no Arizona. Com este resultado e com a investigação de George Tilton sobre a quantidade de urânio nos mesmos grãos de zircão, e sabendo a meia-vida do urânio radioativo que o faz decair para chumbo, então pode-se estimar a idade da Terra.

No entanto, Patterson descobriu que os seus resultados estavam contaminados com chumbo, devido ao ambiente da sala, e por isso decidiu construir uma sala limpa, que estivesse completamente esterilizada (sem chumbo no ambiente).
Com os novos resultados, a partir da sala limpa, Patterson estimou que a idade da Terra era 4,5 mil milhões (bilhões, no Brasil) de anos (muito longe das estimativas iniciais, religiosas, baseadas na Bíblia, do arcebispo irlandês James Ussher em 1650 que colocava a criação da Terra no sábado 22 de Outubro de 4004 a.C. às 18 horas).

A seguir, Patterson tentou descobrir quais eram as fontes de chumbo. O chumbo é prejudicial aos Humanos, mas tem sido bastante consumido pelos humanos – até o Império Romano tinha minas de chumbo.
Patterson descobriu que o chumbo só existe à superfície terrestre devido aos humanos.
Também descobriu que o maior uso de chumbo encontra-se na gasolina.
Daí que Patterson começou uma campanha contra o uso do chumbo, o que levou a algumas restrições governamentais no uso do chumbo na gasolina.

Este é mais um episódio muito bom.
Enquanto nos episódios anteriores, Tyson tentou explicar como funciona o nosso mundo do dia-a-dia, neste episódio o foco foi diferente: o episódio destina-se a inspirar as futuras gerações de que uma única pessoa pode fazer a diferença e mudar o mundo.
O episódio mostra como um homem “insignificante” num canto obscuro do Iowa pode mudar o mundo.
Da mesma forma, mostra que uma pessoa ao utilizar a ciência como uma ferramenta para o bem, pode tornar o mundo muito melhor para todos nós.
O episódio demonstra claramente que a investigação científica é importante e pode mudar o nosso mundo para melhor.
O episódio, além da ciência, celebra os feitos de um ambientalista.
Este episódio quase que poderia ser um documentário sobre a vida de Clair Patterson, sendo que a ciência é o herói e a Corporação Ethyl o vilão.
Aliás, o próprio episódio diz que, ainda hoje, existem empresas (e políticos) a manipular os dados científicos de modo a promover as suas ideologias políticas e económicas (ex: alterações climáticas). No entanto, como diz Tyson, no final a verdade é sempre dada pela natureza e não por interpretações pessoais.
O episódio foi bastante criticado por uma frase que Tyson disse. Tyson afirmou que uma das razões que contribuíram para a queda do Império Romano foi o envenenamento por chumbo, devido à concentração de chumbo que existia na água de Roma.
Vi no episódio uma crucial mensagem de educação científica: a importância da ideia de uma “sala limpa”. Isto não é só para ser entendido literalmente (esterilização), mas também no sentido que a ciência deve estar livre de “sujidade inicial”, ou seja, as pessoas que fazem ciência não podem ter ideias pré-concebidas sem evidências concretas – não podem existir ideologias políticas, económicas, etc.

108-001-cosmos-sisters-of-the-sun-large-photo-960x540

8 – Irmãs do Sol (Sisters of the Sun)

O título do episódio refere-se às contribuições científicas das astrónomas que com as suas descobertas permitiram-nos avançar imenso no conhecimento das estrelas.

Este episódio celebra o trabalho e presta homenagem a 2 astrónomas: Cecilia Payne e Annie Jump Cannon.
Payne descobriu a composição química das estrelas: elas são constituídas maioritariamente por hidrogénio e hélio.
Cannon desenvolveu o primeiro catálogo com as caraterísticas espetrais das estrelas.

O episódio também explica em traços gerais a composição das estrelas e o seu destino após milhares de milhões (bilhões, no Brasil) de anos.
O episódio fala de supernovas, fenómenos violentos no Universo que ocorrem a uma média de 1 por galáxia em cada século.

Tyson começa por explicar como o homem primitivo começou a identificar as estrelas (reconhecimento de padrões), ligando-as através de aparentes constelações às quais atribuiu certos mitos e crenças.
Um desses exemplos em que se criaram mitos são as Pleiades, que apesar dos mitos até foram essenciais no desenvolvimento da agricultura. Curioso que daqui a algumas centenas de milhões de anos, o aglomerado estelar chamado de Pleiades deixará de existir, já que as suas estrelas irão gradualmente dispersar-se pela Via Láctea.

Tyson descreve o trabalho de Edward Charles Pickering para capturar o espetro de múltiplas estrelas simultaneamente.
Tyson também explica o trabalho das “Harvard Computers” (Computadores de Harvard) ou “Pickering’s Harem” (Harém de Pickering) – uma equipa de mulheres investigadoras que trabalhavam sob a orientação de Pickering, de modo a catalogar o espetro das estrelas (ver as linhas de Fraunhofer, explicadas no episódio 5). Supostamente, elas tinham um trabalho menor, de contar estrelas. Esta equipa incluía Annie Jump Cannon, que desenvolveu um sistema de classificação das estrelas (“organizou as estrelas”), e Henrietta Swan Leavitt, que descobriu uma forma de medir a distância das estrelas à Terra através do espetro estelar (que mais tarde foi utilizada para identificar outras galáxias no Universo e assim perceber melhor o tamanho do Universo). Mais tarde, esta equipa incluiu Cecilia Payne, que determinou a composição e a temperatura das estrelas. A colaboração entre elas foi essencial para compreendermos melhor as estrelas e termos uma classificação estelar.
Como curiosidade: Cannon e Leavitt tinham deficiência auditiva. Isso não foi um impedimento para se tornarem duas “imortais” no panteão da astronomia.

Seguidamente, Tyson explica os vários tipos de estrelas e a sua evolução (como cada uma delas evolui ao longo da sua vida). Elas nascem em maternidades estelares, em nuvens interestelares.
Tyson também explica como as estrelas mantém o seu tamanho, devido às forças opostas que são exercidas sobre a estrela: a gravidade que puxa os gases para dentro e a expansão dos gases a partir das reações nucleares no centro da estrela.
À medida que o Sol vai envelhecendo, vai ficando mais quente e mais brilhante. Vai chegar a um ponto em que o equilíbrio de forças vai ceder, e o Sol vai-se expandir, tornando-se uma estrela gigante vermelha. Seguidamente, o seu núcleo irá colapsar e tornar-se uma anã branca. O colapso irá parar devido às forças atómicas (pressão dos eletrões).
Estrelas mais massivas e maiores veem o seu núcleo colapsar ainda mais, criando supernovas e resultando em pulsares.
Estrelas ainda mais massivas colapsam ainda mais até se tornarem buracos negros.
Tyson explica que existem limites para a massa e tamanho das estrelas, dando o exemplo de Eta Carinae que é tão instável que vai explodir como hipernova proximamente.

No final, Tyson explica que toda a matéria na Terra é constituída por elementos feitos nas estrelas (somos poeira estelar) e que sem a energia/luz solar não existiria vida na Terra.

Este é um episódio excelente.
Adorei o final, com um grafismo incrível, em que estamos num planeta num aglomerado globular a ver uma galáxia (Via Láctea) “a nascer” no horizonte. A manhã começa com a luz, não de um Sol, mas sim de 200.000.000.000 sois.
Adorei a parte em que Tyson, sarcasticamente, diz não saber a razão (sexismo) para nunca se ouvir falar de Cannon, Leavitt ou Payne. Em ciência, onde a autoridade pouco vale, estes preconceitos não deveriam existir. O que conta são as evidências que nos são dadas pela natureza e não as pessoas que nos mostram essas evidências.
Gostei bastante do segmento sobre Eta Carinae.
Curiosamente, eu não colocaria tanto ênfase na correlação entre vida e luz estelar. É que existe vida na Terra que não precisa do Sol. Imagino que pelo Universo exista igual possibilidade, ou seja, poderá existir vida que não quer saber de estrelas para nada.

Cosmos-season-1-episode-9

9 – Os Mundos Perdidos do Planeta Terra (The Lost Worlds of Planet Earth)

Este episódio explica a história da Terra.
Tyson começa há 4 mil milhões de anos atrás, durante o Período do Bombardeamento Intenso Tardio.
Seguidamente, Tyson mostra a biografia da Terra, com continentes, oceanos e vida completamente diferente da atual.
Tyson também explica como as placas tectónicas moldaram a Terra durante milhões de anos.
O passado é um planeta diferente… Na verdade, o passado são muitos planetas diferentes do atual… Será que reconheceríamos a Terra, quando ela tinha oceanos roxos e céus verdes?

Basicamente, o episódio explica a paleogeografia da Terra durante milhões de anos, e o seu impacto no desenvolvimento da vida na Terra.
O episódio foca especialmente os momentos das extinções em massa e as consequências para o desenvolvimento da vida.

Tyson começa por explicar a altura em que as primeiras árvores se desenvolveram. Não existiam aves nem flores. A Terra passou a ser o Planeta das Árvores. Há 350 milhões de anos, as árvores de lignina não eram benéficas para os animais e quando caíam/morriam ficavam enterradas (carvão). Isto levou a uma abundância de oxigénio na atmosfera que era bastante benéfica para vários animais, como por exemplo os insetos. Há 300 milhões de anos, temos a chamada Era dos Insetos Gigantes.
50 milhões de anos mais tarde, a atividade vulcânica na atual Sibéria durou centenas de milhares de anos e queimou (lava) todo o planeta, libertando dióxido de carbono e ácido sulfúrico para a atmosfera. Isso levou a um aquecimento global, que aqueceu os oceanos e libertou o metano lá contido. Tudo isto teve um resultado: a pior extinção da história, a extinção massiva do Permiano-Triássico, há 252 milhões de anos, que exterminou mais de 90% de todas as espécies terrestres. Esta foi a Grande Morte: o mais perto que a vida na Terra já esteve da aniquilação.

Seguidamente, Tyson explica o fenómeno das placas tectónicas (deriva continental).
Tyson explica como alguns cientistas, como Abraham Ortelius, colocaram a hipótese de que os continentes estiveram ligados no passado, sendo que Alfred Wegener colocou a hipótese de um super-continente chamado Pangeia (hipótese pela qual foi ridicularizado), e Bruce C. Heezen e Marie Tharp descobriram a crista oceânica do Atlântico / Dorsal Meso-Atlântica (evidência para a deriva continental).

Tyson conclui esta parte indo para o fundo dos oceanos e vendo a imensa vida que existe por lá, muito diferente da superfície, sem luz solar, onde a noite é permanente, mas onde o ecossistema assenta na quimiossíntese, baseada no sulfeto de hidrogénio que sai das chaminés negras.

Depois, Tyson explica como o impacto de um asteroide iniciou a extinção do Cretáceo-Paleógeno que levou a que pequenos mamíferos se tornassem a espécie dominante na Terra. A Terra tornou-se no Planeta dos Mamíferos.

De seguida, Tyson explica eventos geológicos mais recentes, como a formação do Mar Mediterrâneo, e a formação do Istmo do Panamá que quebrou a ligação entre o Atlântico e o Pacífico, o que levou a mudanças climáticas globais, que tiveram como resultado transformar África de um terreno fértil para desertos.
Estas mudanças climáticas em África fizeram com que alguns mamíferos descessem das árvores e passassem a andar em pé.

Tyson explica como os outros planetas têm influenciado a órbita e a inclinação do eixo de rotação da Terra, e como isso levou a algumas idades do gelo. Essas idades do gelo, por sua vez, influenciaram o comportamento nómada dos humanos primitivos.

No final, Tyson explica que os continentes continuarão a mudar e existirão outras extinções em massa no futuro.

Este é mais um episódio brilhante.
A grande mensagem do episódio parece ser: a estabilidade é uma ilusão.
A única constante no Universo, na Terra e na nossa vida, é a mudança.
É também interessante perceber que o passado são muitos planetas diferentes do atual, e o futuro são também muitos planetas diferentes do atual: constelações diferentes no céu, atmosfera muito diferente, continentes diferentes, cores do céu e dos oceanos diferentes, fauna e flora diferentes, etc.
Em termos de educação científica, não me parece que foi correto somente referir que Alfred Wegener foi ridicularizado, sem existir um contexto educacional que explique aos pseudos que nem toda a gente que faz afirmações extraordinárias vai no futuro ver as suas ideias vingadas.
Tyson conclui o episódio com uma mensagem para os (sobretudo) americanos que negam as mudanças climáticas. Tyson mostra que as mudanças climáticas são uma constante. E que atualmente estamos a acelerar essas mudanças. Para a Terra é indiferente, porque o planeta vai continuar. No entanto, estamos a potencializar a nossa extinção: estamos a tornar o planeta pouco habitável para os humanos. Se continuarmos a fazer o mesmo, proximamente vamo-nos juntar aos dinossauros, trilobites, e inúmeras outras espécies extintas. Tyson pede que lutemos contra isso: deixemos a nossa obsessão por combustíveis fósseis e mudemos para a energia solar.
No final, Tyson deixa uma mensagem mais positiva: todas as criaturas que estão vivas hoje são descendentes dos sobreviventes das diversas extinções em massa. Nós somos sobreviventes na “corrida” da evolução. A vida é incrivelmente resistente. Certamente que existirão extinções em massa no futuro. Estaremos entre os sobreviventes?

Cosmos-The-Electric-Boy-Episode

10 – O Rapaz Elétrico (The Electric Boy)

Vivemos num mundo de alta tecnologia, com comunicações instantâneas pelo mundo (ex: telemóveis/celulares, televisões, e-mail, Facebook, Twitter) e com embaixadores robóticos nas fronteiras do sistema solar.
Tudo isto só é possível devido à contribuição científica do génio que Albert Einstein venerava (devido ao enigma do compasso): Michael Faraday.

Este episódio é dedicado à inspiradora história de vida de um dos grandes génios da história humana: Michael Faraday.
Faraday nasceu muito pobre, nunca ninguém deu nada por ele, e era um Cristão fundamentalista. Mas ao colocar a ética de trabalho e a verdade da natureza acima de tudo, ele conseguiu inventar o motor e o gerador, e foi o pioneiro que nos deu o mundo eletrónico em que vivemos atualmente.

O episódio também se dedica ao campo magnético e ao eletromagnetismo, descoberto através do trabalho de Faraday.

Tyson começa por explicar que Isaac Newton postulou que deveria existir uma outra força natural, similar à força gravitacional.
De seguida, Tyson fala de Faraday, que nasceu bastante pobre, mas ficou bastante interessado e fascinado pela eletricidade após ler alguns livros e assistir a palestras de Sir Humphry Davy. Davy contratou Faraday após perceber que ele tirava enormes notas das palestras. Assim, Faraday foi contratado como secretário e assistente de laboratório.

Após Davy e o químico William Hyde Wollaston falharem na sua tentativa de desenvolver o trabalho de Hans Christian Ørsted, de modo a descobrirem o fenómeno eletromagnético, para criar movimento através da eletricidade, Faraday criou o primeiro motor elétrico.
Davy não gostou desta descoberta de Faraday e colocou-o num trabalho diferente.
Faraday aproveitou para criar uma série de Palestras de Natal para ensinar ciência às crianças – ele foi um dos pioneiros da educação/divulgação científica para o público.

Após a morte de Davy, Faraday voltou ao trabalho sobre eletromagnetismo, criando o primeiro gerador elétrico.

Apesar de ter perdido parte da sua capacidade mental (sobretudo memória), Faraday conseguiu perceber que a eletricidade e o magnetismo estavam ligados por campos invisíveis, e postulou que a luz também está ligada a estas forças.
Faraday compreendeu as “energias invisíveis” até então desconhecidas.
Ele conseguiu ver a realidade física que nos rodeia.

Em 1840, Faraday conseguiu ligar as 3 forças (eletricidade, magnetismo, e luz), e postulou que estes campos existem por todo o planeta. A Terra é um íman gigante. Mais tarde, isto seria chamado de Campo Magnético Terrestre, gerado pelo núcleo exterior terrestre de ferro líquido em rotação.
Faraday desenvolveu inicialmente a Teoria Clássica de Campos.

No início, a comunidade científica não podia aceitar o trabalho de Faraday, devido à falta de suporte matemático. No entanto, após James Clerk Maxwell desenvolver as suas equações, estas validaram o trabalho de Faraday.

Maxwell também percebeu que a luz é somente radiação eletromagnética (é tudo o mesmo).
Maxwell descobriu que os campos eletromagnéticos não são estáticos, mas movem-se em ondas (eletromagnéticas). É este movimento que nos permite ver televisão e enviar mensagens à velocidade da luz entre locais bastante distantes.

Os trabalhos de Faraday e de Maxwell são a base da ciência no mundo moderno de comunicações eletrónicas.

O episódio é muito bom.
Este episódio mostra a dedicação dos cientistas e sobretudo os problemas que têm que ultrapassar ao longo de décadas até fazerem uma descoberta cientifica.
É incrível como o motor elétrico de Faraday iniciou uma revolução tecnológica: coisas tão simples como ventoinhas, ar condicionado, máquinas de coser roupa, máquinas elétricas de bricolagem, até coisas mais complexas como rádio, telefone, frigoríficos, computadores e carros, todas foram desenvolvidas a partir do motor elétrico de Faraday.
É interessante perceber que toda a tecnologia que temos hoje se deve ao esforço, inteligência e conhecimento científico de Faraday, Maxwell e milhares de cientistas pela história de quem nem sabemos o nome. Curiosamente nada do que temos hoje se deve às crenças dos vendedores de banha-de-cobra do passado (eles considerariam as televisões, internet, telefones, etc, de hoje como se fossem feitiçaria!), assim como no futuro nada do que tivermos se vai dever às vigarices que são hoje divulgadas por homeopatas, astrólogos, crentes em reiki, etc. É a ciência que nos leva ao progresso. Sempre. Por muito que custe aos hipócritas que negam o conhecimento científico.
De forma interessante, este episódio sobre história é narrado inteiramente através de animação.
Neste episódio percebeu-se que a série não é anti-religião. Eles poderiam ter feito um episódio de críticas fortes ao facto de Faraday ser Cristão fundamentalista, mas preferiram não se concentrar nessas críticas. Porque tomaram esta decisão? Porque a sua crença não impediu o progresso científico. Ele não deixou que as suas crenças o limitassem a nível da racionalidade científica. Por outro lado, o eletromagnetismo não é algo que os Criacionistas neguem, por isso não havia necessidade de elucidar os fundamentalistas quanto a estes factos.
Adorei a explicação sobre o campo magnético e as consequentes auroras. E a parte visual das auroras está soberba!
Adorei quando Tyson explicou que as aves migratórias, entre outros animais, usam o campo magnético terrestre para se orientarem.
Tendo em conta o tema deste episódio, penso que faria sentido falar-se da reversão dos polos, de forma a sossegar as pessoas e elucidar sobre o fenómeno. É um tema atual que tem relevância.
Não gostei de ter sido dada tão pouca relevância a Maxwell (somente 3 minutos no final). Porque não existiu uma explicação razoável das suas equações?

civilizations

11 – Os Imortais (The Immortals)

Este episódio fala de vida: da origem da vida na Terra e da possibilidade de existência de vida extraterrestre.
O episódio também explora a hipótese da panspermia, com cometas e asteróides a transportar organismos resistentes à radiação e a semear a vida pelo Universo.
Por fim, o episódio também analisa a possibilidade de se detetar civilizações alienígenas.

Tyson começa o episódio por explicar como o desenvolvimento da escrita permitiu aos humanos transmitir informação através dos séculos.
A Princesa Enheduanna, no ano 2.260 a.C. foi a primeira pessoa a escrever o seu nome num dos seus trabalhos (um poema sobre a deusa do amor, o planeta Vénus). Ela tornou-se “imortal” ao ser conhecida mais de 4.000 anos após ter morrido.
A coleção de histórias de Gilgamesh (que viaja em busca da imortalidade) inclui o relato de Utnapishtim que documenta um dilúvio semelhante à história da Arca de Noé. Utnapishtim construiu uma arca cerca de 1.000 anos antes de Noé. Mais uma vez, estas personagens tornaram-se imortais, devido à passagem destas histórias através dos séculos e de dezenas de gerações.

De seguida, Tyson explica que o DNA faz algo semelhante: transmite informação ao longo das gerações de modo a disseminar a vida.
Tyson fala de algumas teorias/hipóteses sobre a origem da vida terrestre, incluindo uma pequena e quente poça de água (“warm little pond“), chaminés negras no fundo dos oceanos, e colisão de cometas/asteróides.

Sobre colisão de corpos espaciais, Tyson explica que ao comparar a composição do meteorito Nakhla com os resultados das sondas Viking, percebeu-se que material de Marte poderia viajar para a Terra, quiçá com alguns micróbios bastante resistentes. Ao longo de centenas de milhões de anos, a vida poderia se propagar de planeta em planeta pela galáxia.

A seguir, Tyson fala sobre a possibilidade de existência de vida noutros planetas.
Ele começa por explicar o Projeto Diana, em 1946, que mostrou que as ondas rádio podiam viajar pelo espaço. Assim, os nossos programas de televisão estão a chegar aos outros planetas.

Desde 1960, temos estado à escuta, para tentar receber sinais rádio de potenciais civilizações extraterrestres (programa SETI). Mas até agora, nada.
No entanto, é preciso considerar o tempo de vida de civilizações extraterrestres. Elas podem ser exterminadas por desastres naturais (como super-vulcões), guerras (nucleares, por exemplo), e até por causas cósmicas (como supernovas).

Seguidamente, Tyson explica que a maior probabilidade de existirem civilizações extraterrestres será em planetas em órbita de estrelas anãs vermelhas (devido ao seu maior número e à sua antiguidade).

Tyson acredita que a inteligência humana deve ser capaz de evitar os desastres naturais, e provavelmente levar-nos-à às estrelas (mudarmos de lar) quando o Sol se transformar numa estrela gigante vermelha.
Tyson diz-nos que vamos colonizar outros planetas, e mostra algumas das naves espaciais do futuro, como as “arcas espaciais” (naves para várias gerações).
O episódio finaliza com Tyson a dizer que a Humanidade ainda tem muitos “rios” para atravessar, ou seja, ainda temos muitas viagens (espaciais) para fazer.

O episódio é bom.
No entanto, talvez por ser esta a minha área, não gostei assim tanto do episódio.
O episódio tem excelentes efeitos especiais.
Adorei a história da Princesa Enheduanna.
Adorei o relato da erupção do super-vulcão Toba, há 74 mil anos atrás.
Adorei a parte em que Tyson diz que é demasiado limitativo pensar que civilizações extraterrestres usam as ondas rádio. É esperar que elas estejam no mesmo nível de desenvolvimento que os humanos, o que é basicamente impossível. Nós há somente 100 anos não conseguíamos detetar ondas rádio alienígenas. Basta eles estarem 100 anos atrasados a nós, para não nos ouvirem; ou 100 anos adiantados, para nós não sabermos que tipo de sinal eles usam.
Gostei bastante da forma como ele falou na história das civilizações. Em vários locais ao mesmo tempo, as pessoas pensavam que os seus deuses (da sua cultura) estavam contra eles (e inventavam justificações do dia-a-dia). No entanto, se essas culturas tivessem conhecimento dos assuntos, percebiam que por todo o lado existia o mesmo problema, e era derivado das alterações climáticas. Ou seja, o real conhecimento dos assuntos serviria-lhes muito melhor do que as suas falsas explicações mitológicas/sobrenaturais.
Gostei da parte inicial em que Tyson especula sobre como seria vivermos para sempre, e questiona a forma como seres imortais extraterrestres poderiam perceber o espaço-tempo.
Tyson falou das suas crenças pessoais sobre a humanidade, sem existirem quaisquer evidências para aquilo que ele espera que a Humanidade faça. No entanto, é verdade que ele tinha que deixar uma mensagem de esperança e sobretudo de confiar na ciência. E é isso que ele diz: se aplicarmos a racionalidade e confiarmos no conhecimento científico, poderemos chegar muito longe.
Infelizmente, o episódio saltou demasiado entre diferentes assuntos. Não existe uma narrativa ao longo do episódio, como em episódios anteriores. Não há encadeamento. Não há consistência.
Além disso, é um episódio demasiado especulativo.
Aliás, pareceu-me um episódio de “venda mediática” da hipótese da panspermia, como se fosse a melhor ideia para a origem da vida. Mas esta hipótese nem sequer explica a origem da vida, somente a coloca noutro local. Porque Tyson não se concentrou, por exemplo, na vida ao redor das chaminés negras no fundo dos oceanos, como uma hipótese bem sustentada de possível origem da vida na Terra? Faria mais sentido…
Faltou falar das limitações nos diversos assuntos que Tyson explanou.
Por outro lado, Tyson misturou diferentes tipos de vida que nada têm a ver: poderem existir micróbios transportados entre planetas nada tem a ver com civilizações tecnológicas a transmitir em rádio.
Da mesma forma, o episódio mistura diferentes definições de imortalidade: quando diz que podemos ser imortais ao morrermos mas vermos o nosso trabalho reconhecido milhares de anos no futuro, e quando diz que seres extraterrestres podem ser literalmente imortais.
Percebo porque Tyson fala de um novo Calendário Cósmico (para os próximos 14.000.000.000 de anos). Supostamente essa parte final do episódio é para inspirar as gerações futuras. Mas sinceramente, parece-me demasiado especulativo e simultaneamente limitativo. Há 100 anos atrás, alguém poderia prever a internet? Claro que não. Alguém duvida que daqui a 100 anos teremos coisas que atualmente não conseguimos prever? Eu não. Por isso, para quê tanta especulação, se na prática muito provavelmente viveremos num mundo muito para além da nossa imaginação atual? Para inspirar as gerações futuras não será melhor se não lhes dissermos o que irão/deveriam fazer no futuro? Aliás, o próprio Tyson refere isso no final do episódio.

image_239303_4

12 – O Mundo Livre (The World Set Free)

Este episódio centra-se no problema das alterações climáticas/aquecimento global, discutindo o quanto os humanos afetam o aquecimento global, se podemos resolver o problema, e se poderemos ter energias alternativas.
Devido ao problema em questão, o episódio também fala de Vénus e do seu efeito-estufa.
O título do episódio deve-se ao livro de H.G. Wells, The World Set Free, publicado em 1914, em que Wells previu o desenvolvimento de armas nucleares, numa guerra global.

Em 1896, Svante Arrhenius publicou um artigo científico sobre a emissão de dióxido de carbono pelos humanos, prevendo um efeito estufa.
Na década de 1930, E.O. Hulburt e Guy Callendar concordaram cientificamente que o aquecimento global era um problema.

Tyson explica que o planeta Vénus já teve oceanos e uma atmosfera moderada, mas devido a um efeito estufa descontrolado é hoje um local infernal, em que os oceanos evaporaram, tendo perdido as condições de habitabilidade à superfície.

Em seguida, Tyson refere que também na Terra existe um equilíbrio precário no clima, e que este equilíbrio está a ser colocado em causa pela quantidade de dióxido de carbono que os humanos colocam na atmosfera.
Atualmente temos um aquecimento na temperatura global do planeta, devido aos níveis de dióxido de carbono na atmosfera.

Tyson defende que temos que passar a utilizar mais a energia solar e a energia eólica (energias renováveis), e não os convencionais combustíveis fósseis.
Tyson diz mesmo que temos que abordar este problema como na Corrida Espacial, tendo um país inteiro a trabalhar para atingirmos a meta de 100% de energias renováveis.
Se assim o fizermos, o nosso futuro pode ser magnífico.

Este é um bom episódio.
Percebe-se o porquê do tema deste episódio, tendo em conta a negação das Alterações Climáticas nos EUA.
No entanto, não gostei do tom “preachy” (sermão) que o episódio denotou. Parece que Tyson optou por “lições de moral”.
Não seria mais fácil mostrar o documentário apresentado por Al Gore? A diferença não é muito grande entre os dois.
Não entendo porque Tyson referiu várias vezes o Aquecimento Global, quando atualmente a expressão consensual é Alterações Climáticas. Aliás, este é um dos problemas do episódio: falar mais em aquecimento, e praticamente não referir os extremos em termos de tempo.
Tyson esclarece algumas das causas do aquecimento global. Tyson explica que não pode ser devido a atividade vulcânica (responsável por 500 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera por ano, mas o Homem coloca 30.000 milhões de toneladas todos os anos – e com uma assinatura química diferente). Tyson também refere que o Sol não é o responsável, já que durante décadas o Sol muda pouco, além de que o aquecimento global parece ser mais notado à noite e no inverno. Convenceu-me ao falar da atividade vulcânica, mas não quando falou do Sol.
Mas não falou das fracas medições. Pelo contrário, disse que os registos eram fiáveis desde 1880.
Não referiu o facto de aparentemente a temperatura aumentar antes do dióxido de carbono aumentar na atmosfera (ou seja, o aumento de dióxido de carbono ser uma consequência e não uma causa).
Também não entendo a obsessão com o dióxido de carbono, esquecendo outros gases de estufa mais importantes como o vapor de água e o metano.
O facto de Tyson nem sequer ter referido que no passado a Terra já teve ciclos em que as temperaturas estavam mais altas e não se devia aos humanos, foi para mim uma evidência que na verdade Tyson só estava a “olhar para um dos lados” e que o episódio era tendencioso.
Na verdade, Tyson refere que os níveis de dióxido de carbono são os mais altos dos últimos 800 mil anos. Isto é menos que 1 milhão de anos em 4500 milhões de anos. Ou seja, é menos de 0,02%. Como é que se podem tirar conclusões fidedignas baseadas em 0,02% de uma amostra?
Quando Tyson fala do facto das temperaturas globais estarem a aumentar, porque não coloca a hipótese de ser devido a ciclos naturais na Terra?
Tyson reitera que a ciência baseia-se em evidências, não opiniões. Porque então não deu evidências sobre vapor de água, metano, passado quente da Terra, etc? Novamente, o episódio pareceu-me tendencioso.
Como já disse em vários artigos, discordo totalmente da posição antropocêntrica defendida por aqueles que colocam (quase) toda a culpa do problema nos Humanos, esquecendo todos os outros gases e todos os outros fatores (incluindo externos).
Detestei o facto do episódio não distinguir aqueles que negam as alterações climáticas daqueles que aceitam as evidências, mas negam que se possa afirmar que o homem é o principal responsável. Não se nega as conclusões tiradas por equipas de cientistas, mas não se percebe porque colocam de parte as críticas de vários cientistas às limitações existentes nas interpretações. Não quer dizer que o Homem não influencie nem contribua para o aquecimento global. Isso ninguém nega. O que é discutível é a percentagem dessa ajuda humana. O episódio foi assim tendencioso.
Não percebi porque foi dedicado um episódio inteiro a este tema, tendo em conta que já foi referido esporadicamente em episódios anteriores.
Sobretudo tendo em conta que existem centenas de outros temas mais interessantes que poderiam ser abordados, como a relatividade, a diversidade de planetas extrasolares, a física quântica, o bosão de Higgs, a probabilidade de vida no sistema solar (ex: Europa), etc, não entendo porque se perdeu tanto tempo neste tema.
É importante realçar que Salvar Humanos e Salvar a Terra, são conceitos bastante diferentes.
Não percebi porque Tyson, com excelentes efeitos especiais, não mostrou quais as consequências de não fazermos nada para resolver este problema. Parece-me que 1 imagem valeria mais que 1000 palavras.
Não entendi o titulo deste episódio. Não percebo o que a guerra nuclear tem a ver com o episódio. Compreendo que o objetivo é dizer que o Mundo Pode Ficar Livre da sua dependência de combustíveis fósseis. No entanto, pareceu-me desajustada a ligação à guerra nuclear.
Adorei a distinção entre clima e tempo (com o exemplo de uma pessoa a passear um cão com trela). O clima é de longo prazo (anos), estável (mudanças graduais) e previsível, enquanto o tempo é de curto prazo (dias) e caótico (demasiadas variáveis).
Adorei a crítica a quem, após alguns dias frios numa determinada região, imediatamente tira a conclusão que o aquecimento global não existe.
Adorei a promoção das energias renováveis, especialmente a energia solar e a energia eólica. O Sol e o vento dão-nos mais energia do que alguma vez iremos precisar. O obstáculo à mudança não é científico nem tecnológico, mas sim político. Adorei esta parte, em que Tyson aponta o dedo a quem de direito. São os políticos que têm que liderar – tal como fez JFK.
Adorei o segmento com Augustin Mouchot e Frank Shuman, que nos mostra que podíamos ser uma civilização movida a energia solar há mais de 100 anos. Mas condicionalismos conjunturais fizeram com que a história tomasse outro rumo.
Adorei a comparação com as Missões Apollo, pela inspiração que proporciona.
Adorei a parte final, com o que a Terra pode ser, se optarmos pelas energias renováveis. Visualmente, foi um segmento fabuloso.
Adorei o segmento sobre o planeta Vénus.
Adorei a parte em que Tyson diz: “A natureza pode destruir o ambiente sem precisar da ajuda de humanos.” Ele disse isto quando se estava a referir a Vénus. Também podia ter dito isto se se referisse a inúmeras épocas terrestres. Só não entendo, porque ele não aproveitou este conhecimento para colocar um travão mental e colocar a hipótese: será que atualmente poderemos estar na presença de causas naturais?
Gostei bastante de Tyson ter referido que a maior parte do aquecimento global dá-se nos oceanos.
Gostei bastante do segmento sobre o climatólogo e oceanógrafo Charles David Keeling. No entanto, quando Tyson comparou a Terra a um organismo vivo, uma esfera que respira, não foi de Keeling que me lembrei mas sim de James Lovelock com a hipótese Gaia. Infelizmente, Tyson nem sequer referiu Gaia, que me parecia mais interessante.
Gostei de Tyson ter referido que há pessoas que negam o aquecimento global, porque é um fenómeno muito gradual, que as pessoas não veem com os seus olhos, e por isso é difícil de aceitarem.
Foi bastante curioso que, imediatamente após este episódio passar na televisão americana pela primeira vez, nas notícias passou a informação que a Administração Obama (através da EPA) vai limitar as emissões de CO2.
Gostei bastante da pergunta final: mesmo que estejamos errados quanto ao aquecimento global, não faz mais sentido passar a utilizar energias renováveis? Claro que sim!

113-001-cosmos-unafraid-of-the-dark-large-photo-960x540

13 – Sem Medo do Escuro (Unafraid of the Dark)

O último episódio desta série lida com os mistérios da energia negra e da matéria negra.
O astrónomo suíço Fritz Zwicky é um dos heróis deste episódio. Fritz Zwicky foi um génio, incompreendido no seu tempo, que nos deu conhecimento de supernovas, estrelas de neutrões (pulsares), lentes gravitacionais e matéria negra.

O episódio começa com a Biblioteca de Alexandria. Com a sua destruição, o conhecimento humano sofreu um duro golpe. No entanto, a humanidade continua a querer saber mais: a procura pelo conhecimento não se deteve.

Em 1492, Martin Behaim criou o melhor mapa do globo terrestre. Tinha todo o nosso conhecimento de geografia terrestre: 3 continentes e 1 oceano. Apenas alguns meses depois, Colombo descobriu outro continente, e para lá desse continente existia um outro enorme oceano.
O conhecimento da Terra por parte de Behaim era incompleto, mas mesmo assim era muito maior do que o conhecimento que atualmente temos do universo…

Através de balões de grande altitude, Victor Hess descobriu a existência de raios cósmicos.
O astrónomo suíço Fritz Zwicky postulou que os raios cósmicos tinham como fonte as supernovas. Zwicky também estudou o movimento das galáxias no Aglomerado Coma de galáxias. Os seus cálculos sugeriam que tinha de haver mais massa no Universo do que aquela que conseguíamos detetar. Zwicky chamou a isto: matéria negra.
Mais tarde, o trabalho de Vera Rubin, ao analisar a órbita das estrelas na parte exterior das galáxias, confirmou que tinha que existir mais matéria do que aquela que se detetava.
Ainda mais tarde, o estudo de supernovas em galáxias distantes levou à descoberta da energia negra, por Edwin Hubble, que é a responsável pela expansão do Universo.

Em seguida, Tyson passa para o tema das viagens interestelares, nomeadamente para as viagens das sondas Voyager, que foram/são um enorme sucesso científico. Foram também um tremendo sucesso de marketing, com o Voyager Golden Record e com a fotografia do “Pale Blue Dot” – “a mote of dust suspended in a sunbeam” – um ponto azul-claro, um grão de poeira suspenso num raio de sol.

Tyson conclui mostrando a fabulosa Mensagem de Sagan, sobre a insignificante condição humana num enorme universo.

No final, Tyson encoraja as pessoas a explorarem o Universo e a conseguirem cada vez mais conhecimento sobre ele.

A série termina com mais um brilhante episódio.
Mais uma vez, este episódio tem excelentes efeitos especiais.
Adorei a conclusão de Tyson: se a pessoa gosta de ser o centro de um universo pequeno, então o conhecimento científico vai contra as suas crenças; se a pessoa adora viver num universo gigantesco, então é normal que tenha curiosidade sobre ele, que dê valor ao conhecimento e à verdade.
Adorei a mensagem final: o universo é enorme e nós somos insignificantes nele.
Adorei outra mensagem: a nossa imaginação é demasiado pequena quando comparada com a impressionante realidade da natureza.
Adorei outra mensagem: ainda temos muito por descobrir no universo. Essas descobertas só serão concretizadas pela ciência.
Aliás, Tyson diz mesmo: é incrível como uma civilização consegue enviar os seus artefactos para outros mundos situados a bilhões de km de distância. Como conseguimos estes feitos? Com a ciência! Com várias gerações de cientistas! Com conhecimento científico!
Adorei ainda outra mensagem transmitida: não são as nossas crenças ou ideias pré-concebidas que contam, mas o conhecimento que nos é dado pela natureza. Tyson, tal como Feynman, diz mesmo: se as nossas ideias estão em desacordo com as experiências/evidências que nos são dadas pela natureza, então devemos mudar de ideias, porque estamos errados! É esse teste/experiência que manda. É a natureza que manda. Não são as nossas ideias/crenças/ideologias/filosofias que comandam o Universo, mas sim o Universo que nos diz o que está certo e o que está errado. Acreditar em algo, não o torna verdade! O que nós acreditamos, é irrelevante; nós devemos querer saber, devemos querer conhecimento. Tyson termina dizendo: “Science is a way to keep from fooling ourselves and each other” – a ciência é a forma de impedir que nos enganemos a nós próprios e aos outros.
Mais uma frase emblemática de Tyson: devemos adorar a natureza tal como ela é (e não da forma que gostaríamos que fosse, pelas nossas crenças).
Adorei a forma como Tyson deu a volta a certas críticas à ciência. Os cientistas não se sentem diminuídos por não saberem o que é a matéria negra e a energia negra. Pelo contrário. Isso são oportunidades de criar conhecimento, de sermos curiosos, de querermos saber mais. A ciência não se assusta com o desconhecido; a ciência não se sente intimidada pelo desconhecido; a ciência não tem “medo do escuro”. Quem tem medo do “escuro”, de tudo o que é desconhecido são outros: a religião e os pseudos que inventam pseudo-explicações porque têm medo de dizer “não sei” – Tyson diz-lhes mesmo que acreditar nas respostas erradas e fingirem saber tudo, fecha-lhes a porta para a descoberta do que realmente existe. Já a ciência adora o desconhecido, porque é nessa área que o conhecimento está disponível para ser construído. A ciência é precisamente isso: ver para lá da redoma em que nos encontramos, espreitar por entre a cortina (tal como na famosa pintura que aparece no livro de Camille Flammarion, nós vamos desvendando os mistérios do Universo – como foi explicado no 1º episódio).
Aliás, a parte inicial é brilhante, com a experiência mental, de pensarmos que nos biliões de estrelas em biliões de galáxias, pegamos numa estrela que tem vários planetas a orbitá-la, e num desses planetas, nos triliões de seres vivos que existem, existe uma parte deles que acredita que o seu mundo é todo o universo, que o universo foi feito para eles… Alguém os leva a sério? Claro que não! Nós pensaríamos desses seres: que inocentes que eles são! E que errados que eles estão! E, no entanto, isso é o que pensa, erradamente, uma parte da população humana: essas pessoas continuam a pensar que num vastíssimo universo, elas são muito especiais e o Universo foi feito para elas.
Adorei uma frase de Tyson: ao olhar para uma pequena pedra, a diferença entre só ver uma pedra ou saber ler a história do cosmos escrita no seu interior, é a ciência!
Adorei o final com a Mensagem de Sagan.
Adorei a homenagem a Fritz Zwicky.
Adorei o segmento com as sondas Voyager.
Adorei o ênfase colocado na importância do conhecimento e do pensamento crítico.
Adorei que Tyson tivesse referido que os termos “energia negra” e “matéria negra” são somente termos que refletem a nossa ignorância, já que não sabemos o que essas coisas são.
Na verdade, só conhecemos cerca de 5% do Universo.
Adorei a parte em que, após explicar a matéria negra (com a brilhante analogia da espuma das ondas do oceano), Tyson vai começar a explicar a energia negra. E o que diz Tyson nessa transição? “But, wait, it gets crazier!” 😀
Compreendo que Tyson, ao falar da Biblioteca de Alexandria, tenha dito que o conhecimento deve ser livre para todos (ao contrário desse tempo em que só alguns tinham acesso a esse conhecimento). Defendo obviamente o mesmo, daí a existência deste blog. No entanto, parece-me muito “inocente” de Tyson argumentar que a internet leva o conhecimento a toda a gente; não leva. Há muita gente que não quer esse conhecimento. Por outro lado, ao contrário da Biblioteca de Alexandria, a internet é também um repositório de desinformação, vigarices e pseudociência. Por fim, no mesmo tema, Tyson diz que o conhecimento científico deve estar aberto a todos, porque toda a gente pode avaliar as conclusões científicas; mas isto é errado. Não é porque alguém diz que sabe, que passa a saber e que passa a querer avaliar os outros. A revisão de conhecimento não funciona dessa forma. A revisão deve ser feita, obviamente, por quem tem o conhecimento para isso.
Gostava que o episódio tivesse falado mais da energia negra. Penso que merecia mais tempo.
Não gostei de Tyson dar a entender que sabemos como o Universo evoluiu no passado. A verdade é que não sabemos. Mais uma vez, os nossos modelos só refletem a nossa ignorância.
Não gostei, novamente, da inconsistência da narrativa: saltar entre assuntos diferentes.

a_cosmos

Cosmos é uma série brilhante.

Daí que não seja surpresa o facto de ter sido nomeada para 12 Emmys e ter ganho alguns deles, incluindo o Emmy para Ann Druyan pela escrita dos episódios.
Merece. A série consegue explicar temas científicos complexos numa linguagem acessível ao público.

Claro que existiram episódios melhores e episódios piores, mas no geral, a série é excelente!
Para mim, os melhores episódios foram: , , , , e 13º.

A forma de explicar os temas, na sua generalidade, foi excelente.
Os efeitos especiais (CGI) por toda a série foram incríveis. Visualmente a série é fantástica.

Para mim, o maior problema desta série é que na maioria dos episódios foram incluídos “à força” assuntos diferentes. A transição entre os temas por vezes era paupérrima (porque não existia ligação possível). A desconexão nos episódios, a inconsistência na narrativa, a falta de encadeamento entre temas num mesmo episódio, irritou-me.

Como referi em alguns episódios, não entendi o porquê de se perder tanto tempo com certos temas.
Sobretudo porque não se falou de outros, para mim, mais importantes. Exemplos: relatividade, diversidade de planetas extrasolares, física quântica, bosão de Higgs, a probabilidade de vida no sistema solar (ex: Europa), etc.
Em especial a Física Quântica, tendo em conta os milhares de vigaristas que existem no mundo que utilizam a palavra quantica para enganar e promover a morte de pessoas, era vital explicar.

Não entendi algumas críticas à série.
Por exemplo, não entendo as críticas dos Criacionistas. A nova série foi bastante criticada pelos extremistas religiosos, levando a que Tyson apontasse o dedo aos hipócritas. O Criacionismo requer um tempo igual para eles na televisão, o contraditório. Mas eles por acaso sabem que uma televisão se faz com… ciência? Eles exigem que um dispositivo científico ignore a ciência e promova crenças pessoais. É ridículo e uma hipocrisia!
Na verdade, deviam era acabar os programas religiosos na televisão. Não é censura. Os programas religiosos poderiam obviamente divulgar as suas palavras utilizando as energias religiosas (e não aquelas explicadas pela ciência). Mas isto não é requerido pela ciência e pelos cientistas. Porque não? Porque a ciência é para todos e é tolerante.
Ainda mais ridículo se torna, porque se os Criacionistas tivessem visto os episódios, percebiam que eles não foram anti-religião. Pelo contrário, como se viu logo no primeiro episódio ao enaltecer Giordano Bruno… uma pessoa de fé. Cosmos é a favor da verdade, das evidências científicas, contra os dogmatismos e a intolerância. Os Criacionistas, pelos vistos, identificam-se com serem intolerantes e dogmáticos…
Também me parece bastante sintomático da época em que vivemos: os fundamentalistas ignorantes celebram programas como o Big Brother (onde se promovem as imbecilidades), mas se existe um programa que promove conhecimento, então protestam imediatamente. O objetivo é manter a população na ignorância.

Li algumas críticas na net sobre este novo Cosmos dizer basicamente o mesmo que o anterior, e não avançar muito no conhecimento.
Pessoalmente, concordo com aqueles que defendem que este novo Cosmos deveria falar ainda mais de temas “normais”, que fazem parte do dia-a-dia das notícias astronómicas, como fez o anterior Cosmos. Por exemplo, devia ter falado de planetas extrasolares, de física quântica, de potenciais lugares para a vida no sistema solar, etc, incluindo outros temas falados no primeiro Cosmos. Preferia isso a alguns temas escolhidos agora.

Li também algumas críticas ao facto de se ter perdido imenso tempo com educação científica, com o esclarecimento do que é a ciência.
Pessoalmente, eu adorei essas partes. Até porque os EUA precisam imenso disso. E, claro, penso que essas noções são super-importantes para a literacia da população.
Note-se também que a série foi criada porque Ann Druyan sentia “nas últimas décadas um retrocesso em direcção ao medo e à superstição. Um retrocesso que não existia na década de 1960, quando o homem foi à Lua. Voltar ao Cosmos, dizia ela, fazia parte de um novo ciclo de abertura em relação à ciência“. Por isso, é absolutamente normal que se tenha combatido as superstições com educação científica.

Compreendo mas não concordo com as comparações entre este Cosmos e o original. A comparação não me parece justa.
Para nós, que vimos a brilhante série original de Sagan, esse é o topo de todas as séries científicas. Para nós, “filhos” da 1ª série, nenhuma outra vai chegar ao seu nível. Não existe forma de existir outra série Cosmos que consiga estar ao mesmo nível da original de Sagan. Ann Druyan sabia disso. Tyson também. É impossível competir com alguém que faz parte do nosso imaginário. Mas Tyson teve a coragem de aceitar o desafio, mesmo sabendo que iria perder na comparação.
E Tyson, para mim, não desiludiu ao longo da série. Explicou as coisas de forma simples e com boa dicção. Ele expressou-se muito bem. E teve uma outra vantagem: uma ligação direta, emocional, a Sagan. Para mim, Tyson é um excelente sucessor de Sagan.

Além disso, parece-me que temos mais saudades da época da série original, do que propriamente aquilo que nos lembramos da série. Temos saudades desse tempo. Temos saudades de ser crianças… 😉
Eu vi recentemente a série com Sagan. A série tem limitações. O melhor da série é a dicção de Sagan e o conteúdo. Os efeitos especiais são primitivos, Sagan adorava mesmo camisolas de gola alta, e a série teve também (sei agora) alguns problemas que se podem criticar em alguns episódios (como se critica nesta série). Mas nós não nos “lembramos” disso. Porque na altura sabíamos muito menos de astronomia e porque temos a ideia romântica do nosso imaginário. A verdade é que hoje, se víssemos a série original, também seríamos muito mais críticos.

Por outro lado, vivemos noutra época.
Na época da primeira série, ela teve enorme impacto, porque não existia oferta. Só existia isso em divulgação de ciência. Por isso, todos vimos a série.
Hoje existem centenas de canais e milhões de websites a competir à mesma hora, além de que em ciência, existe uma grande variedade de oferta. O impacto de uma só série científica não é o mesmo atualmente (as pessoas estão mais dispersas) – quem vê é quem, à partida, já gosta de astronomia.
Realço também que, pelo resto do mundo (incluindo Brasil), esta nova série só passou em canal de cabo, o que obviamente limita bastante o número de pessoas que tem acesso e que viu esta nova série. No sentido contrário, agora, sobretudo os mais jovens, podem ver a série na internet (algo que não acontecia na altura da primeira série).

A verdade é que esta nova série não é para nós (que já vimos a primeira série). Nós vamos sempre preferir a primeira série. Nós vamos sempre achar que a primeira série dava mais valor à substância e esta deu mais valor à forma, à superficialidade dos efeitos especiais.
Esta série é para a nova geração, para inspirar e cativar as novas gerações a aprenderem e a celebrarem ciência. Daí os fabulosos efeitos especiais. Daí porventura a narrativa desconexa na maioria dos episódios (porque atualmente, não se consegue ficar muito tempo atento a um mesmo assunto).
É verdade que tendo em conta o menor impacto da série, a nova geração não será tão influenciada por esta série como nós fomos pela série original. Não vai deixar essas marcas científicas. No entanto, parece-me que, dentro dessas limitações, esta nova série conseguiu inspirar/cativar os jovens que a viram (pelo que fui lendo nas redes sociais). Os jovens que viram esta série tiveram o mesmo sense of awe (deslumbramento) que nós tivemos aquando da primeira série. O objetivo foi concretizado!

E, para nós, podemos ficar com a ideia que esta série é muito superior a qualquer outro programa científico na televisão atualmente. Informação científica de qualidade em horário nobre!
A série conseguiu trazer a ciência para o público na televisão, de uma forma acessível, divertida, com rigor científico, e sem as parvoíces jornalísticas do contraditório (suposto “equilíbrio” com falsidades).

É uma celebração da ciência!

COSMOS – Main Title Sequence from BBDG on Vimeo.

Para lerem análises a todos os episódios, por episódio, cliquem aqui.

2880x1111xCOSMOS_LOGO_FRAME_f.jpg.pagespeed.ic.0KGUK2Fvj5

Acerca do autor(a)

Carlos Oliveira

Carlos F. Oliveira é astrónomo e educador científico.
Licenciatura em Gestão de Empresas.
Licenciatura em Astronomia, Ficção Científica e Comunicação Científica.
Doutoramento em Educação Científica com especialização em Astrobiologia, na Universidade do Texas.
Criou e leccionou durante vários anos um inovador curso de Astrobiologia na Universidade do Texas.
Foi Research Affiliate-Fellow em Astrobiology Education na Universidade do Texas em Austin, EUA.
Trabalhou no Maryland Science Center, EUA, e no Astronomy Outreach Project, UK, recebeu dois prémios da ESA, e realizou várias palestras e entrevistas nos media.

4 comentários

16 pings

Passar directamente para o formulário dos comentários,

  1. Renato Romão

    Não sei se foi no 2º ou no 3º episódio.
    No entanto, achei que no episódio em que explicam as alterações climáticas exageram a questão da importância do Homem e a sua contribuição para a evolução das mesmas!
    Não referiram os ciclos da Terra e qual a importância da poluição gerada pela industria (+ou- nos últimos 100 anos). Achei muito tendencioso e até um pouco exagerada esta questão.

    Abraços!

    1. Carlos Oliveira

      Foi no 12º 😉

      Também sou bastante crítico nesse episódio 😉

  2. Renato Romão

    “Não seria mais fácil mostrar o documentário apresentado por Al Gore?”, tal e qual, foi extactamente o que pensei! 😉

    “É importante realçar que Salvar Humanos e Salvar a Terra, são conceitos bastante diferentes.”, Com esta frase o Carlos disse praticamente tudo.

    Sem dúvida, que o segmento sobre o planeta Vénus foi muito interessante, relacionando intrinsecamente com a evolução climática na Terra.

    Abraços!

    1. Ricardo Orsini de Castro Amarante [ROCA]

      E por falar em Al Gore, onde anda este sujeito?

  1. Cosmos – introdução

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  2. Cosmos – primeiro episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  3. Cosmos – segundo episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  4. Cosmos – terceiro episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  5. Cosmos – quarto episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  6. Cosmos – quinto episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  7. Cosmos – sexto episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  8. Cosmos – sétimo episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  9. Cosmos – oitavo episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  10. Cosmos – nono episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  11. Cosmos – décimo episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  12. Cosmos – décimo-primeiro episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  13. Cosmos – décimo-segundo episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  14. Cosmos – décimo-terceiro episódio

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  15. Cosmos – conclusão

    […] Para lerem análises a todos os episódios, num só artigo, cliquem aqui. […]

  16. 1% de diferença entre Humanos e Chimpanzés: Verdade? E quais as implicações disto? | Unidos pela Astronomia

    […] Ainda não conhece a série “COSMOS: Uma odisseia no espaço-tempo.” ? Veja uma matéria completa sobre ela: http://www.astropt.org/2014/08/30/cosmos-de-tyson/ […]

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>